Crítica | Uma Mulher Sem Amor

Nunca ri tanto vendo um filme que não é para rir.

E meu testemunho pessoal acima já dá o tom sobre o que achei desse dramalhão mexicano dirigido e escrito pelo mestre Luis Buñuel que, em sua excelente autobiografia Meu Último Suspiro, classificou como seu pior filme. A não ser pelas risadas indevidas e incabíveis, essa película consegue ser uma desajeitada conjunção de história exageradamente dramática, atuações tenebrosas e um final apressado que atropela tudo que foi construído anteriormente.

No entanto, sendo Buñuel inegavelmente um grande diretor, mesmo quando estava fazendo algo visivelmente desestruturado e de má vontade em mais um de seus “filmes por comida”, há lampejos de criatividade. Esses são vistos da fotografia cuidadosa em preto e branco e na montagem de cenários bastante eficientes, ainda que simples. Mas, diferentemente das obras mexicanas menores anteriores do mestre aragonês, Uma Mulher Sem Amor não tem qualquer resquício de seu passado surrealista. Trata-se, literalmente, do primeiro filme não-buñuelesco de Buñuel. Se conseguíamos ver, aqui e ali, interessantes momentos de desvarios em A Filha do Engano e Subida ao Céu, nada localizamos em Uma Mulher Sem Amor que não seja um típico dramalhão arquetípico do México e demais países da América Latina na época. Se a fita fosse dividida em capítulos, poderia facilmente ser uma novela cheia de caras e bocas, situações tristíssimas, amores não correspondidos, traições, ataques de raiva, olhares mortais e tudo mais que recheavam e ainda recheiam esse tipo de arte.

O fato de Uma Mulher Sem Amor ser baseado no livro de 1888 Pierre et Jean de Guy de Maupassant não ajuda muito, pois a estrutura dramática e pessimista da história é subvertida completamente em um final apressado no roteiro feito a seis mãos, duas delas do próprio Buñuel, tudo para se alcançar um essencial final feliz. Afinal de contas, a plateia da época não seria capaz de suportar tanta desgraça, tanta tristeza sem que a felicidade (quase) total se abatesse sobre os personagens, não é mesmo?

O filme é, basicamente, dividido em três atos. O primeiro deles nos apresenta ao dono de antiquário bem de vida Don Carlos Montero (Julio Vilarreal que já fizera Gran Casino com Buñuel) e sua jovem esposa Rosario (Rosario Granados, de El Gran Calavera) e logo deixa claro que Don Carlos é pouco respeitador de sua mulher, que visivelmente não está feliz no casamento. Quando o filho deles – Carlitos (Jaime Calpe) volta da escola sob acusação de furto, Don Carlos é veemente no castigo, sem dar chance de defesa ao garoto, o que o leva a fugir de casa. A fuga acaba fazendo com que Julio Mistral (Tito Junco) entre nesse seio familiar como o salvador do menino, amigo de Don Carlos e amante de Rosario. Rosario e Julio têm a chance de serem felizes, mas uma enfermidade de Don Carlos a impede de partir. No segundo ato, o drama engrena fortemente e vemos o casal, já bem mais velho (algo como 20 anos se passaram), com Carlitos crescido e formado (Joaquín Cordero) em medicina e descobrimos que eles tiveram outro filho, o recém-formado em medicina Miguel (Xavier Lloyá). Não demora muito – só o suficiente para descobrirmos que Carlos se ressente um pouco do irmão por achar que ele está em competição – e um notário informa que Julio morrera e deixou sua fortuna somente para Miguel. Sem nem discutir o porquê ou mesmo levantar as sobrancelhas, Don Carlos e Miguel aceitam o dinheiro. Carlos, o filho mais velho, tem que ouvir de uma ex-amante e enfermeira do hospital onde trabalha a óbvia e ululante verdade: Miguel é filho de Julio, o que torna sua mãe uma adúltera. Momento perfeito para a novela encerrar o episódio, não?

Mas entra o terceiro ato, com Carlos transformado por essa novidade, destratando sua querida mãe – com quem faz questão de dançar uma valsa logo no primeiro ato – e vendo seu irmão, sempre disposto a ajudá-lo, prosperando. A desgraceira toda continua, com Don Carlos falecendo de ataque cardíaco na festa de casamento de Miguel e no meio de seu discurso de parabéns. E claro, tudo deságua em uma conversa, com direito a socos e facadas entre Carlos, Miguel e Rosário, onde tudo se resolve com abraços e beijos de perdão e arrependimento.

O dramalhão até seria suportável se Buñuel tivesse conseguido extrair de seu atores atuações legítimas, convincentes. De todos, apenas Rosario Granados faz seu papel corretamente, sem exageros. Julio Vilarreal é um bobo alegre cuja atuação, muitas vezes, serve até de alívio cômico. Jaime Calpe, que faz Carlitos, deve ter sido um dos piores atores mirins de sua época, já que só sabe fazer caras e bocas dramáticas que não têm relação com a cena em que está atuando. Já Tito Junco, com seu cabelo lambido de vaselina, faz um papel canastrão, daqueles com olhares para um horizonte perdido e peito estufado, um verdadeiro amante à moda antiga, “do tipo que ainda manda flores”, como diria o Rei. E, completando o ensemble terrível, vemos Joaquín Cordero e Xavier Lloyá com trejeitos absolutamente inadequados e especialmente exagerados por toda a fita, valendo destaque para a transformação abrupta e nada convincente de Cordero de um filho amoroso para um monstro que nem olha para a mãe.

Mas, como disse, as risadas não intencionais valeram e não me deixam simplesmente jogar esse filme de Buñuel na lata de lixo. Se visto sem nenhum tipo de exigência ou como uma daquelas experiências cinematográficas únicas (no sentido ruim dessa palavra, claro), Uma Mulher Sem Amor consegue ser até divertido. Buñuel, mesmo quando erra, ele não erra completamente (mas passou perto, muito perto).

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.