Crítica | Uma Promessa

estrelas 2

Stefan Zweig, em seu livro A Viagem ao Passado, nos traz um estudo psicológico sobre a persistência do amor. As adversidades sobre as quais esse sentimento pode prevalecer, seja o tempo, a moral e até mesmo a guerra. As obras do autor, renomado principalmente na Europa, serviram como inspiração para o mais recente longa-metragem de Wes AndersonO Grande Hotel Budapeste, no qual o diretor utiliza seu característico modus operandi para construir uma releitura dos livros  do austríaco.

Uma Promessa, dirigido por Patrice Leconte, nos traz uma adaptação propriamente dita de Zweig, porém, acaba deixando em segundo plano os pontos mais característicos da obra do autor. Focando mais no romance em si, que na condição psicológica das personagens, Leconte acaba criando uma espécie de drama adolescente, repleta de toda a melosidade que podemos esperar de tais produções. Ao mesmo tempo, estamos diante de um drama de caráter mais adulto, em especial pelos questionamentos que realiza e as situações amorais que sugere. O resultado é um longa que não satisfaz a nenhum dos lados, permanecendo em um limbo, uma indefinição de seu próprio tom, que não chega a agradar nem a um público nem a outro.

A trama gira em torno de Friedrich Zeitz (Richard Madden, o Rob Stark de Game of Thrones), um jovem empresário que acaba se destacando na indústria onde trabalha. Já podemos observar, nesses minutos iniciais, uma clara pressa do diretor em adiantar a história para o seu ponto central. A montagem é acelerada, causando uma evidente fragmentação da narrativa, nos levando para uma falta de identificação com os personagens principais, algo que somente se corrige passada a introdução feita praticamente em fast-forward. O sucesso profissional do jovem, acaba o aproximando de seu chefe Karl Hoffmeister (Alan Rickman), que, pouco a pouco introduz o jovem à sua vida, chegando ao ponto de convidá-lo a morar consigo. Durante esse período, Zeitz conhece Lotte Hoffmeister, a esposa de seu empregador e uma paixão crescente se instaura entre os dois, levando a um romance secreto, que permanece em estado platônico. Chegamos, portanto, para o momento que a aceleração inicial queria nos adiantar.

Aqui, o ritmo da obra assume uma velocidade praticamente nula, ao passo que não vemos uma progressão narrativa em qualquer momento. Sabemos que ambos estão apaixonados um pelo outro e o que se sucede é uma infinitude de situações forçadas que levam os atores a ações que beiram o ridículo, como cheiras as teclas do piano que a mulher tocou. Há uma evidente obsessão instaurada entre os dois e esse é o ponto máximo que o lado psicológico do filme aborda. Por mais de uma hora de projeção acompanhamos essas idas e vindas dos amantes, ao mesmo tempo que Alan Rickman encarna o perfeito “corno manso”. Não há um aproveitamento da tensão que dá indícios de sua presença e sim uma constante repetição do que já vimos inúmeras vezes.

Chega a ser triste constatar que Leconte não aproveita o interessante plano de fundo da narrativa. Estamos à beira da Primeira Guerra e o diretor parece ignorar isso completamente, somente utilizando o período para alavancar um drama entre Friedrich e Lotte, mas sem entrar em maiores detalhes que garantiriam uma riqueza à essa retratação da Europa na primeira metade do século XX. Avançamos temporalmente no pós-guerra e somente uma curta cena nos mostra a crescente presença do nazismo na Alemanha, algo que poderia oferecer um estudo maior das personalidades dos protagonistas. Ao invés disso, ocorre o que já foi dito: o foco exaustivo nessa paixão adolescente (por mais que sejam adultos), algo que o próprio título sugere, ao passo que descartou A Jornada ao Passado, em favor de algo mais que comum: Uma Promessa.

Essa tragédia que é o roteiro, escrito pelo próprio Leconte e Jérôme Tonnerre, acaba ofuscando o trabalho dos atores, que convencem em seus papeis, com Rickman, como sempre, roubando as cenas em que aparece. O que consegue se destacar é a fotografia do experiente Eduardo Serra, que opta por um maior uso de movimentos de câmera, alguns sutis e outros mais evidentes, como os closes repentinos nos rostos dos personagens. Dispensa-se um excesso de planos em detrimento dessa maior dinâmica. Em diversas sequências, o fotógrafo faz uso da câmera na mão, bem representando a inconstância dos personagens retratados, a inquietude dos dois jovens que permanece evidente por toda a projeção. Neste aspecto, o filme chama a atenção, nos tirando do lugar comum e muitas vezes nos lembrando algumas técnicas utilizadas na série Battlestar Galactica (2004).

Somente esse fator, contudo, não consegue nos afastar do forte sentimento de cansaço que a obra nos deixa, perdendo completamente nossa atenção já na metade de sua duração. Com um romance que não sai do lugar e situações forçadas, Patrice Leconte não faz jus ao livro de Stefan Zweig, perdendo completamente as diversas oportunidades que a narrativa oferecia. Temos a clara percepção de um potencial não aproveitado – um filme que ignora seu interessante plano de fundo em detrimento de um drama comum, que rapidamente perde seu espectador.

Uma Promessa (A Promise – França/ Bélgica, 2013)
Direção:
Patrice Leconte
Roteiro: Patrice Leconte, Jérôme Tonnerre
Elenco: Rebecca Hall, Alan Rickman, Richard Madden, Toby Murray, Maggie Steed, Shannon Tarbet, Jean-Louis Sbille
Duração: 98 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.