Crítica | Uma Jovem Tão Bela Como Eu

estrelas 3

Baseado na obra Such a Gorgeous Kid Like Me, de Henry Farrell, este filme de François Truffaut traz dois dos elementos que o cineasta mais apreciava em trabalhar no cinema: a trama policial e a força das mulheres (algumas fatais, outras não) sobre os homens, todos eles retratados como indivíduos fracos, sempre caindo nos encantos ou armadilhas que as mulheres lhes preparavam consciente ou inconscientemente.

O cineasta escreveu o roteiro ao lado de Jean-Loup Dabadie, criando uma peça cômica repleta de bons momentos, diálogos e situações inimagináveis, ótimas reviravoltas mas também, para grande horror do público, cenas e personagens com ações e falas forçadas, improváveis e cada vez mais insuportáveis à medida que vão aparecendo na história. O espectador fica perdido diante das mudanças qualitativas da fita, dependendo de seu momento: em uma parte, riso e diversão; em outra, estranheza e situações improváveis.

No todo, Uma Jovem Tão Bela Como Eu é um bom filme, mas chegamos a essa conclusão a muito custo. Como disse anteriormente, os momentos do roteiro que mesclam o pastelão narrativo com situações que se tivessem outro tratamento seriam maravilhosas, acabam diminuindo o valor da obra e, infelizmente, isso acontece muitas vezes. Alguns personagens como Arthur (Charles Denner em ótima interpretação, muitas vezes lembrando, por algum motivo, Rowan Atkinson) e Clovis (Philippe Léotard, cujo tom de inocência aparvalhada salva o personagem das falas e situações patéticas no qual é colocado) são os que mais sofrem nesse meio.

Esses dois personagens e outros homens encontram-se ligados à insaciável Camille Bliss, bela e manipuladora jovem sem nenhum talento artístico que deseja ser vedete. Perversa desde criança — sendo responsável pela morte do pai, de uma maneira muito curiosa — ela vai dominar e manipular seus parceiros através do sexo, conseguindo dinheiro e, através deles, abrindo caminhos que facilitarão sua vida ou a levarão aos holofotes. Seu “último golpe” se dá com o jovem professor de sociologia Stanislas Prévine, que visita Camille na prisão a fim de entrevistá-la para escrever seu Doutorado, intitulado Mulheres Criminosas.

O filme marca a estreia de André Dussollier no cinema (ele já havia participado de um longa, mas em um papel pequeno e não creditado) e a volta da bela e graciosa Bernadette Lafont a um trabalho com Truffaut, que descobriu a atriz e a apresentou ao mundo no curta Os Pivetes (1957). Ambos os atores estão em ótima forma, possuem boa química juntos — ela vai ganhando vida e ele neurose, até que os papéis iniciais se invertem e ele é o condenado, enquanto ela, uma mulher livre — e seus personagens ganham os melhores momentos do filme. Lafont interpreta uma Camille Bliss de muitas faces e Truffaut nos faz reviver com ela alguns momentos semelhantes aos da personagem de Catherine Deneuve em A Sereia do Mississípi (1969).

O melhor elemento da fita é, sem dúvidas, a cenografia. Da primeira à última cena, a direção de arte de Jean-Pierre Kohut-Svelko (de forma inacreditável, em seu primeiro trabalho no cinema) nos encanta pelas certeiras escolhas de organização dos espaços e seus componentes de identidade — inclusive nas tomadas externas, através dos carros dos personagens e outros contextos de cenários externos –, sabendo também alternar ambientes simples e quase minimalistas com sets praticamente barrocos, dada a quantidade de coisas que vemos espalhadas. Também vale destaque os figurinos de Monique Dury, especialmente do meio para o final do filme, e a maquiagem de Thi-Loan Nguyen, principalmente para Bernadette Lafont, com todas as suas mudanças de homens, fases da vida e comportamentos.

Embora cheio de estranhezas narrativas, Uma Jovem Tão Bela Como Eu diverte e impressiona pelas reviravoltas. Seu final é impiedoso e triste, mas Truffaut não o apresenta como tragédia pura e sim como um evento “comum” na vida do professor Stanislas Prévine, que nos remete, mesmo sem ter essa conotação, a muitos e muitos acontecimentos sociais que envolvem o mesmo tema: condenações, dinheiro, circunstâncias atenuantes e [in]justiça.

Uma Jovem Tão Bela Como Eu (Une belle fille comme moi) — França, 1972
Direção: François Truffaut
Roteiro: François Truffaut, Jean-Loup Dabadie (baseado na obra Such a Gorgeous Kid Like Me, de Henry Farrell).
Elenco: Bernadette Lafont, Claude Brasseur, Charles Denner, Guy Marchand, André Dussollier, Anne Kreis, Philippe Léotard, Gilberte Géniat, Michel Delahaye, Danièle Girard, Jérôme Zucca
Duração: 98 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.