Crítica | Uma Longa Viagem (2013)

estrelas 3,5

O horror da guerra e a força para perdoar alguém. Esses são os temas belamente costurados em uma trama baseada na autobiografia de Eric Lomax, oficial britânico que, ainda muito jovem, depois da rendição do exército britânico em Cingapura, é levado para um campo de trabalhos forçados japonês durante a construção da ferrovia Tailândia-Burma, mais conhecida como a Ferrovia da Morte, erguida sobre os cadáveres de dezenas de milhares de soldados das mais variadas nacionalidades.

Essa ferrovia já fora muito bem trabalhada como pano de fundo para o clássico A Ponte do Rio Kwai, de David Lean, baseado em romance de Pierre Boule (o mesmo autor de O Planeta dos Macacos). Ainda que haja entrelaçamentos de discussões entre seu predecessor mais famoso e Uma Longa Viagem, o segundo filme tem, por ser uma autobiografia, um tom muito mais pessoal e psicológico que o roteiro de Frank Cottrel Boyce e Andy Paterson tenta abordar em uma narrativa não-linear, começando nos anos 80 com Eric Lomax (Collin Firth) conhecendo Patti (Nicole Kidman) e revelando-se com fortemente traumatizado por eventos em seu passado.

Esse é o gancho para voltarmos ao passado e observarmos a história de Lomax ainda muito jovem, como engenheiro operador de rádio do Império Britânico logo após a rendição de seu exército e a posterior construção de um rádio (só receptor) para que ele e seus colegas possam acompanhar o desempenho dos Aliados na guerra. O Lomax do presente é obcecado – doentio mesmo – com trens e ferrovias e do passado tem uma saudável admiração pelo mesmo assunto. É a jornada de como um Lomax se torna o outro que o filme trata ao longo de seus dois terços iniciais, com a ajuda de Finlay (Stellan Skarsgård), seu melhor amigo.

Jonathan Teplitzky, no comando de seu quarto longa metragem, nos apresenta a uma obra sóbria, com uma entristecida fotografia de Garry Phillips que nos transmite eficientemente os problemas psicológicos profundos de Lomax que o impede de se conectar completamente com sua esposa. A montagem de Martin Connor é decididamente confusa no início, mas reputo isso ao próprio estado mental de Lomax, em uma tentativa de emulá-lo e transportar a sensação aos espectadores. Isso acontece durante o terço inicial, quando o filme foca a relação Lomax-Patti exclusivamente até esse ponto e, depois, apesar das idas e vindas, parece se firmar em um padrão que não permite mais qualquer tipo de estranhamento.

No entanto, Teplitzky erra ao dar um enfoque de suspense à uma obra que é primeiramente um libelo antibélico e um testamento do que o ser humano é capaz de fazer para se achar, para se livrar das manchas do passado. É que o roteiro, enfatizado pelas escolhas visuais do diretor, tenta trabalhar um “mistério” que não é realmente um mistério, apenas algo perfeitamente dentro do que esperamos do teatro da guerra, por mais horrível que possa ser. Com isso, ainda que seja absolutamente injusto com a brava história de Eric Lomax chegar à essa conclusão, quando finalmente descobrimos o tal “segredo”, não há como não sentir desapontamento bem lá no fundo. Uma narrativa direta, com menos firulas de suspense teria resolvido a questão muito facilmente.

Outro aspecto que impede que abracemos o filme completamente é a introdução, no terço final, da versão mais velha de um personagem que, basicamente, só vemos de relance no começo da fita. Essa estratégia, que combina com o tom de suspense imposto por Teplitzky, acaba impedindo que a plateia se compadeça desse personagem (sim, estou sendo particularmente críptico aqui, para evitar spoilers) e, portanto, se identifique com ele, esvaziando um pouco a conclusão.

De toda forma, o elenco está afinado e faz um show à parte. A química de Colin Firth e Nicole Kidman é natural, o primeiro contido, calado e torturado e, a segunda, amorosa, compreensiva e desesperada para dar uma chance de redenção ao marido. Apesar de eles pouco contracenarem, sempre que estão juntos a fita ganha novos contornos, que nos fazem esquecer eventuais problemas. O mesmo vale para a participação de Hiroyuki Sanada e Colin Firth, ainda que essa relação dependa um pouco mais de diálogos expositivos do que deveria. Stellan Skarsgård, sempre eficiente, não tem tempo para mostrar a que veio em vista da natureza de seu papel.

Nas sequências no passado, Jeremy Irvine, mais conhecido por seu papel de Albert Narracott em Cavalo de Guerra, de Steven Spielberg, convence como a versão jovem e ainda inocente de Lomax, mesmo que seu figurino e maquiagem estranhamente tentem esconder os efeitos físicos da guerra sobre ele, talvez para destacar seu rostinho bonito e nos fazer identificar com o personagem, algo desnecessário, pois, a esse ponto, já estamos fisgados por sua versão “do presente”. Mas, como ele é o único ator que ganha desenvolvimento narrativo no passado, ele automaticamente se destaca e, assim como em Cavalo de Guerra, não desaponta.

Uma Longa Viagem depende muito de sua bela história verdadeira para se sustentar, algo que ganha estofo com o elenco bem azeitado em seu propósito. A fita sofre por um certo grau de hesitação na direção e uma tentativa de se fazer um indevido suspense, mas, mesmo assim, o resultado final é digno como mais uma sempre atual denúncia dos horrores da guerra e, principalmente, uma homenagem ao espírito humano.

Uma Longa Viagem (The Railway Man, Austrália/Reino Unidos/Suíça – 2013)
Direção: Jonathan Teplitzky
Roteiro: Frank Cottrell Boyce, Andy Paterson (baseado em autobiografia de Eric Lomax)
Elenco: Colin Firth, Nicole Kidman, Stellan Skarsgård, Jeremy Irvine, Tanroh Ishida, Sam Reid, Hiroyuki Sanada, Michael MacKenzie, Tom Stokes, Bryan Probets, Tom Hobbs
Duração: 106 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.