Crítica | Um Verão Escaldante
Dos filmes mais recentes de Philippe Garrel, apenas Amantes Constantes (2005) manteve a boa estrutura de suas obras dos anos 1960/70, filmes que, embora não trouxessem a mesma preocupação ou tivesse a intenção do filme de 2005, sobressaíram-se em tudo aquilo que o diretor se propôs a realizar em sua obra.
Garrel é autor de uma filmografia peculiar. Longe do chavão crítico que essa afirmação possa ter, digo que tal peculiaridade se dá nas intenções legítimas do diretor ao mostrar de forma seca e quase documental a indecisão, a flutuação do caráter e do amor através do tempo, o medo do insignificante e do desconhecido, o prazer obtido a custo de sacrifício próprio ou coletivo, a corda bamba de vidas dependentes de amor. Embora sempre inserido em um contexto político e social muito específico, seus filmes propõem o trânsito livre entre o ideológico e o patológico, com propensão de maior destaque para a segunda categoria. Ao ver um filme de Philippe Garrel, o espectador precisa esperar sofrer com a falta de respostas, exatamente como sofrem as personagens do filme.
Em Um Verão Escaldante (2011), os elementos caros ao diretor e muito recorrentes em sua filmografia marcam presença. Temos abundância de silêncios, planos de detalhe aparentemente injustificáveis (o objeto merece maior destaque que o patetismo amoroso de suas personagens doentes de amor), e história curiosa feita de retalhos dramáticos. Mas aqui há uma diferença: esses retalhos não estão bem costurados.
O prólogo doloroso que abre o filme e a frase lúgubre logo no início são eficientes em construir um clima de apocalipse morno e marasmo inquietantes. Ao passo que as relações musa-e-artista & amizade-e-amor se desenrolam, percebemos que o filme declina em sua estrutura básica, que é juntar esses pedaços satisfatoriamente e criar um significado universal para a obra. Seria leviano dizer que o roteiro não consegue ao menos um pouco se ajustar à proposta, mas a mínima parte que consegue se perde mediante o fastio de vida que toma conta de tudo, do meio para o final da película.
Nesse mesmo sentido, os setores técnicos acabam padecendo da mesma doença: não conseguem dar conta do amargor que o próprio roteiro cria. Ao invés dessa afirmação ser um elogio, ela dá conta de uma atenção demasiada a não-narrativa, uma proposta que Garrel sustenta, ao tentar mapear o DNA da imagem e seu impacto sobre o espectador. E exatamente por isso a história não funciona. Ela titubeia entre a narração e não-narração, tem dúvida do que dizer ao certo, confunde-se em seus propósitos e não se desenvolve satisfatoriamente.
Louis Garrel e Jérôme Robart sustentam com muita competência suas personas, amigos de inclinações políticas distintas e modelos diferentes de encarar a vida, o amor e o matrimônio. Diria até que são como Apolo e Dionísio. Monica Bellucci esbanja beleza, mas seu trabalho resume-se a umas poucas cenas boas. O restante é apenas a boa aplicação do ar blasé, que enverniza qualquer cena com um toque de incomunicabilidade. Todavia, o grandioso problema de todo o elenco é Céline Sallette. Há momentos que é impossível saber se a personagem está chorando, rindo, fazendo careta, sofrendo alguma dor ou apenas fingindo atuar. É de lamentar que o diretor tenha deixado passar esse tipo de “atuação” em um papel de importância para o filme.
Entre más resoluções do roteiro, fotografia pouco apurada (um pecado em se tratando de Philippe Garrel) e elenco dividido entre boas e péssimas atuações, Um Verão Escaldante decepciona, porque vindo de quem veio e com a intenção que tinha, era para fazer o espectador sair ardendo da sala de cinema, mas o máximo que consegue é uma língua amarga e um olhar de tédio.












