Crítica | Uma Chamada Perdida (2008)

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“Maldito, eu amaldiçoo o teu telefone”, disse o pastor Edir Macedo numa polêmica recente envolvendo o celular e um culto religioso. Irritado por conta de um aparelho que tocou enquanto ministrava a palavra divina, o líder não poupou o possível usuário: “desejo que todos os celulares de todos que o trouxeram ao culto sejam amaldiçoados”. A polêmica circulou as redes sociais na época e se tivesse ocorrido alguns anos antes, provavelmente seria a única explicação para a existência de Uma Chamada Perdida, filme que flerta com uma maldição via celular que ceifa a vida de jovens usuários dos benefícios e malefícios da cibercultura.

Como já dito em outras ocasiões, há filmes ruins que são bons, haja vista o absurdo de seus conteúdos. Deste segmento, destaco Sharknado, Lenda Urbana 2 e O Massacre da Serra Elétrica 3D – A Lenda Continua. São filmes com mote mal construído, personagens absurdos e reviravoltas rocambolescas, mas por algum motivo, nos divertem. Há outro caso de filmes ruins: o que são tão medonhos, chatos, enfadonhos e insuportáveis que não tem cinéfilo santo que consiga dar conta: Uma Chamada Perdida faz parte desta linhagem.

O suspense “com uma gota de sangue em cada frame” é um festival de clichês e personagens perdidos, que parecem sequer compreender o próprio filme, uma narrativa mergulhada em duas questões firmes dentro do contexto hollywoodiano na década de 2000: o uso constante do celular em narrativas cinematográficas e a onda de refilmagens oriundas do terror oriental, em especial o japonês, importado com criatividade apenas em O Chamado, em 2002, sendo os demais descartáveis e oportunistas.

Dirigido por Eric Valette, a produção é uma refilmagem de Chaku Shin Ari, do japonês Takashi Miike, com roteiro assinado por Andrew Klavan, profissionais responsáveis por nos fazer mergulhar em 87 minutos de bobagens de um filme sobre pessoas que conferem uma chamada perdida com horários e datas futuras. Ao escutar o correio de mensagens, a pessoa se depara com a própria voz, o que anuncia, como saberemos depois da primeira vida ceifada, se tratar da data e hora da morte da pessoa que recebeu o telefonema.

As palavras da mensagem de voz são as últimas coisas ditas pela pessoa antes de morrer. Pior: a entidade adentra a lista de contatos da vítima para fazer outras. Uma crítica ao universo de conexão de interdependência dos usuários de celulares? A crítica até vale a pena, mas o filme não consegue dar conta de nem 1% dos prováveis ideias reflexivos deste roteiro absurdo e insano.

Para criar identificação, o filme foca em Beth (Shamyn Sossamon) e Jack (Edward Burns). Depois de perder alguns amigos, Beth começa a investigar a origem das mensagens, tendo em vista não apenas aguçar a sua curiosidade, mas salvar a sua vida, pois ela também é uma das próximas da lista cibercultura macabra. Não é preciso dizer que vai rolar um clima de romance entre a dupla, além da típica inclusão de subtramas que em nada ajudam o desenvolvimento do filme. Para ficar ainda pior, o suspense é diluído em um arsenal de obviedades, pois a cada minuto que antecede a morte de um personagem, os diálogos anunciam: “ai meu Deus, vou morrer em 30 minutos”, “ai, senhor, vou morrer em 2 minutos”. Não há sugestão, sequer suspense. Tudo é entregue na bandeja como se fosse um tutorial para adentrar e sair da narrativa.

Por fim, temos um fantasma que parece castigar os usuários de celular, bem como o consumismo desenfreado na contemporaneidade. Ao usar telefonemas via aparelhos móveis como forma de assassinato de jovens, Uma Chamada Perdida pretende flertar com uma crítica ao mundo dependente das tecnologias, pois logo no começo, uma óbvia placa filmada em primeiro plano destaca: “seu celular, sua vida”. Pessimismo puro, mas pouco trabalhado, afinal, poucos conseguiram chegar ao clima da “fantasminha” rancorosa da fita VHS, lembram-se dela?

Há cenas que nos remete aos filmes O Grito, O Chamado, a franquia Premonição, dentre outros. A concepção visual dos fantasmas assustadores é muito burlesca, os ferrões musicais forçam a plateia a se assustar diante do “não assustável” e a condução da narrativa nos leva a um epílogo cheio de reviravoltas que nos leva do nada ao lugar algum. Faço minhas as palavras de um crítico bem humorado da época: “com este filme você ganha um combo, pois compra um suspense e ganha uma comédia”.

Uma Chamada Perdida (One Call Missed) — Estados Unidos, 2008
Direção: Jeff Wadlow
Roteiro: Beau Bauman, Jeff Wadlow
Elenco: Alana Locke, Ana Claudia Talancón, Azura Skye, Edward Burns, Greyson Chadwick, Jessica Brown, Johnny Lewis, Kaira Whitehead, Margaret Cho, Ray Wise, Rhoda Griffis, Shannyn Sossamon, Tara Ansley, Wilbur Fitzgerald
Duração: 90 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.