Crítica | Uma Linda Mulher

Uma Linda Mulher

estrelas 4

Um clássico moderno absoluto. A história não é inovadora, mas reconta um enredo básico com atores inspirados, trilha sonora bem conduzida e roteiro recheado de bons diálogos. Sob a direção de Garry Marshall, Uma Linda Mulher foi uma das maiores bilheterias dos anos 1990, marco no terreno das comédias românticas e ponto de partida para a carreira de sucesso de Julia Roberts, atriz que durante muito tempo seria reconhecida como a especialista do gênero em questão.

Com belíssimo design de produção, o filme foca na prostituta Vivian (Julia Roberts), uma das sobreviventes de Los Angeles no começo dos anos 1990. Ela deve o aluguel, quer mudar de vida, mas encontra as dificuldades comuns ao contexto urbano do período. Certa noite, seu momento “Cinderela” se estabelecerá. Ela será “contratada” pelo magnata Edward Lewis (Richard Gere) para guia-lo em seu trajeto até um famoso hotel do local.

O que seria um encontro rápido acaba ganhando novos contornos, graças ao convite para que ela seja a sua acompanhante social durante a estadia em Los Angeles no final de semana. Sem grandes novidades, o roteiro de J. F. Lawton nos apresenta a condução deste encontro, os desencontros pelo caminho, o preconceito social sofrido por Vivian em alguns momentos e as possibilidades de mudar de vida quando se tem dinheiro.

O filme, por sinal, seria uma história sombria com elementos de análise sociológica sobre o ramo da prostituição, mas de acordo com os produtores, renderia mais se fosse uma comédia romântica. Desta forma, o material foi remodelado e tornou-se o filme que conhecemos hoje, uma agradável sessão de cinema cheia de inspiração e esperanças, principalmente para aqueles que ainda acreditam nas possibilidades renovadoras do amor.

Por falar em renovação, algo importante precisa ser salientado: Edward tem o dinheiro suficiente para que ela abandone a sua vida de prostituta, mas diferente dela, ele é psicologicamente dependente e carente. Apesar de ser um homem bem sucedido, encontra-se diante de uma vida pessoal insípida. Vivian chega para lhe mostrar que bem sempre o dinheiro é a melhor coisa, sem descartar as possibilidades oriundas do mundo capitalista, mas relativizá-las. Resultado: ambos se envolvem num esquema de trocas físicas e simbólicas que abre caminho para todo mundo lucrar, tanto financeiramente quanto sentimentalmente.

Além do mencionado design de produção, a trilha sonora e os personagens inspirados do roteiro merecem devido destaque. No campo musical temos uma primorosa seleção que inclui Oh, Pretty Woman, de Roy Orbinson; It Must Have Been Love, de Roxette; além de hits inesquecíveis de Natalie Cole, Peter Cetera, Red Hot Chili Peppers, Lauren Wood, etc. A ópera La Traviata, que também trata de uma prostituta que se apaixona por um homem bem sucedido, é a escolhida para a cena em que os personagens vão ao teatro.

Além do encantador casal formado por Roberts e Gere, temos coadjuvantes de luxo: Philip Stuckey (Jason Alexander) é o insensível amigo de Edward, truculento de primeira linha; Kit (Laura San Diogo) é a amiga mentora de Vivian na prostituição, colega de quarto da moça, igualmente preocupada com o aluguel que ambas precisam pagar; Barney (Hector Elizondo) é o gerente boa praça do hotel, inicialmente desdenhoso, mas que depois vai ceder aos encantos da protagonista; Dey Young, personagem que aparece rapidamente, antipática e esnobe, surge apenas para humilhar Vivian numa loja de roupas, responsável pela cena da “volta por cima” copiada à exaustão em outros filmes e novelas posteriores.

Há algumas polêmicas sobre o título referir-se ao personagem de Julia Roberts. Alguns alegam que soa estranho ela levar o título, mas ter utilizado a modelo Shelley Michelle para compor o famoso cartaz oficial do filme, bem como as cenas com foco em seu corpo. Independente do uso da modelo, a linda mulher do título não é Julia Roberts em si, mas Vivian, personagem. Sendo assim, as críticas em relação ao uso de uma dublê para determinadas cenas são estéreis, diferente do filme e dos personagens que gravitam em torno da sua existência, todos cheios de vida, reluzentes num “sistema cinematográfico” repleto de corpos opacos.

Julia Roberts e Richard Gere se reencontraram no final da década de 1990, no razoável Noiva em Fuga, história independente dos eventos de Uma Linda Mulher. Para a história de amor e dinheiro, Winona Ryder e Jennifer Connelly fizeram testes, no entanto, ambas foram consideradas novas demais para a execução da protagonista, o que abriu caminho para Roberts ficar com o papel. Pelo desempenho, ela foi indicada ao Oscar e Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz, levando apenas o último prêmio, mas garantido espaço de prestígio na rentável indústria cinematográfica hollywoodiana.

Uma Linda Mulher (Pretty Woman) — Estados Unidos, 1990
Direção: Garry Marshall
Roteiro: J. F. Lawton
Elenco: Elinor Donahue, Hector Elizondo, Jason Alexander, Julia Roberts, Larry Miller, Laura San Giacomo, Ralph Bellamy, Richard Gere
Duração: 119 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.