Crítica | Uma Família da Pesada: Star Wars

Family Guy (original da tradução brasileira, Uma Família da Pesada) é uma série animada de televisão que pode ser passível de várias críticas relacionadas à forma dispersa que apresenta seu conteúdo humorístico, com limites que muitos dizem terem sido ultrapassados pelo seriado, ou até mesmo a simples falta de graça do show. Independente de qualquer olhar individual que se pode ter, porém, o programa criado por Seth Macfarlane, sem sombra de dúvidas, não é vazio, sempre oscilando com a realidade, até mesmo nas paródias da franquia que se passa em uma galáxia muito, muito distante. O foco, entretanto, ainda permanece na comédia inofensiva e no humor negro característico, sem conotação social. Apenas entretenimento puro.

Seguem as críticas de cada episódio de Uma Família da Pesada que foi dedicado a Star Wars até agora:

6X01: Blue Harvest

Para comemorar os 30 anos do lançamento de Uma Nova Esperança, Family Guy ousou colocar seus personagens cômicos para dentro do universo fantástico criado por George Lucas em 1977. Nessa paródia, porém, o que importa é fazer graça, zombar dessa mitologia por meio das tiradas aleatórias típicas do estilo de Seth MacFarlane. Tudo é amarrado pelo apurado senso de humor que permeia o seriado, que não deixa nenhuma piada, mesmo as mais sem graça, soarem deslocadas. A narrativa nos leva a acompanhar primeiramente, assim como no filme clássico, as desventuras de R2-D2 e C-3PO (aqui caracterizados como Cleveland e Quagmire, respectivamente) pelo deserto castigador de Tatooine. Dessa forma, a melhor coisa de Blue Harvest (o título vem do nome “secreto” da produção de O Retorno de Jedi), definitivamente, é ver como a série se encaixa no meio dessa guerra nas estrelas; como os personagens de Family Guy serão levados a esta galáxia, visto que, no enredo, não temos nada de novo.

Nada é mais engraçado que a relação doentia que se estabelece entre Luke Skywalker (Chris Griffin, na voz de Seth Green) e Obi-Wan Kenobi (Herbert, na voz de Mike Henry). O segundo personagem, aliás, recebe uma espetacular sequência musical ao som de (I’ve Had) The Time Of My Life, enquanto transparece as suas características de pedófilo de forma amena, mas suficiente para refletir uma visão do assédio que se subentende, embora as crianças mais novas, representadas por Luke, em sua ingenuidade, talvez não consigam enxergar a maldade da situação. É nesse meio que sai da Princesa Leia (Lois Griffin, na voz de Alex Borstein) um comentário crítico que revela que sua família pagou para acobertar denúncias de assédio a crianças em Alderaan. No mais, o episódio também acerta em suas brincadeiras referenciais, como a aparição de John Williams e os comentários sobre a falha estrutural da Estrela da Morte. Dos gags correntes, a maioria não funciona, como é de praxe para esse tipo de tratamento no humor, mas a exceção é a piada envolvendo o sofá que Han Solo (Peter Griffin, na voz de Seth MacFarlane) quer levar da base espacial.

Dessa maneira, Blue Harvest opta por caminhos pontuais atrelados a um debate sobre a nossa realidade. Das grandes sacadas do episódio, a relação do Iraque com Aldeeran – planeta que o Império Galáctico noticia possuir armas de destruição em massa – é uma delas. Outras pontuações interessantíssimas criadas pelo roteiro de Alec Sulkin, como os comentários emitidos por R2-D2 que invocam um temor decorrente do racismo e do conflito de gangues, ajudam a tornar esta paródia de Star Wars muito mais do que um conjugado de piadas automáticas sobre qualquer coisa. O “qualquer coisa” de Family Guy muitas vezes diz muito mais do que se pode pensar superficialmente sobre o seriado. Além de que nada é mais sensacional que Stewie Griffin (também na voz de Seth MacFarlane) como Darth Vader, embora o personagem não tenha sido usado tão bem nesta primeira paródia quanto ainda seria.

Family Guy – 6X01: Blue Harvest — EUA, 23 de dezembro de 2007
Criador:
Seth MacFarlane 
Direção: 
Dominic Polcino
Roteiro: 
Alec Sulkin
Elenco:
Seth MacFarlane, Alex Borstein, Seth Green, Mila Kunis, Mike Henry, Adam West, Patrick Warburton, Johnny Brennan, Carrie Fischer, Judd Nelson, Chevy Chase, Beverly D’Angelo, Rush Limbaugh, Helen Reddy, Mick Hucknall, Alex Thomas
Duração: 43 min.

8X20: Something, Something Dark Side

Primeiramente, a adaptação dos eventos de Império Contra-Ataca, diferentemente da paródia anterior, não funciona tão bem, visto que duas das maiores qualidades do filme original não encontram paralelo na jocosidade de Family Guy. Apesar de Stewie Griffin estar ainda melhor nessa versão absurda de Darth Vader, Kirker Butler não conseguiu coincidir a revelação épica da obra original com um momento de humor que fizesse jus ao “Eu sou seu pai”. Igualmente, o grande personagem que é apresentado neste filme de Star Wars, Yoda (Carl, na voz de H. Jon Benjamin), perde todo o encanto do Jedi original, nesta versão sem sal, que não consegue rir de si mesmo, tornando-se blasé, sem arrancar nenhum sorriso, nem mesmo de canto de boca.

Todavia, assim como no episódio Blue Harvest, a comédia é uma constante, com piadas de todos os níveis para agradar gregos e troianos, algo que, de certa forma, torna o humor um pouco difuso. Mas nem tanto. O letreiro de abertura de Something, Something Dark Side, por exemplo, é um dos mais genuinamente engraçados, buscando refletir sobre as decisões questionáveis da 20th Century Fox ao longo dos anos. Por outro lado, com um cuidado mais balanceado, a série acerta ao fazer sair da boca de Chewbacca (Brian, na voz de Seth MacFarlane) uma afirmação racista, que logo é cortada pelos demais personagens. Uma brincadeira com a própria série, que expõe uma desconfortável realidade de forma crua, refinada por um humor negro que muitas vezes pode não ser digerido. No mais, uma boa reiteração da falta de personagens negros na saga Star Wars, embora estejamos sempre viajando por galáxias e galáxias diferentes.

Em um nível um pouco mais arrojado e mais palpável, o papel da mulher e a visão masculina em relação a sua capacidade, prestígio e até merecimento de respeito, encontra lugar em comentários de rebeldes enquanto Leia os guia durante a batalha de Hoth. Mais tarde, em um diferente contexto, o mesmo acontece com ela e Han Solo. Embora muitos gags parem a narrativa repetidamente, tornando-a levemente cansativa, o resumo da ópera é positivo, com R2-D2 assumindo alguns dos momentos mais engraçados do episódio (o que dizer daquele recital de sua sobrinha?). Ademais, parênteses essenciais para o ápice cômico: o embate das tropas imperiais contra o exército de Dack; ótima referência ao filme, e ótima forma de conduzir uma piada mais longa sem fazê-la soar arrastada.

Family Guy – 8X20: Something, Something Dark Side — EUA, 23 de maio de 2010
Criador: Seth Macfarlane
Direção: Dominic Polcino
Roteiro: Kirker Butler
Elenco: Seth MacFarlane, Alex Borstein, Seth Green, Mila Kunis, Mike Henry, Patrick Warburton, Johnny Brennan, H. Jon Benjamin, Danny Smith, Carrie Fischer, James Woods, Elizabeth Banks, John Bunnell, James Caan, Joe Flaherty
Duração: 56 min.

9X18: It’s a Trap!

Com a mesma premissa, o apagão na casa dos Griffin leva a família de Family Guy a reviver novamente esse universo fantástico de Star Wars. Contudo, It’a Trap! não tem o mesmo brilho que os episódios anteriores. A começar pela própria introdução clássica, que transparece um texto cansado de sua própria natureza. O Imperador (Carter Pewterschmidt, na voz de Seth MacFarlane) finalmente dá as caras, mas pouco se pode tirar de sua presença, a não ser piadas fracas envolvendo escatologia, que já estava esgotada ainda mesmo no Palácio de Jabba, the Hutt (Joe Swanson, na voz de Patrick Warburton), com Han Solo emitindo gases por quase um minuto. Jabba também não é muito bem aproveitado, apesar do excelente trabalho de voz de Warburton. Outro que está defasado é Lando Calrissian (Mort Goldman, na voz de Johnny Brennan), que, sem o bigode, poderia ter sido explorado comicamente de forma muito melhor.

Há algumas piadas pesadas, como o diálogo entre o Imperador e o garotinho que foi visitar a Estrela da Morte, que pode causar irritações para algumas pessoas. Particularmente, o que acaba incomodando mesmo são as piadas esticadas demasiadamente, como a troca de olhares durante o confronto no Grande Poço de Carkoon. Rapidamente enjoa, e, se em nenhum momento teve graça alguma, fica torturante demais. Dessa forma, porém, cenas como o primeiro encontro de Luke e Darth Vader são realçadas (a relação dos dois em It’s a Trap! é muito boa), assim como as referências ao próprio Retorno de Jedi, como a menção às edições especiais de George Lucas e à morte boba de Boba Fett (trocadilho infame detectado).

Completando essa trilogia de Star Wars nos moldes de Family Guy em uníssono, bom apontar a qualidade dos efeitos visuais da animação, que recria batalhas de forma surpreendente, além da excelente trilha sonora, uma questão que os idealizadores desse episódio não precisaram nem se preocupar, dada a grandiosidade do material fonte. Algumas ideias, infelizmente, não ajudam muito o episódio a andar. Tem momentos de risos involuntários, a diversão é garantida, mas o gosto amargo fica forte: poderia ser muito, mas muito mais. Sério que eles achavam que a melhor coisa que poderia ser feita seria brincar com um estupro de Leia pelo C-3PO? Temos uma inesperada, mas funcional, alusão a Um Maluco no Pedaço ali, um espetacularmente insano momento de Han/Peter forçando soldados imperiais a cavarem suas próprias covas aqui, ótimas sacadas envolvendo o nome de Seth Green,  brincadeiras com a Trilogia Prelúdio e Ewoks mais violentos que nunca, mas, de resto, o Almirante Ackbar não poderia estar mais certo. Essa paródia é, sem dúvida, uma armadilha.

Family Guy – 9X18: It’s a Trap! — EUA, 22 de maio de 2011
Criador:
Seth Macfarlane
Direção:
Peter Shin
Roteiro: 
Cherry Chevapravatdumrong e David A. Goodman
Elenco: Seth MacFarlane, Alex Borstein, Seth Green, Mila Kunis, Mike Henry, Adam West, Patrick Warburton, Johnny Brennan, H. Jon Benjamin, Danny Smith, Dee Bradley Baker, Carrie Fischer, Patrick Stewart, Rush Limbaugh, Anne Hathaway, Michael Dorn, Ted Knight, Bruce McGill, Mary Hart
Duração:
56 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.