Crítica | Uma Nova Chance Para Amar

estrelas 1,5

Sabe quando você assiste a um filme que tem uma premissa com potencial, atores excelentes, mas que, misteriosamente, tudo está um pouco fora de lugar? Uma certa barreira invisível que permeia todo a fita e impede que as peças do quebra cabeças da produção se encaixem em um conjunto harmônico? Pois bem, isso é Uma Nova Chance Para Amar.

Afinal de contas, quando temos a oportunidade de assistir Annette Bening contracenando com Ed Harris, tendo o saudoso Robin Williams como coadjuvante, não podemos esperar menos do que algo prazeroso. No entanto, de alguma maneira, por mais que os esforços individuais de cada ator sejam visíveis, não há qualquer tipo de sinergia e o resultado é próximo do desastroso. E, pelo trabalho pregresso da trinca, apesar de um currículo sinuoso de Williams, parece-me que o problema está mesmo é no trabalho de direção de Arie Posin que, antes, só dirigira o para lá de obscuro Más Companhias.

Posin parece ser proficiente em escolher os piores ângulos para mostrar seus atores e exigir deles as atuações mais forçadas, menos convincentes possíveis. Bening, que faz o papel da viúva Nikki, cinco anos após a morte de seu marido, tem sorrisos estranhos, olhares amalucados e gestual completamente fora de esquadro. Ed Harris, que vive Tom, um pintor que é sósia do marido falecido de Nikki e de quem ela se aproxima por essa razão, depois de esbarrar com ele em um museu, além de estar incrivelmente magro (apesar de ainda musculoso), parece uma caricatura dele mesmo, apenas muito de longe lembrando seus mais imponentes papeis. Robin Williams parece um serial killer quase que integralmente extraído de seu próprio papel em Retratos de Uma Obsessão. Não que Retratos seja ruim, mas sim porque não há nenhuma relação entre seu viés assassino lá e sua vida de pacato vizinho – também viúvo – apaixonado por Nikki.

É quase como se todo os takes bons das atuações dos três tivessem sido jogados fora por Posin, que monta sua obra apenas com o que há de pior. Mas o problema não para nas atuações. Ele continua com o próprio tom da obra, que faz uso de uma trilha sonora hitchcockiana (composta por Marcelo Zarvos) para passar um ar de mistério que o estranho romance de Nikki com Tom simplesmente não pede ou, se pedisse, que o roteiro ao menos fizesse jus a isso. Afinal, todo o suspense falsamente criado e o mistério falsamente construído é literalmente jogado no lixo no terço final, com o diretor, então, investindo no melodrama puro, misturando uma espécie de paródia do Mestre do Suspense com novela mexicana.

Além disso, Posin parece gostar de experimentar com câmeras, por vezes trabalhando com ela parada e, por outras, com câmera nervosa, intrusiva, sem que haja qualquer tipo de demanda narrativa para essa alternância. O resultado afasta e confunde o espectador, que já é obrigado, de início, a aceitar uma trama – a de Nikki encontrando um sósia de seu marido e mantendo relações com ele, mas sem revelar o porquê de ter se aproximado e, no processo, afastando-se da filha e amigo – que exige altíssimo grau de suspensão da descrença. É como se o diretor, que co-escreveu o roteiro com Matthew McDuffie (outro ilustre desconhecido) tivesse tido uma brilhante ideia que ele não soube nem semear nem colher corretamente.

O que sobra é, apenas, uma fotografia interessante, que consegue emular, no telão, a paleta de cores utilizada nas pinturas de Tom (ou vice-versa), emprestando uma qualidade de sonho ao que vemos e, no processo, dando-nos um vislumbre de uma pequena “saída” para todas as improbabilidades que somos obrigados a engolir. Mas é só isso mesmo, um vislumbre, pois a narrativa nos impede de caminhar por essa trilha, jogando-nos de encontro à realidade novamente. Isso mais uma vez mostra a natureza franco-atiradora de Posin, que literalmente não sabe exatamente o que é seu filme.

Por mais que assistir Bening e Harris juntos, com uma pitada de Williams simplesmente não possa ser algo completamente ruim, Arie Posin quase consegue essa façanha. Uma Nova Chance Para Amar é um filme que não merece nenhuma chance, nem mesmo dos mais românticos ou dos fãs mais inveterados da trinca principal de atores.

Uma Nova Chance Para Amar (The Face of Love, EUA – 2013)
Direção: Arie Posin
Roteiro: Matthew McDuffie, Arie Posin
Elenco: Annette Bening, Ed Harris, Robin Williams, Jess Weixler, Amy Brenneman, Linda Park, Clyde Kusatsu, Jeffrey Vincent Parise
Duração: 92 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.