Crítica | Uma Juíza Sem Juízo

estrelas 4,5

Com uma narrativa que bebe do mesmo ritmo veloz de Amélie Poulain, essa comédia francesa se mantém longe do comodismo romântico e entrega uma história regada a situações fantasiosas e incríveis. É a partir de uma gravação de vídeo de segurança que a história é desenrolada. O diretor usa recursos como saltos temporais e cortes para deslocar a trama e criar um ritmo favorável que desmonta a obviedade esperada desse tipo de gênero.

Dirigido e protagonizado por Albert Dupontel, o longa-metragem utiliza a premissa de uma juíza – interpretada por Sandrine Kiberlain – tão focada na carreira que a distanciação de si mesma a deixa cega para o fato de que está vivenciando uma gravidez em estágio avançado. Resultado de uma noite de blecaute alcoólico. Dupontel entra na história como réu em um caso envolvendo um cruel assassinato a sangue-frio.

Desse acaso surgem pistas para remontar a noite deletada da memória dessa juíza, que fica no limiar da razão. Boa parte da trama revolve em torno da busca para descobrir quem é o pai do bebê. A história toda parece manjada, mas, de algum jeito, o diretor consegue arrancar risos trabalhando novas perspectivas dentro do óbvio e do absurdo do roteiro.

Dupontel ainda se destaca na incorporação desse personagem completamente envolto por humor negro. Nele se aglutinam as cenas cômicas, o que entra em contraste com a personalidade da juíza, que se mantém insossa por grande parte do filme inteiro. Seguindo um estilo de comédia que encontra nuances equivalentes a uma interpretação sóbria, o filme consegue atingir um ponto de ebulição cômica pertinente.

Por esses motivos, o filme atraiu bilheteria e foi sucesso de crítica na França, tendo sido indicado a seis prêmios César, saindo vencedor com os prêmios de melhor roteiro e de melhor atriz. Com a ideia de absurdo e ironia, essa fita conquista o espectador pelo tom de suspense com relação ao destino dos personagens e pela cadência de situações que vão desaguar no climáx digno de uma frase de efeito shakespeariana: ser ou não ser, no caso, dizer ou não dizer uma verdade em detrimento de aceitar uma mentira.

Nada nesta obra se assemelha com o banal. Os personagens não passam por mudanças de personalidade, não há um final feliz convencional e quando apela para a emoção consegue fazer isso com sensibilidade. O que temos no fim é um longa-metragem que incorpora diversos ingredientes diferentes de uma maneira harmoniosa.

 Juíza sem Juízo (9 Mois Ferme)- França, 2013
Direção:
Albert Dupontel
Roteiro: Albert Dupontel
Elenco: Albert Dupontel, Sandrine Kiberlain, Nicolas Marié, Philippe Uchan, Philippe Duquesne, Bouli Lanners, Christian Hecq, Gilles Gaston-Dreyfus.
Duração: 82 min

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.