Crítica | Um Tiro na Noite

estrelas 4,5

Em 1966, o cineasta Michelangelo Antonioni lançou Blow-up: Depois Daquele Beijo, uma trama elegante sobre um fotógrafo que flagra um crime através de fotos clicadas em um dia de trabalho qualquer, enquanto atuava em um parque de Londres. O profissional só vai dar conta do registro durante a revelação do filme em seu estúdio. Em 1981, Brian de Palma lançou o mesmo tipo de intriga, desta vez, dando ênfase ao som.

No filme o sonoplasta Jack Terry (John Travolta) está envolvido em seu mais novo projeto, um filme B sobre assassinatos em uma universidade. Certa noite ele sai para registrar sons oriundos de um local sombrio para o desenvolvimento do trabalho de áudio do filme, mas acaba se tornando um herói ao salvar uma moça (Nancy Allen) de um acidente automobilístico. Ao conseguir resgatá-la, Jack descobre que ela estava em companhia do governador George McRyan (John Hoffmeister), um dos candidatos à presidência nas eleições do ano em vigor.

Depois do incidente, o técnico de som parte para a continuação do seu trabalho. Será na conferência do material sonoro que ele descobrirá que o que se alega como acidente na verdade pode ter sido um crime encomendado, algo de bastidores da paranoia política bem comum aos anos 1970, uma época de insegura e mal-estar na sociedade estadunidense. Ele percebe que o som do estouro do pneu na verdade é de uma bala de revólver.

Quando um jornalista afirma ter as fotos que acompanham passo a passo o acidente, Jack adentra num processo investigativo, tendo como foco montar as imagens com o áudio que possui, para confirmar que o dito acidente não passou de um crime político. As informações que a garota sobrevivente possui ajudam a confirmar as suas primeiras impressões. Daí, como em um bom filme do cineasta que desta vez, assinou a realização e o roteiro, uma trama de conspiração política e morte se estabelece.

No que tange aos seus aspectos visuais, Um Tiro na Noite é sublime. A montagem inicial estabelece a dinâmica entre o trabalho de Jack e a situação conflituosa que vai se estabelecer adiante. Cada frame se oferta como demonstração das estratégias de um cinema que reflete sobre si mesmo, típico do cineasta Brian de Palma. A fotografia de Vilmos Zsigmond ajuda no desenvolvimento do clima do filme, tal como a trilha do italiano Pino Donaggio, principalmente no desfecho apoteótico.

Os enquadramentos também merecem destaque. Se você se interessa por cinema como linguagem (indo além do diletantismo) será preciso assistir ao filme. A técnica do split focus colabora com a justaposição de ações e elementos em apenas um quadro, dando à imagem um caráter diferencial. De Palma conduz a movimentação da câmera com nenhuma sutileza: os espaços abertos (e cada milímetro da arquitetura vista em cena) são utilizados na condução do suspense e no desenvolvimento das ações dos personagens.

O roteiro está bem escrito. O grito que abre o filme é circular e fecha a narrativa com a mesma intensidade. A linguagem adornada pelo estilo barroco, cheio de excessos, está presente, mais visceral do que nunca visto antes nas produções do cineasta, entretanto, como já partilhamos do estilo desde os ótimos Carrie – A Estranha e Vestida para Matar, compramos a ideia e nos entregamos ao enredo. Neste ponto não interessa os excessos, estamos falando de uma belíssima homenagem ao “fazer cinema”, numa trama cheia de paixão e complexidades.

No que diz respeito aos personagens, o roteiro estabelece bem os protagonistas. Jack Terry, na performance equilibrada de John Travolta, ganha a nossa simpatia, tal como Sally, interpretada com eficiência por Nancy Allen, esposa do diretor na época, em sua quarta parceria. Ela trabalha com maquiagens. Ele com sonoplastia. O que isso tem a ver? Basta observar a operação: imagem +som = filme.

Ambos estão com as suas necessidades dramáticas bem delineadas, num texto de fazer orgulho aos escritores de manuais de roteiros hollywoodianos (alguém pensou em Syd Field?). Ao passo que eles atribuem significados à algumas questões e ordenam os fatos, fazem juntamente com o espectador o exercício de montagem cinematográfica. Uma palavra define: genialidade.

Na seara temática, o roteiro faz uma excelente construção crítica ao clima paranoico da política estadunidense da época. Foi uma era de incertezas, com o assassinato de Bob Kennedy e as ressonâncias do Vietnã acometendo o início de um novo período. A civilização atravessava o mal-estar dos anos 1970 e clamava por mudanças na conjuntura política e social.

Um Tiro na Noite talvez seja o filme em que Brian de Palma reúne todos os elementos temáticos e formais da sua cinematografia. Ao longo dos 108 minutos a trama se revela uma ode ao trabalho do sonoplasta, do cinegrafista, e muito mais que isso, do montador, profissional responsável por equacionar o som e a imagem nos momentos finais de uma realização cinematográfica. Lembra-se do milagre que Vera Miles operou ao finalizar a edição de Tubarão? Esta questão, caro leitor, você responde para si e terá a dimensão do que se afirma no decorrer das últimas afirmações deste parágrafo.

Por mais que possamos perceber as referências ao cinema de Hitchcock, sabemos que De Palma constrói cada cena ao seu modo, utilizando-se da técnica da apropriação e da colagem, oriundas da cultura pop, tendo em mira criar algo seu, um pastiche de tudo de bom que viu durante a sua rica e ambiciosa formação cinéfila.

Assim, nasceu um clássico dos tempos modernos: Um Tiro na Noite, um dos melhores exercícios metalinguísticos da carreira do cineasta acusado por muitos de plagiador, quando na verdade, sempre esteve envolvido num projeto de realização cinematográfica reflexivo de complexidade equivalente ou superior às obras referenciadas.  Da mesma época que Francis Ford Copolla, Steven Spielberg e William Friedkin, Brian de Palma se mostrou tão bom quanto, atravessou os anos 1980, 1990, e 2000 e ainda continua em vigor na contemporaneidade, mesmo que sem  o mesmo impacto de antes.

Um Tiro na Noite (Blow Out) – EUA, 1981.
Direção: Brian de Palma.
Roteiro: Brian de Palma.
Elenco: John Travolta, Nancy Allen, Archie Lang, Barbara Sigel, B. J. Cyrus, Bernie Rachelle, John Hoffmeister, John Lithgow.
Duração: 108 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.