Crítica | Uma Vida Comum (2013)

estrelas 3,5

Já foi sociológica e filosoficamente provado que um dos grandes anseios da humanidade é ter uma vida plena e deixar algo que sobreviva à sua morte. Plantar árvores, ter filhos e/ou escrever um livro são exemplos tradicionais de atitudes para essa posteridade garantida, uma forma de continuar o nome, a essência, o pensamento, a breve presença de qualquer pessoa na Terra. Nós nunca aceitamos morrer por completo.

Tento esses elementos em mente, o cineasta Uberto Pasolini nos apresenta uma história mista de emoção e conceitos filosóficos em Uma Vida Comum, longa que acompanha a vida de um homem cujo estranho trabalho era encontrar os parentes vivos de pessoas que morriam indigentes. Sensível, metódico e humano o bastante para se importar com pessoas que ele jamais conhecera, John May, o protagonista, transita entre o funcionário viciado em trabalho e um arauto das boas ações, ambas as coisas com um princípio nobre mas que de alguma forma fazem com que ele deixe de viver sua própria vida em função da morte e memória dos outros.

Muitas comparações cinematográficas nos vêm à mente durante a projeção da fita. O homem que vive para trabalhar nos lembra o protagonista de Viver, de Kurosawa; a busca pela felicidade alheia nos lembra a protagonista de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain; e o homem metódico que tem sua vida invadida por um elemento novo que irá trazer um significado profundo à sua existência nos lembra o protagonista de A Montanha Matterhorn. Todos esses personagens passaram por mudanças significativas ao longos dos filmes, indo de observadores passivos ou em prol da felicidade alheia para uma situação onde sua própria felicidade entra em jogo, algo que se repete em Uma Vida Comum.

O que temos, portanto, na película, é um diário de mudanças. O filme acompanha um dado ponto na vida de John May em que as coisas já caminhavam para um patamar de alterações. De repente ele vê seu setor passando por um corte de gastos e sendo absorvido por outra agência. Um último caso então lhe coloca de frente para 22 anos de trabalho. Ele se vê “investigando” um homem cuja existência foi uma mistura de aventuras, atitudes altruístas, criminosas ou impulsivas e, mais importante, vê a possibilidade de realizar-se a si mesmo através do afeto nascido do encontro com a filha deste homem.

O roteiro de Uberto Pasolini joga com a aceitação do espectador, a estranha simpatia criada em relação ao protagonista e a ironia dolorosa que encerra o filme. A pequena centelha de esperança é então apagada pela morte de John, que tem exatamente o mesmo destino das pessoas que tentava enterrar dignamente. Há tantas verdades e tanta possibilidade de análise nesse ponto, que o espectador tende a passar tempo demais pensando a respeito do que em todo o restante da obra.

O interessante é que, em termos estéticos, o mesmo tom cinzento ou esverdeado adotado pelo fotógrafo Stefano Falivene no início do filme é utilizado para mostrar a possível mudança na vida de John May. É como se víssemos a vida de alguém mudando sob a perspectiva de um ambiente triste, adoentado, passível de morte. Desde sempre, a felicidade parecia algo negado ao protagonista, algo que se confirma na sequência final do longa.

Lamentamos o mau uso e a má escolha da trilha sonora para a fita. A repetição do tema musical e a falsa sensação que ele nos transmite já estava muitíssimo bem delineada pela fotografia, não era necessário um elemento a mais para nos lembrar de certas coisas. Até no trabalho do elenco (resultado de uma boa direção de Pasolini) tínhamos material necessário para flutuarmos entre a possível felicidade futura e a tragédia e tristeza permanentes. Não fosse pelo bom argumento geral, o impacto negativo desse quesito técnico poderia ser bem maior, assim como as escolhas pouco simpáticas do diretor em relação à montagem e ao que entraria ou não no corte final.

O espectador tende a sair chocado da sessão de Uma Vida Comum. O filme é uma reflexão sobre algo que normalmente nos assusta muito, a possibilidade de jamais sermos lembrados após a nossa morte e a cruel dúvida sobre o que estamos fazendo de notável e duradouro em nossas vidas. Será que conseguimos aliar uma existência de auto-prazer com algo que possa nos garantir um lugar no mundo mesmo quando não estivermos mais nele?

Uma Vida Comum (Still Life) – Reino Unido, Itália, 2013
Direção: Uberto Pasolini
Roteiro: Uberto Pasolini
Elenco: Eddie Marsan, Joanne Froggatt, Karen Drury, Andrew Buchan, Neil D’Souza, David Shaw Parker, Michael Elkin, Ciaran McIntyre, Tim Potter, Paul Anderson, Bronson Webb
Duração: 88 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.