Crítica | Uma Mulher, uma Arma e uma Loja de Macarrão

estrelas 3

Quem não assistiu Gosto de Sangue, o primeiro filme dirigido pelos irmãos Coen, de 1985, deve ler essa crítica com cuidado, pois alguns SPOILERS leves são inevitáveis. Aliás, quem não viu Gosto de Sangue deveria parar de ler essa crítica e assistir ao filme imediatamente e, somente depois, voltar aqui.

Zhang Yimou tem um currículo invejável. Dirigiu o fantástico Lanternas Vermelhas e, a partir daí, apesar de não ter alcançado o mesmo patamar dessa obra (que não foi a primeira, vale ressaltar), nos trouxe os ótimos Herói, O Clã das Adagas Voadoras, A Maldição da Flor Dourada e, recentemente, o belo e sofrido Coming Home. Em dezembro de 2009, ele lançou, na China, Uma Mulher, uma Arma e uma Loja de Macarrão, também conhecido apenas como A Simple Noodle Story, título que o coloca ainda mais próximo da obra que o inspirou, que, no original, é Blood Simple.

Na verdade, “inspiração” não é a palavra certa. Uma Mulher é a refilmagem de Gosto de Sangue, com a troca do país e da época em que o filme se passa. Agora, no lugar do Texas, na década de 80, temos a China lá pelo século XIX em um ambiente mais diretamente de faroeste. No lugar do bar de Gosto de Sangue, temos a tal “loja de macarrão” do título. Fora isso, a trama é igual, com o mesmo desenrolar, quase que passo a passo.

A intensidade do filme dos irmãos Coen vem dos dilemas morais dos personagens, já que o filme, assim como o de Yimou, conta a história de um rico dono de bar/loja de macarrão que contrata um detetive/policial para matar a esposa e seu amante. O que os irmãos Coen criam é uma comédia de humor negro extremamente envolvente, com um brilhante final que, logo no início da projeção do filme chinês, fiquei imaginando como Yimou faria.

Yimou, por sua vez, deixa de carregar no drama e nas questões morais e cai mais para um lado de pastiche, com dois personagens (o amante e um cozinheiro dentuço) servindo de Didi Mocó e Dedé Santana. Acho que até é possível dizer que Uma Mulher é uma sátira de Gosto de Sangue (isso faria dele uma sátira de uma sátira?), com atuações histriônicas desses dois personagens em contraposição a uma interpretação séria, mas caricata do policial contratado para cometer os assassinatos.

Tenho para mim que Zhang Yimou errou na proporção sátira versus drama, caminhando perigosamente para o pastelão total. É bem verdade que as marcas registradas dos Coen em Gosto de Sangue estão lá: a meticulosidade absurda do policial, a limpeza do sangue no escritório e a situação surpresa com o corpo. No entanto, Yimou talvez tenha se deixado levar pela necessidade de carregar nas cores do pastiche para diferenciar de verdade sua obra da original. Essa distância é, em primeiro lugar, desnecessária, pois os filmes são efetivamente distintos ao menos no que toca sua fotografia e paleta de cores (mais sobre isso para a frente). Em segundo lugar, a teatralidade dos personagens até teria lugar na trama se elas não ofuscassem a própria trama.

Sobre a fotografia e paleta de cores, elas são lindas, cortesia de um trabalho dedicado de Zhao Xiaoding. Para começar, a loja de macarrão fica no meio de nada com coisa nenhuma, cercada de montanhas multicoloridas em tons vermelhos. Contrastando com isso, temos o céu azul durante o dia e a lua cheia à noite. As tomadas de Yimou, algumas delas exagerando em planos gerais “leoneanos”, aproveitam ao máximo a bela paisagem. As cores também, assim como em Lanternas Vermelhas, são uma atração à parte. Os figurinos são multicoloridos, mas sempre em harmonia com a paisagem desolada ao redor e o azul utilizado para identificar o pelotão de polícia – algo bem ocidental, na verdade – é realmente magnífico, em forte contraste com as core mais berrantes dos personagens da loja.

Em determinados momentos, apesar dos problemas do filme e além da fotografia e cores, Yimou mostra sua genialidade. A tomada aérea do complexo onde moram os personagens é um achado e a reprodução de uma sirene de polícia quando chega a tropa é simplesmente muito engenhosa para não ser citada aqui.

O filme merece ser visto (ainda que depois de assistir Gosto de Sangue), mas, definitivamente, não é o Zhang Yimou que estava esperando.

Uma Mulher, uma Arma e uma Loja de Macarrão (San Quiang Pai an Jing Qi/A Woman, a Gun and a Noodle Shop/A Simple Noodle Story, China – 2009)
Direção: Zhang Yimou
Roteiro: Jianquan Shi, Jing Shang (baseado em roteiro dos Irmãos Coen)
Elenco: Honglei Sun, Xiao Shen-Yang, Ni Yan, Dahong Ni, Ye Cheng, Mao Mao, Benshan Zhao
Duração: 95 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.