Crítica | Uma Aventura Lego

estrelas 4

A popularidade dos blocos de montar dinamarqueses batizados de Lego está em alta atualmente, talvez menos em razão do brinquedo em si e mais graças aos diversos games Lego como  Batman, Marvel Super Heroes e Star Wars. Não é, assim, uma surpresa que a empresa logo se voltasse para o mundo cinematográfico, especialmente depois de lançar, direto em vídeo, diversos filmes de aventura. A proposta de fazer um filme para o cinema já existia, mas somente foi aceita pela Warner recentemente. Eis que surge Uma Aventura Lego.

O longa se inicia em um local muito parecido com as Minas de Moria d’O Senhor dos Anéis, vemos o Mago Vitruvius combatendo o Presidente Negócios que deseja destruir o universo Lego. Após ser derrotado, o mago revela uma profecia que prevê o surgimento do Mestre Construtor, que conseguirá a peça da resistência e derrotará o vilão. Pulamos, então, para Emmet, um boneco comum que vive em uma sociedade estranhamente alegre e organizada, cantando a mesma música sempre (Everything is Awesome, de Tegan e Sara) – algo como O Mágico de Oz sem a Bruxa Má do Oeste.

Desde o começo, já vemos diversas brincadeiras com o brinquedo original – os trabalhadores (Emmet incluso), por exemplo, seguem as clássicas instruções para construir os prédios. Em pouco tempo, contudo, descobrimos que essa sociedade metódica está sendo controlada pelo Presidente Negócios, ao mesmo tempo que Emmet acaba encontrando a Peça da Resistência, revelando-se como o escolhido e conhecendo MegaEstilo (não se preocupe, há piadas em relação a esse nome), uma moça durona que está “fora do sistema”.

Não há segredos na linha principal da trama. Sabemos desde o início como o filme progredirá. O inesperado da animação se dá através das inúmeras referências à cultura pop e ao próprio universo Lego, que, em geral, serão captadas por aqueles que acompanharam o brinquedo em suas infâncias. Vemos diversas piadas com as coleções antigas e novas, além de aparições inesperadas de diversos personagens. Dessa forma, o humor da fita se estabelece com piadas mais infantis de um lado e, de outro, muitas que somente serão captadas por adultos.

O filme ainda brinca com conceitos sempre presente dentro de Lego: construir usando o manual ou criar algo do zero, usando somente a imaginação? Os bonecos, diversas vezes, alteram seus veículos ou outros objetos, nos lembrando de animações antigas, como Gato Félix, nas quais os personagens usavam seu próprio traçado de diversas formas. Isso acaba provocando a sensação que a história aproveitou cada detalhe do brinquedo para se estabelecer.

Somente no final o roteiro dá um deslize. A figura dos humanos é presente em alguns pontos do filme de maneira sutil “o cara lá de cima”, algo quase místico, misterioso. Infelizmente, o longa acaba caindo no live-action, permanecendo nele por muito tempo, em cenas completamente dispensáveis, o que acaba tirando a força dos eventos que ocorrem dentro do universo Lego. A existência do “mundo de fora” é interessante dentro da proposta da fita, mas não pedia uma subtrama.

A animação em si é um dos pontos fortes do filme e não tem medo de utilizar as limitações impostas pelas articulações e design dos próprios bonecos. São cenários incríveis e detalhados tanto nos planos gerais quanto nos mais fechados. A escolha da aparência de Emmet, o único boneco com o rosto “comum” em comparação aos inúmeros detalhes exibidos nas coleções mais recentes se encaixa perfeitamente com a obra – ele é o Lego Clássico. Minha única ressalva fica nas cenas de perseguição ou luta, que sofrem do clássico problema de filmes de ação recentes: movimentos e cortes muito rápidos que acabam não mostrando quase nada. No fim, desejamos que tais cenas acabem logo, para voltarmos ao grau de detalhe do restante do longa.

Com risadas garantidas, tanto de adultos quanto de crianças, Uma Aventura Lego é, como o brinquedo, extremamente criativo. É repleto de referências que garantem não só o humor como um toque de nostalgia. Conta com uma animação que valoriza cada aspecto das peças e bonecos e uma trama que solidifica esse valor. Definitivamente vale a pena ser assistido, tenha brincado de Lego na infância ou não.

Uma Aventura Lego (The Lego Movie, EUA – 2014)
Direção:  Phil Lord, Christopher Miller
Roteiro: Dan Hageman, Kevin Hageman, Phil Lord, Christopher Miller
Elenco:  Chris Pratt, Elizabeth Banks, Will Arnett, Craig Berry, Alison Brie, David Burrows, Anthony Daniels, Charlie Day, Will Ferrell, Morgan Freeman, Channing Tatum, Cobie Smulders, Liam Neeson.
Duração: 100 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.