Crítica | Uma História Real (1999)

estrelas 4

Quando um diretor adquire um estilo cinematográfico marcante, é normal esperar por determinadas características, ao assistir seus filmes. Baseado nisso, David Lynch é reconhecido por ser um dos diretores mais peculiares e inventivos do cinema americano, ou seja, sempre esperamos momentos de surrealismo e bizarrice em suas obras. Portanto, não deixa de ser engraçado atestar que, após longas como Veludo Azul e Eraserhead, o cineasta nos surpreenda em Uma História Real, ao trazer um trabalho contido, intimista e tocante, características opostas ao que conhecemos da filmografia de Lynch. Mesmo assim, o filme analisado a seguir possui uma única semelhança com os demais da carreira do diretor: a extrema competência.

A obra conta a história de Alvin Straight (Richard Farnsworth), um homem de 73 anos que efetua uma jornada de centenas de quilômetros usando um cortador de grama como transporte, para fazer as pazes com o irmão que está gravemente doente. Ao ler a sinopse, a trajetória de Alvin pode soar absurda demais para ser verdade, mas, como o título inteligentemente destaca, a trama é verdadeira. Porém, o roteiro, escrito por John Roach e Mary Sweeney, utiliza a viagem peculiar não apenas para explorar o relacionamento do protagonista com seu irmão, pelo contrário, temos aqui um road movie intimista, tornando a viagem um verdadeiro mergulho no passado e em traumas do personagem principal.

De maneira episódica, a obra mostra Alvin encontrando pessoas diferentes pela estrada, utilizando estas oportunidades para dividir experiências e dar conselhos baseados em sua experiência de vida; e são justamente nessas cenas que conhecemos o personagem e os ocorridos que lhe deram tamanha sabedoria. Porém, apesar de ser um road movie, não há velocidade alguma em Uma História Real; Lynch inteligentemente opta por um ritmo vagaroso e paciente que permite ao público absorver cada mensagem transmitida, percebendo como os longos anos de vida do protagonista o desgastaram.

Aliás, a obra também é um estudo sutil sobre a velhice, destacando como o tempo traz sabedoria, mas, ao mesmo tempo, acarreta em diversos arrependimentos por atos cometidos ao longa da jornada. Inclusive, há falas contundentes e reflexivas de Alvin sobre o tema, como na cena em que ele diz ‘‘a única vantagem de ser velho é saber que não há mais nada de novo para ver na vida’’.

Se não bastasse a serenidade do filme, o roteiro ainda apresenta a viagem do protagonista em seu cortador de grama como uma espécie de desconstrução do orgulho, tanto para Alvin quanto para o próprio público, visto que não deixa de ser engraçado acompanhar aquele senhor andando lado a lado com carros, em um veículo tão curioso. Contudo, o que a trama nos ensina é que, mais importante do que o meio de transporte, é saber desfrutar da viagem (mensagem que também serve como alegoria para a própria vida), por isso, Lynch traz vários planos gerais para destacar a beleza das paisagens que cercam Alvin.

Devido a proposta do longa, Lynch entrega uma direção que destoa das demais em sua carreira, mas, ainda assim, é completamente eficiente, optando por composições abertas (como já foi dito), criando composições de encher os olhos e utilizando movimentos de câmera suaves, tornando a experiência de assistir ao longa acolhedora e agradável. Apesar disso, há uma única cena frenética, mostrando o cortador de grama em uma descida, que também merece aplausos. Um destaque fica para a estupenda trilha sonora, composta por Angelo Badalamenti, utilizando em sua maioria instrumentos de corda, do violão ao violino, para criar faixas com estilo característico do interior dos Estados Unidos e inserindo com precisão o tom inspirador e intimista do longa.

Outro ponto alto é a sensível atuação de Richard Farnsworth, com uma composição que traz Alvin como um sujeito cansado, amargurado com a vida, mas extremamente sábio, com um timbre de voz pausado, mas imponente. Já Sissy Spacek também possui bons momentos, mas, infelizmente, sua personagem não ganha destaque como o início sugere, soando até como uma personagem subutilizada.

O fato é que Uma História Real poderia, tranquilamente, ser transmitido na Sessão da Tarde, por exemplo, tamanha a leveza do filme. Contudo, a simplicidade da obra não a torna menor dentro da filmografia de David Lynch, muito pelo contrário, Uma História Real mostra como o diretor pode ser um artista tão versátil quanto é talentoso.

Uma História Real (The Straight Story) – EUA, Reino Unido e França, 1999
Direção: David Lynch
Roteiro: John Roach, Mary Sweeney
Elenco: Richard Farnsworth, Sissy Spacek, Harry Dean Stanton, Everett McGill, John Farley, Kevin P. Farley, Jane Heitz, Joseph A. Carpenter, Donald Wieggert, Tracey Maloney, Don Flannery
Duração: 111 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.