Crítica | Uma História de Natal (1983)

estrelas 3,5

É impossível achar um filme mais americano e ao mesmo tempo mais natalino do que esse. Nem mesmo filmes patrióticos de guerra conseguem se aproximar dos valores muito queridos ao povo dos Estados Unidos se comparados com Uma História de Natal, que, ao longo dos anos, ganhou um status de idolatria por lá, quase que fazendo parte de um ritual anual de final de ano.

Passado na década de 40, o filme conta a história de um Natal na vida de Ralphie (Peter Billingsley, que viria a tornar-se um dos produtores executivos de Homem de Ferro) que quer porque quer ganhar do Papai Noel uma “official Red Ryder carbine-action 200-shot range model BB rifle with a compass in the stock“, ou seja, uma espingarda de chumbinho. Logo de início já é possível perceber que a fita não é do tipo politicamente correto que irritantemente tentam nos empurrar hoje em dia. Afinal de contas, uma criança de nove anos com uma espingarda de chumbinho é um absurdo inenarrável, não?

Pois bem, esse é um filme de Natal 100% honesto, ou seja, sem nenhum caráter religioso. É o Natal como 95% das crianças do mundo o encara: a melhor época para se ganhar presentes. Ralphie faz de tudo para convencer os pais, a professora e até o Papai Noel (de uma loja!) que ele definitivamente precisa de uma espingarda mais do que qualquer outra coisa no mundo. Basicamente, a vida dele depende disso. No entanto, para seu horror, todos, sem exceção, dizem que ele vai acabar atirando no próprio olho se ganhar a espingarda.

Ao redor dessa história bem objetiva e encantadora, vemos Ralphie enfrentar os valentões de sua escola, participar de uma aposta em que um coitado de um garoto acaba sendo convencido a encostar a língua em um poste congelado, levar o irmão mais novo todo encasacado para a escola, fazer a melhor redação do mundo (sobre a espingarda, claro), ficar na fila para sentar no colo do Papai Noel e tudo mais que uma criança de nove anos, durante o Natal, em uma cidade do estado de Illinois, ou seja, bem abaixo de zero, faria. E Peter Billingsley é, literalmente, talhado para esse papel.

É claro, também que, como todo o filme que preza os “valores” americanos, não poderia faltar uma ode à família. Os pais de Ralphie (Melinda Dillon e Darren McGavin) se amam, se provocam e, sobretudo, amam os filhos. São uma família perfeita como uma família poderia ser perfeita nos anos 40 por lá.

Usando uma paleta de cores muito clara, mas também abusando das cores primárias fortes, o diretor Bob Clark (o mesmo do clássico Porky’s, dois anos antes), com um ótimo trabalho de fotografia de Reginald H. Morris (também de Porky’s), empresta um ar de fábula à pequena aventura de Ralphie, o que torna a produção facilmente engajante por todo tipo de espectador, mesmo aqueles que não partilham dos “valores americanos” que pontuam o filme. É que toda a narrativa, sob o ponto de vista da criança, e toda a ideia de que o que vemos é uma utopia de sonho, permite uma identificação imediata com a época do ano em que a obra se passa. Mesmo acertadamente fugindo da retratação do Natal como uma festa religiosa e focando no aspecto consumista, a impressão final que fica é o que talvez melhor encapsule o chamado “espírito natalino”.

Uma História de Natal é, basicamente, um retrato utópico de como todos nós nos vemos quando criança e um verdadeiro escape à realidade que nos cerca. Divertido, muito bem dirigido mas, em última análise, talvez não mereça essa idolatria toda dos americanos.

Uma História de Natal (A Christmas Story, EUA – 1983)
Direção: Bob Clark
Roteiro: Jean Shepherd, Leigh Brown, Bob Clark (baseado no romance de Jean Shepherd)
Elenco: Peter Billingsley, Melinda Dillon, Darren McGavin, Scott Schwartz, Jean Shepherd, Ian Petrella,  Tedde Moore, R.D. Robb, Zack Ward, Yano Anaya, Jeff Gillen
Duração: 94 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.