Crítica | Uma Família de Dois

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estrelas 2,5

Uma Família de Dois, novo filme estrelado por Omar Sy (do intragável sucesso Intocáveis) é uma refilmagem francesa de um fenômeno mexicano, Não Aceitamos Devoluções, que por sua vez, também ganhará sua versão nacional estrelada por Leandro Hassum (!). Com tantas releituras em um curto espaço de tempo, não é preciso questionar o motivo do apelo à história de um pai improvável que precisa assumir as responsabilidades da vida, uma vez que o próprio Uma Família de Dois faz questão de ressaltar os motivos humanistas que tornam fácil a identificação entre personagens e público. E talvez ressalte até demais.

Uma nota pessoal: quando assisti ao trailer de Uma Família de Dois, não houve como evitar a sensação de estranhamento quando as primeiras cenas apresentadas, cheias de um tom cômico e escrachado, davam lugar a uma forte veia dramática lá nos minutinhos finais da prévia, o que imediatamente me fez questionar qual seria o caminho daquele filme, afinal, drama e comédia estão entre os gêneros mais fáceis de serem vendidos. Assistindo ao filme, nota-se que ambos os gêneros abordados no filme funcionam (a comédia, em especial), mas nunca de forma orgânica. Em suma, Uma Família de Dois não sabe o que quer ser.

Samuel (Omar Sy) é um homem que ganha a vida trabalhando em um resort na França, levando os hóspedes para passeios em iates e, em meio a isso, vivendo uma vida de abundância entre festas, farras e mulheres. Até o dia que uma mulher chamada Kristin (Clémence Poésy) aparece em seu barco e lhe deixa nas mãos uma criança que ela diz ser de Samuel. Após tentativas fracassadas de encontrar a mãe, Samuel decide adotar a paternidade da criança e criá-la, criando um forte vínculo com a menina, que enquanto cresce, vai nutrindo um forte desejo de conhecer sua mãe.

E o que já se anunciava no trailer realmente acontece em Uma Família de Dois: no desejo em agradar os mais diversos públicos, o diretor Hugo Gélin (roteirista de A Gaiola Dourada) atira para vários cantos que funcionam isoladamente, mas num conjunto de quase 120 minutos, pouco casam entre si. As gags e diálogos iniciais são inspiradas e bem humoradas, facilitadas pelo carisma de Omar Sy em cena, sempre enérgico e convincente, e uma trilha sonora animada que pontua bem os primeiros momentos (apesar dos créditos de abertura sem muita coesão com a proposta). Quando o drama começa a tomar forma no filme (ou ao menos tentar) é que Uma Família de Dois se desequilibra e demonstra não saber por qual caminho percorrer, uma vez que há um notável desespero em misturar as lágrimas e sorrisos do público. Nisso, tramas que vão desde um drama de tribunal até o típico momento em que algum personagem é diagnosticado com uma doença são inseridos, tudo apenas anunciando de forma breve, e que apenas são retomados quando se torna conveniente ao roteiro. Equilíbrio é a palavra chave para o que falta em Uma Família de Dois.

Mas é de se louvar as boas intenções da produção que, como já apontado, é funciona quando seus gêneros são abordados de forma isolada. Não será um filme difícil de agradar o público, uma vez que sua história de grande apelo humano irá fisgar sem dificuldades os que buscam um entretenimento que os leve aos risos e as lágrimas. Só não espere que isso aconteça de forma fluída.

Uma Família de Dois (Demain tout commence) — França/ Reino Unido, 2016
Direção:
 Hugo Gélin
Roteiro: Hugo Gélin, Mathieu Oullion, Jean-André Yerles
Elenco: Omar Sy, Clémence Poésy, Antoine Bertrand, Ashley Walters, Gloria Colston,  Clémentine Célarié, Anna Cottis, Raphael von Blumenthal
Duração: 118 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.