Crítica | Uma Família em Tóquio

estrelas 3,5

Refilmagem do clássico Era Uma Vez em Tóquio (1953), Uma Família em Tóquio nos conta a história de um casal de idade que sai do campo para visitar seus filhos na capital Japonesa. Ao chegarem, contudo, são recebidos com indiferença e descaso por parte dos filhos que não abrem tempo em suas agendas para dar a devida atenção aos pais.

O filme trabalha em cima da relação entre a família e como veem a visita dos pais como um peso dentro de suas rotinas. Shukichi e Tomiko Hirayama, os pais, são praticamente jogados de um lado para o outro – ninguém querendo de fato ficar com eles na casa e, tampouco, querendo leva-los a conhecer a cidade. O único que demonstra um maior afeto é o filho Shoji (Satoshi Tsumabuki), o filho rebelde e que mais causou problemas no crescimento – sua relação com o pai, porém, é conturbada.

Desde o início da projeção sentimos um desconforto na relação entre os pais e filhos: há um claro distanciamento entre eles, como se cada um seguisse um protocolo rígido. Durante grande parte do filme existe um elefante branco dentro das cenas. Tais momentos se aliviam na presença de Shoji, que possui uma personalidade mais ativa e animada.

Esse desconforto passa a virar tensão e até melancolia na segunda metade do filme, quando todo o desleixo dos filhos culmina com eles colocando os pais em um hotel. A tristeza de Shukichi chega a ser palpável, assim como sua decepção. Enquanto isso, sua esposa, Tomiko, sempre alegre, procura animar o marido, enxergando o lado positivo dos acontecimentos.

Um ponto interessante do longa é o fato dele não propor uma epifania aos seus personagens. Não há a constatação de “que filhos horríveis somos”. A maneira como eles começam eles terminam – são cidadãos crescidos e ninguém muda de uma hora para a outra. Mesmo com os eventos do clímax, eles acabam voltando para suas rotinas – estando muito ocupados para qualquer um a não ser eles mesmos. Nesse sentido, é como se o filme falasse conosco – o desconforto não vai embora e procura causar uma autorreflexão.

A projeção, contudo, perde a força devido à direção e a atuação forçada de Tomoko Nakajima e Shozo Hayashiya que fazem o papel da filha do casal e seu marido. A atuação de Isao Hashizume (o pai) e Satoshi Tsumabuki, contudo, servem como contraponto – nos ajudando a imergir na história. No fim acabamos adorando alguns personagens e odiando outros, mas conseguimos enxergar a família que eles todos compõem.

Uma Família em Tóquio propõe uma ótima reflexão sobre os deveres de pais e filhos, questionando a criação e a obrigação de cada um dentro da família. É claro o intuito da refilmagem dentro do sentido do filme: afetar os espectadores de hoje em dia, trazendo à tona uma temática mais do que atual. Pode contar com alguns problemas de direção e atuação, mas isso não tira a força da obra.

Uma Família em Tóquio (Tōkyō Kazoku, Japão – 2013)
Direção: Yôji Yamada
Roteiro: Yôji Yamada, Emiko Hiramatsu
Elenco: Isao Hashizume, Kazuko Yoshiyuki, Masahiko Nishimura, Yui Natsukawa, Tomoko Nakajima, Shozo Hayashiya, Satoshi Tsumabuki, Yû Aoi, Nenji Kobayashi, Jun Fubuki, Narumi Kayashima, Ryuichiro Shibata, Ayumu Maruyama, Chika Arakawa.
Duração: 146 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.