Crítica | Uma Família Respeitável

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O cinema iraniano, apesar de todos os pesares políticos e financeiros, vem em franca ascensão, como todos devem reconhecer. Suas obras fortemente politizadas, mas impressionantemente livres da interferência governamental que se esperaria de um país que vive debaixo de uma ditadura teocrática (ou algo ruim do gênero), arrebataram o mundo e não tem previsão de arrefecimento.

No entanto, Uma Família Respeitável, uma co-produção do Irã, França e Suíça, não é um exemplar desse movimento. Muito distante disso, na verdade. O filme, apesar de trazer um tema de tensão familiar que é marginalmente interessante, falha em criar suspense ou mesmo simpatia por seus personagens, deixando a questão política, que é sim mencionada, para um plano muito raso, simplista e até covarde.

A história começa com Arash, um iraniano que há 20 anos não põe os pés em seu país natal, mas que, a convite de uma universidade, volta para dar alguns meses de aulas em Chiraz. Tendo morado toda sua vida na França, Arash enxerga com mais facilidade os problemas de seu país e tenta, a todo custo, passar seu posicionamento político a seus alunos, apesar da constante vigilância e censura a que é submetido. No entanto, Arash também é um homem assombrado pelo passado. Ele não fala com seu pai moribundo e com seu irmão milionário. Vive apenas com sua pacata – mas visivelmente reprimida – mãe em uma modesta casa. No entanto, seu sobrinho acaba forçando-o a se envolver com a família e uma trama macabra começa a aparecer.

Quando disse que os aspectos políticos de Uma Família Respeitável são vistos sob um ótima que poderia até ser chamada de covarde, referia-me à maneira mecânica de como isso é tratado. São menções aqui e ali, imagens que pontilham a fita, mas nada que seja verdadeira e honestamente abordado. O drama familiar toma o centro do filme de maneira avassaladora e as questões políticas são integralmente varridas para debaixo do tapete. Não haveria nada de errado nisso se a política do país não fosse tratada, mas o problema é mencioná-la e não desenvolvê-la, quase como se o diretor Massoud Bakhshi tivesse ele próprio sofrido censura, o que, na verdade, não aconteceu. Vejam, por exemplo, A Separação, obra iraniana quase irretocável. O foco também é a família mas a direção dessa outra – e magnífica – obra não perde de vista os conflitos políticos que estabelece em seu início.

E, com isso, Uma Família Respeitável fica sem unicidade, sem caráter, passando a ser uma trama de mistério altamente previsível, sem nenhuma tentativa de originalidade. Os vilões são vilões unidimensionais, assim como o próprio Arash. Nem mesmo o início intrigante, com um sequestro filmado em primeira pessoa, revela boa técnica narrativa. É sem dúvida uma boa ideia, mas ela acaba não agregando absolutamente nada à estrutura da história, funcionando mais como um momento cuidadosamente criado para tentar dar a impressão que o filme é mais do que efetivamente é.

O roteiro acaba, também, afetando a capacidade dos atores de mostrarem potencial. É difícil o espectador criar empatia com qualquer um deles e os vilões são tão vilões que chegam a ser caricatos, o que não ajuda muito a fluidez da película e sua aceitação pelo público.

Se o diretor tivesse sido honesto desde o começo, o filme poderia até funcionar em um nível mais rasteiro, básico. Mas as falsas abordagens, a pretensão técnica e o roteiro fraco acabam tornando Uma Família Respeitável um filme absolutamente descartável.

Uma nota final: tentei encontrar uma fonte que fizesse a ligação entre os nomes dos atores e os dos personagens, mas não encontrei. Continuarei pesquisando, no entanto.

Uma Família Respeitável (Yek Khanévadéh-e Mohtaram, Irã/França/Suíça, 2012)
Direção: Massoud Bakhshi
Roteiro: Massoud Bakhshi
Elenco: Babak Hamidian, Mehrdad Sedighian, Mehran Ahmadi, Ahu Kheradmand, Parivash Nazarieh, Behnaz Jafari, Mehrdad Ziaei, Niki Nasirian
Duração: 90 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.