Crítica | Uma Noite na Ópera

estrelas 5,0

Homenageado pelo disco de mesmo nome do QueenUma Noite na Ópera traz grandes mudanças dentro da carreira dos irmãos Marx. Primeiramente trata-se de seu primeiro filme na MGM, após a ruptura com a Paramount, em segundo lugar evidencia a nítida mudança narrativa em relação a seus trabalhos anteriores. Enquanto que, anteriormente, a comédia era tida como elemento central, unindo todos os aspectos das obras, o novo longa traria uma nova abordagem, com uma trama organicamente conduzida, com o humor percorrendo-a e, naturalmente, acrescentando conteúdo para sua construção. Por mais que tenhamos algumas esquetes aparentemente soltas, elas fazem parte de um quadro geral, que une cada ponto do roteiro.

Otis Driftwood (Groucho Marx) é um homem de negócios que busca alavancar sua carreira através de uma esnobe milionária que visa entrar na alta sociedade. Para isso, ele a apresenta para o diretor da ópera de Nova York, Gottlieb (Sig Ruman), outra figura cheia de si, para quem também trabalha. A situação começa a complicar, contudo, quando Driftwood conhece Ricardo (Allan Jones), Tomasso (Harpo Marx) e Fiorello (Chico Marx), o primeiro um cantor de ópera e os outros seus amigos. Não demora muito para terem suas carreiras praticamente arruinadas e passarem a precisar de um plano a fim de resgatarem o que foi perdido entre inúmeras trapalhadas.

Com um humor irreverente, repleto de ironias e sarcasmos, os irmãos Marx nos cativam para essa narrativa, aparentemente linear, mas que é tão repleta de situações inesperadas que nos chega a deixar tontos. Não que isso seja um aspecto negativo da obra, muito pelo contrário, essa inconstância da trama garante cada centelha de nossa atenção, fortalecendo a imprevisibilidade do roteiro e, é claro, funcionando a favor das inúmeras piadas nele presentes. E Uma Noite na Ópera é justamente isso: um amontoado de acontecimentos memoráveis, alguns deles emblemáticos dentro da história do cinema, basta assistirmos isoladamente a cena do quarto minúsculo no navio para termos tal percepção solidificada.

Mas limitar o filme à sua capacidade humorística seria, no mínimo, um desserviço à sua importância. Temos presente em sua narrativa ferrenhas críticas à chamada “alta-sociedade” e o desdém pelos menos afortunados. Além da óbvia vilanização dessas figuras, o texto emprega inúmeras situações para elevar as classes “inferiores”, colocando nelas toda a alegria que percebemos na obra. Para exemplificar esse fator basta pegarmos  a sequência da comida e música dentro do navio, algo de grande simplicidade, mas que acaba tocando o espectador de forma certeira – algo almejado posteriormente, de forma similar, por James Cameron em Titanic. Primeiro o piano cria um aconchego, risadas espontâneas e nos faz sentir como as crianças que o assistem tocar, muito similarmente ao que veríamos posteriormente em Amadeus. Depois, o som da harpa nos traz uma profunda calma, nos fazendo esquecer, como os personagens, que estão ilegalmente naquele barco.

A ênfase nessa luta de classes é tão evidente que até mesmo o amor se limita aos “não esnobes”. Basta observarmos a sinceridade da relação entre Rosa (Kitty Carlisle) e Ricardo em comparação à obsessão de Lassparri (Walter Woolf King) pela mesma mulher. Enquanto um declara todos seus sentimentos pela música o outro se recusa a cantar simplesmente porque não é pago. Curiosamente, ao mesmo tempo, temos em tais momentos a maior quebra de ritmo do longa-metragem, algo que claramente interrompe o fluxo narrativo a fim de construir o romance entre os dois personagens. Tais rupturas, porém, são bastante curtas e não chegam a quebrar nossa imersão e, acima de tudo, complementam para o sentido do título, que adota mais que apenas o significado óbvio. O filme, por si só, é uma estranha ópera mesclada com a comédia.

Esses elementos em conjunto fortalecem o conjunto da obra, com uma musicalidade de deixar qualquer um sorrindo após a projeção, não apenas pelo humor maravilhosamente construído e sim pela forma bem-amarrada como a trama se estabelece. Uma Noite na Ópera é uma verdadeira jornada, não só para seus personagens, como para o espectador. Um filme obrigatório não só pela sua importância histórica, como pela sua qualidade, trazendo umas das mais memoráveis cenas de comédia já feitas. Naturalmente não irei estragar a surpresa e deixarei adivinharem quais são, pois com certeza serão identificadas de imediato.

Uma Noite na Ópera (A Night at the Opera – EUA, 1935)
Direção:
 Sam Wood, Edmund Goulding
Roteiro: George S. Kaufman, Morrie Ryskind
Elenco: Groucho Marx, Chico Marx, Harpo Marx, Kitty Carlisle, Allan Jones, Walter Woolf King, Sig Ruman, Margaret Dumont
Duração: 96 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.