Crítica | Uma Relação Delicada (2013)

estrelas 2,5

O diálogo da cena final do filme Uma Relação Delicada pode muito bem ser a fagulha do incêndio que a diretora Catherine Breillat esperava incitar nesse drama. “Eu estava lúcida… era eu mas não era eu”.  Essa afirmação apela para uma dualidade interior que não consegue aparecer no resto do filme.

O conflito parece se acumular no último segundo enquanto o restante do tempo de duração da fita não entrega nenhuma verdadeira tensão, sem dar ao espectador argumentos suficientes para compôr uma justificativa crível para a narrativa.  Isso se dá pelo fato de que a personagem central se prende em suportar os acontecimentos e a narrativa deixa de explorar as superações e as convicções  dela, o que esvazia a possibilidade de empatia.

O espectador não tem tempo de interagir com os conflitos e dores de Maud Schoenberg, interpretada pela renomada Isabelle Huppert, porque a narrativa não segue um ritmo engajante. E mesmo que a atuação de Isabelle Huppert seja convincente, a montagem parece ter extraído a profundidade da história com saltos de tempo sem sentido narrativo, que mais parecem existir para fazer caber mais cenas repetidas da personagem dormindo nua na cama sendo despertada pelo celular que toca.

Falta uma imersão no mundo dessa cineasta que tem de lidar com as sequelas de um derrame cerebral, fato que parece existir apenas para privá-la de ter uma relação sexual com o vigarista que convida para sua casa no intuito de tê-lo como ator no novo filme dela. O personagem de Kool Shen, Vilko Piran, é um estelionatário que ficou 13 anos preso em uma prisão de Hong Kong.

Ela se atrai pela capacidade dele em ignorar qualquer forma de remorso pelos crimes que comete. E ele fica tentando chocá-la ou arrancar certa compaixão pelo passado sofrido dele mas ela não reage, o que atrai o interesse dele. A relação dos dois parece se basear em interesses que nunca são ditos. É possível imaginar que a diretora quisesse trabalhar uma trama do avesso do estilo que ela é facilmente relacionada, ao escamotiar a tensão sexual em corpos que não se tocam com intuito de dar prazer. Mas realmente não dá para extrair do filme uma conclusão.

O roteiro que a cineasta do filme descreve consegue ser muito mais instigante e total em sentido do que Uma Relação Delicada. Esse filme simplesmente não atinge ápices e fica preso a uma continuação de cenas que não dizem tudo que poderiam dizer e deixam o espectador apático ao desenrolar da trama. Por fim, a trama parece se basear na solidão e no orgulho da personagem central que assina a própria apatia nos cheques que entrega para o vigarista. Se há uma coisa com a qual o público consegue se relacionar nesse filme é essa apatia.

Uma Relação Delicada (Abus de faiblesse) – França, Alemanha, Bélgica, 2013
Diretor: Catherine Breillat
Roteiro: Catherine Breillat
Elenco: Isabelle Huppert, Kool Shen, Laurence Ursino, Christophe Sermet, Ronal Leclercq, Fred Lebelge
Duração: 105 min

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.