Crítica | Uma Rua Chamada Pecado

estrelas 5,0

Tenho que fazer uma ressalva logo de início. Tive tremenda dificuldade em escrever a presente crítica, pois a peça de teatro de Tennessee Williams, que ele mesmo adaptou para o cinema, é um dos textos literários americanos que mais me marcou. Além disso, o filme em si, dirigido por Elia Kazan, é uma das melhores adaptações cinematográficas de seu material fonte, em minha opinião, com atuações, direção, fotografia, montagem e trilha sonora beirando a perfeição.

Sei que o crítico deve tentar não fazer uso de textos inflados, cheios de hipérboles e palavras desacompanhadas de justificativas plausíveis e essa foi outra razão para minha dificuldade em escrever sobre Uma Rua Chamada Pecado. Mas vamos lá!

A peça

Escrita em 1947 pelo brilhante Tennessee Williams, Uma Rua Chamada Pecado (na verdade, no Brasil, a peça ganhou o nome correto de Um Bonde Chamado Desejo) o fez merecidamente ganhar o prêmio Pulitzer no ano seguinte. Contando a história de Blanche duBois, uma aristocrata sulista falida que, sem ter para onde ir, se muda para a casa de sua irmã Stella, casada com o brutamontes Stanley Kowalski, descendente de polonês. Blanche é um dos mais trágicos personagens criados pela literatura do século XX, pois ao mesmo tempo encapsula a decadência de um modo de vida, o sofrimento e preconceito resultantes de sua incapacidade de se adaptar a um mundo novo, povoado por imigrantes em uma economia completamente diferente da que passou sua vida vendo.

Mas Williams insere tantos comentários em seu trabalho que é impossível realmente tratá-los todos aqui. Basta dizer que Stella, em oposição à Blanche, representa a mulher conformada com uma vida em que o marido é o centro das atenções, sendo abusada por ele e mesmo assim amando-o incondicionalmente ou, claro, amando-o convenientemente, sem qualquer alternativa no mundo selvagem que foi apresentado a ela a partir da decadência da fazenda Belle Reve (“belo sonho” em francês errado) de sua família.

Além disso, Blanche tem um passado remoto trágico. Quando a peça começa, ela é uma mulher ainda bela, mas acima dos trinta anos, tendo casado muito jovem, apenas uma vez, aos 16 anos, com um rapaz de, por causa de seus comentários cáusticos sobre sua homossexualidade, acaba se matando. Ela carrega essa culpa nas marcas de seu rosto e na vida pesada que vive quando perde Belle Reve, tendo que se mudar para um hotel/inferninho onde acaba se prostituindo para manter um mínimo do semblante da vida que vivia no auge de sua juventude.

Reparem que a peça é de 1947. Os Estados Unidos acabavam de sair da 2ª Guerra Mundial e o país tornava-se o centro do mundo. Blanche é o passado e Stan é o futuro. Os valores de cada um são completamente diferentes, em direta e absoluta oposição, sem qualquer forma de conciliação. Tanto o retrato de Blanche como uma dama sem esperanças quanto o de Stan como um bruto sem maneiras são formas que Williams encontrou para fortemente criticar os Estados Unidos.

O sexo é outro elemento profusamente presente na peça, com Stan sendo o “garanhão” padrão, daqueles que encantam as mulheres justamente por seu jeito mais selvagem de ser, em ampla oposição tanto à Stella, que é (ou foi) genuinamente apaixonada por ele e também à Blanche, que, por seus diálogos e trejeitos, também o deseja.

A primeira montagem da peça, sob rígido controle de Williams – uma característica marcante desse autor – foi debaixo da batuta da produtora Irene Mayer Selznick, filha de Louis B. Mayer (o chefão à época da MGM) e esposa de David O. Selznick (o lendário produtor hollywoodiano), de quem se separara três anos antes. O diretor dessa produção foi o próprio Elia Kazan e, no elenco, estavam Jessica Tandy como Blanche e Marlon Brando como Stan – então dois absolutos desconhecidos – além de Kim Hunter como Stella e Karl Malden como Mitch, amigo de Stan e pretendente de Blanche.

Apesar da temática pesadíssima, moderna e que inclui até mesmo uma cena de estupro, a audiência, em 1948, na noite de abertura, aplaudiu a peça por nada menos do que 30 minutos ininterruptamente. Os leitores conseguem imaginar o que foi ver esses monstros atuando nessa magnífica e destruidora peça? Eu não consigo, mas as duas vezes em que tive o prazer de ver montagens dessa obra, tive vontade de fazer a mesma coisa, mesmo depois de tanto tempo e com atores bem menos relevantes.

Uma Rua Chamada Pecado arrancou a dramaticidade exagerada do teatro à época, enxertando esse drama no personagem de Blanche, como parte do personagem, como parte da camada de sonho que ela usa para se proteger do mundo selvagem que a cerca e que é perfeitamente encapsulada pela lanterna de papel que ela usa para reduzir o brilho da luz em seu quarto. Essa peça trouxe o naturalismo ao teatro americano, o que acabou sendo coroado pelo estreante Marlon Brando, desde cedo um method actor, que se transforma integralmente no personagem, permanecendo “em caráter” mesmo quando não está atuando.

O filme

O sucesso da peça da Broadway levou à produção do filme pela MGM, literalmente trazendo o diretor e quase todo o elenco para o cinema. Além de Brando, Hunter e Malden repetindo seus papeis, vieram, ainda, Rudy Bond, Nick Dennis e Richard Garrick também em seus papeis do teatro. No entanto, famosamente, Jessica Tandy ficou de fora, pois a produção considerou que ela ainda não era conhecida o suficiente para atrair o público em geral. Olivia de Havilland e Bette Davis foram consideradas para o papel, mas o poder de estrela de Vivien Leigh, que já havia vivido uma trágica personagem sulista no inesquecível …E o Vento Levou, 12 anos antes, além de à época ter sido Blanche na montagem britânica da peça. É impossível saber o que seria Blanche na pele de Tandy e Davis, mas o fato é que a escolha de Leigh para viver a atriz no cinema foi uma das mais sensacionais interferências de uma produtora na História do Cinema.

Exagero? Não creio. Leigh, apesar de ser lembrada até hoje como a única Scarlett, na verdade tem o papel de sua vida em Uma Rua Chamada Pecado. Ela faz seu papel à perfeição, com leve uso de maquiagem para acentuar poucos traços de “idade”, mantendo-se, porém, sempre bela, mas com uma camada palpável de tristeza, amargura e solidão, acompanhada de outra camada de pensamentos nostálgicos de uma vida que ela sabe que nunca mais voltará, mas cuja lembrança a faz levantar o queixo e continuar. É, sem exageros, uma das mais poderosas e eficientes atuações do Cinema e ela, sozinha, consegue carregar o filme nas costas.

Mas acontece que Uma Rua Chamada Pecado é abençoado por outras três atuações impressionantes. Marlon Brando tem também a atuação de sua vida (seu Coronel Kurtz e Don Vito Corleone são sensacionais, mas fico com seu Stan Kowalski a qualquer hora, se me derem escolha), como a fusão de galã e monstro de maneira natural, compreensível e relacionável. Sim, até mesmo na famosa sequência de estupro – discretíssima, mas contundente – nós conseguimos entender quem é Stan. Não há justificativa para sua atitude, mas o que Tennessee Williams nos quer passar não é exatamente a violação de uma mulher pelo homem, mas sim a obliteração de sonhos, de um modo de vida. A vitória do novo país que estava se formando sobre o antigo. E Brando consegue nos passar doses iguais de violência, raiva e rancor, além de ternura, dependência e fragilidade.

Karl Malden vive Mitch, talvez o segundo mais trágico personagem da obra. Ele é amigo de Stan, mas é de outra estirpe, alguém mais delicado, mais cavalheiro, mais “antiquado”. Ele representa a esperança para Blanche, que vê nele o “cavaleiro de armadura” que a salvará. E Mitch vê em Blanche sua última esperança de sair do braço protetor de sua mãe, de ganhar independência. O olhar de Malden é de uma melancolia que raramente se vê no Cinema.

Finalmente, há Kim Hunter como Stella. Ela é a versão “do mundo real” de Blanche, uma mulher que sabe que perdeu tudo, mas que se encontrou novamente, nem que se encontrar signifique ter que viver com o representante desse novo mundo que nem ela entende muito bem como é que funciona. Ela é a esposa abusada, mas que não tem escolha e seu movimento corporal, antes e depois de sua gravidez merece aplausos de pé, especialmente mais para o final, quando ela se divide – mas não tanto – entre ficar com o marido ou mandar Blanche embora para o sanatório. Nós sofremos com Stella, com sua escolha impossível e com a única opção que ela realisticamente tem.

Não foi sem querer que Leigh, Hunter e Maden receberam os Oscar de melhor atriz, melhor atriz coadjuvante e melhor ator coadjuvante respectivamente. Apenas Marlon Brando, que concorreu ao prêmio de melhor ator, foi deixado de fora, em uma das maiores injustiças já cometidas pela Academia, que entregou a estatueta para Humphrey Bogart em seu papel em Uma Aventura na África.

Mas não posso me furtar de falar de Elia Kazan. Afinal, se há alguém verdadeiramente responsável por fazer de Uma Rua Chamada Pecado o que é hoje, além de seu autor, claro, é ele, tanto no teatro quanto no cinema. Filmado quase que integralmente em estúdio em Los Angeles, com apenas algumas tomadas externas em Nova Orleans para estabelecer o local, há uma inequívoca sensação “teatral” no cenário. Mas a direção de arte é esplêndida em seus detalhes, trabalhando o cenário para nos passar corretamente a sensação de uma “decadência na ascendência” no sobrado onde moram os Kowalski, basicamente o único cenário do filme. Cada detalhe é organizado de maneira que a luz, da essencial e detalhista iluminação comandada pelo veteraníssimo diretor de fotografia Harry Stradling Sr., que viria a fazer Minha Bela Dama, Funny Girl e que havia feito o trabalho de fotografia em preto e branco de Suspeita, de Hitchcock, ilumine exatamente aquilo que precisa iluminar, já que a contraposição de luz e sombras, sobretudo quando Blanche está presente, é da essência da obra original, sendo a lanterna de papel elemento verdadeiramente essencial à compreensão do estado mental de Blanche.

Kazan e Stradling Sr. trabalham tomadas em close-up contrapostas a médios planos que conseguem, sozinhas, realçar o estado de espírito flutuante de Blanche, tornando detectável a qualquer um que ela vive em seu próprio mundo, mas tem ampla e absoluta consciência de que o mundo mudou e que essa “fábula” que ela se esforça para manter é apenas isso, uma última tentativa de conseguir paz de espírito. Ah, coitada de Blanche! Mal sabe ela que é justamente isso que atrai tamanha desgraça para sua vida.

A trilha sonora de Alex North, outro veterano de Hollywood (viria a fazer Spartacus, Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? e Os Bons Companheiros) é inovadora. Ele foge do drama exatamente como Tennessee Williams fez quando escreveu a peça, compondo peças que servem, assim como a fotografia, para acentuar o estado de espírito dos personagens, notadamente de Blanche e Stanley, em eterna contraposição, com notas mais leves no caso da primeira e mais pesadas no caso do segundo, emulando os próprios personagens. Mas não é uma trilha que vive facilmente independente do filme, o que de forma alguma detrai de sua qualidade.

A versão do cinema versus a versão do diretor

Uma Rua Chamada Pecado foi produzido sob a tenebrosa égide do Código de Produção, então em vigor nos EUA e que servia como ferramenta de censura prévia. Com isso, a temática pesada e difícil de Williams teve que ser suavizada para o lançamento no cinema, com o completo sumiço da questão da homossexualidade do marido de Blanche e o quase desaparecimento do estupro de Blanche, além de diversos outros pequenos cortes feitos à revelia de Kazan.

No entanto, para nossa sorte, as sequências perdidas da fita foram achadas pela Warner Bros. anos depois e acabaram reinseridas na obra, que, hoje, circula por aí em sua versão completa, refletindo exatamente a visão de Elia Kazan e de Tennessee Williams. Um grande alívio para os cinéfilos de todo o mundo!

Uma última palavra

Vejam Uma Rua Chamada Pecado, mas, sobretudo, leiam a peça de Williams. É um dos grandes exemplos da literatura mundial e o filme é – não tenho medo de exagerar – uma das melhores adaptações já feitas.

Mas minha última palavra, de verdade, é essa aqui: o que passou na cabeça dos tradutores nacionais ao colocarem o título do filme como Uma Rua Chamada Pecado? Custava traduzir como a peça já havia sido traduzida por aqui, ao pé da letra, como Um Bonde Chamado Desejo? O título oficial nacional não faz sentido algum, enquanto que a tradução literal é uma perfeita alusão ao diálogo que abre a obra, com Blanche pedindo direções para chegar no sobrado de sua irmã, além de ser metaforicamente muito carregado, quase que explicando a temática principal. Vai entender…

Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire, EUA – 1951)
Direção: Elia Kazan
Roteiro: Tennessee Williams, Oscar Saul (baseada em peça de Tennessee Williams)
Elenco: Vivien Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter, Karl Malden, Rudy Bond, Nick Dennis, Peg Hillias, Wright King, Richard Garrick, Ann Dere
Duração: 122 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.