Crítica | Uma Banheira Revolucionária, de Matéi Visniec

estrelas 4,5

Dramaturgo romeno radicado na França, Matéi Visniec é destes autores capazes de transformar, com muito pouco, a preocupação com a denúncia política em investigação lírica. Com conhecimento mais do que necessário de causa – o autor deixou, nos anos 80, a ditadura socialista de sua pátria para viver da letra francesa – seu texto expõe um lado político ácido que mira sem propor privilégios a qualquer ideologia, prezando por uma postura cínica – esta sim privilegiada – que se distancia e analisa uma fragilidade humana precedente ao caráter político, geralmente deixada de escanteio quando a política é tratada como meio de salvação.

Em Uma Banheira Revolucionária, peça presente na coletânea Cartas de Amor a uma Princesa Chinesa e outras pelas curtas, publicada pela É Realizações, a metralhadora de Visniec é ágil e letal. Bebendo, entre tantas taças, da de Beckett na criação de cenários e premissas peculiares, o autor, com três personagens, uma banheira e duas cadeiras, repousa o valor de sua crítica em um texto direto, sem arabescos ou imprecisões. Quatro cenas bastam para o drama falar por si com convicção.

Satírica do início ao fim, a peça usa de repetições propositais para afirmar rapidamente o ambiente em que sua crítica se encaixa: Ouçam, o mundo está fodido, fala-se sempre, para logo em seguida algum dos personagens propor uma solução. Mesmo traçando uma banheira, posturas sérias e um iogurte na mão em seu início, o texto se abre o leitor de maneira provocativa e fluida. Quem nunca, na vida, não repetiu entre amigos que o mundo não tem jeito com aquele ar de esperança abscôndita, como aquela falsa resignação mais moralista do que a moral e os bons costumes ordinários? O típico mise-en-scène dos que se revoltam e acham que o mundo acabou quando se deparam um ou outro fato político de maior notoriedade.

Mas só se revolta quem antes acreditava em tal política. Visniec aborda essa questão como um problema claríssimo, de diversas portas de entrada que se interligam, em seu núcleo, por um temperamento totalitário ressentido e autoritário comum. Não se trata de bater no autoritarismo de uma ou outra ideologia, de um Maduro ou de um Trump, mas de ferir um ímpeto que diz respeito ao comportamento humano característico não só dos tempos contemporâneos, ainda que sejam nestes em que a fé na democracia venha se exacerbando.

Terra fértil para o ressentimento – se o mundo está ferrado, a culpa é de alguém, não minha – que move as ações redentoras do mundo, desde o resignado que clama por mais consciência política e melhor educação até o político de centro acadêmico, essa fé na política vem com boa dose de humor na presente obra. Uma hora o problema são os ricos; outra, os pobres, que querem ser ricos; depois, quando nada resolve o problema humano, o foco toma a veste filosófica: o Ser, seja lá o que for isso. Haja fôlego utópico.

O texto de Visniec é tão vivo e cômico que transforma seu argumento – que está longe de ser original – em uma verdadeira reflexão. Para além do conteúdo em si, sem o estilo notadamente irônico, ainda que lacônico, a obra facilmente cairia em mais uma crítica ao nonsense de determinadas atitudes políticas. Felizmente, o texto agrada porque deixa nu o absurdo da política como religião, graças a um olhar perspicaz que sintetiza o temperamento totalitário intrinsecamente humano, seja de direita seja de esquerda.

Surrealista e sintético, o autor, sucessor espiritual do mestre romeno Ionesco, dispersa aqui uma crítica que vem bem amarrada em outra peça extraordinária de sua coleção: A História do Comunismo Contada aos Doentes Mentais, cujo título já diz muito. Se lá o foco é o perigo do culto ao ícone de poder – no caso Stálin, mas poderia servir a ex-presidentes da república tupiniquim tranquilamente – aqui, o perigo é o culto a si próprio. Ver-se como necessário para a mudança é tão perigoso exatamente por nublar uma compreensão que uma condição ontológica que a religião e a literatura – decentes – conhecem bem: nossa semelhança com o nada, normalmente percebida apenas quando a dor nos sufoca, é algo que, além de ser inevitável, não implica necessariamente na “práxis” revolucionária pós-desespero. Mas esse papo de desespero é para outra hora.

Para reacionários ou revolucionários, como diz o texto de João Pereira Coutinho, mas também para dogmáticos e relativistas, fanáticos e isentos, Visniec expõe seu leitor ao ridículo – isso, é claro, se o leitor permitir, algo extremamente incomum quando se trata de fanáticos pela política. Para além do brado pueril de “fascista!” comumente ouvido em discussões polarizadas e redes sociais, a reflexão aqui proposta pede um mea-culpa, principalmente quando, em nós, virtuosos imaginativos e autodenominados éticos, o pecado de Jó chega sussurrando em nossos ouvidos, quase nunca desacompanhados: por que tanto sofrimento e tanta dor se sou tão bom?

E falando nessa interminável mea culpa, esse pequeno trecho da última entrevista do autor para o Jornal Zero Hora acaba tocando em um ponto ordinariamente ignorado quando o clique para vídeos e notícias do entretenimento – incluindo críticas, por que não? – é tão fácil de acontecer:

Ditadura alguma foi de fato tão eficaz na doutrinação e uniformização das consciências quanto a indústria do divertimento e as técnicas de comunicação que têm como único objetivo o lazer.

*A imagem da capa é de uma adaptação da peça pela Compagnie Ka.

Uma Banheira Revolucionária (Une Bagnoire Révoluttionaire, contida na coletânea Lettres d’amour à une princesse chinoise et autres pièces courtes) – França, 2012
Autor:
 Matéi Visniec
Publicação: Actes Sud, 2012
Publicação no Brasil: É Realizações
Tradução: Roberto Mallet
128 páginas (coletânea), 8 páginas (peça)

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.