Crítica | Uma Verdade Inconveniente

Quando pensamos nas questões ambientais e todo o ativismo em relação a tal causa, chega a ser estranho pensar que, há poucas décadas, quase ninguém dava a mínima para tal assunto. Mesmo na atualidade, enxergamos o aumento de políticas envolvendo a preservação do nosso espaço natural – mesmo que essas sejam, por vezes, contornadas por grandes empresas e afins. A tomada de consciência por parte do público acerca do impacto provocado pelos seres humanos no planeta Terra, claro, não foi algo imediato, de fato, é um processo ainda em movimentação e um dos fatores que influenciaram essa mudança nos últimos anos foi o documentário de Davis Guggenheim, Uma Verdade Inconveniente.

Primeiro, é importante ressaltar que, independente de sua visão sobre o assunto, essa obra não perde sua força. Como a defesa de uma tese, ela precisa ser escutada, mesmo que seja para ser rebatida – especialmente em questões importantes como essa, o diálogo prova ser essencial. Naturalmente, por se posicionar na defesa de uma linha de raciocínio (a que diz que o homem tem, sim, impacto no aquecimento global), o longa não tem somente a pretensão de apresentar dados, como a de convencer o espectador de que algo precisa ser feito.

O roteiro do próprio Al Gore, felizmente, jamais tenta efetivamente enganar o público. Baseando-se em dados científicos, a obra faz uso de gráficos, imagens de arquivo e, claro, filmagens das palestras de Gore, para expor o seu argumento. Em geral, tudo o que é apresentado foi corroborado pela comunidade científica ao assistir o longa, com algumas exceções que se configuram como meras teorias, como é o caso da relação entre a temperatura dos oceanos e os furacões/tornados. Como ativista, Gore atém-se aos dados, demonstrando boa oratória, sendo capaz de nos manter atentos durante praticamente toda a projeção.

Evidente que a montagem de Jay Cassidy e Dan Swietlik prova ser essencial para nossa imersão, demonstrando precisão ao alternar entre as filmagens e imagens de arquivo, sem ter medo de cortar as sequências no momento certo, as interrompendo momentaneamente, apenas para serem resgatadas posteriormente. Sentimos, de fato, como se acompanhássemos o político/ativista em sua jornada, não apenas assistindo trechos de suas palestras, afastando-nos, portanto, da monotonia provocada pela repetitividade, ponto fundamental para o aproveitamento geral da obra.

Dito isso, a montagem não é capaz de excluir um dos maiores problemas da obra, fruto, em geral, de certo excesso de drama no roteiro, além de outras sequências desnecessárias que mais parecem ter sido motivadas pelas pretensões e decepções políticas de Al Gore do que qualquer outra coisa. Um desses trechos nos mostra a vitória de George W. Bush na corrida presidencial dos Estados Unidos, questão que mais soa como mágoa de Gore do que efetivamente parte essencial do filme em questão, que deveria se manter acima da política. Além disso, é preciso observar como tais trechos nos lembram da idade do longa-metragem, ponto que se contrapõe ao restante do discurso apresentado, que soa tão atual quanto na época que fora lançado.

Apesar desses deslizes, Uma Verdade Inconveniente prova ser um ótimo documentário que habilmente expõe o ponto de vista acerca do impacto do homem no meio-ambiente. Como já dito antes, independente de sua visão sobre o assunto, o longa-metragem de Davis Guggenheim é essencial para o entendimento desses argumentos, sendo eficaz na apresentação dos dados, sem nos perder em um excesso de informações que acabaria entediando o espectador. Trata-se de uma aula em forma de filme e que funciona muito bem nesse formato.

Uma Verdade Inconveniente (An Inconvenient Truth) — EUA, 2006
Direção: 
Davis Guggenheim
Roteiro: Al Gore
Com: Al Gore, Billy West, George Bush, George W. Bush, Ronald Reagan
Duração: 96 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.