Crítica | Uma Volta pela Gália com Asterix

estrelas 3,5

O quinto álbum das aventuras de Asterix foi inspirado na famosa competição de bicicleta Tour de France, que literalmente circunda o país anualmente desde 1903 (com exceção dos anos de guerra, claro). Na história, que não tem bicicletas, mas é cheia de carroças, bigas, barcos e viagens a pé, Asterix e Obelix têm que dar a volta na Gália, adquirindo comidas ou bebidas características de cada cidade, para ganhar uma aposta feita com o Inspetor Geral Lucius Flordelotus que não se conforma com a derrota da guarnição de Petibonum pelos irredutíveis gauleses e cerca a aldeia com uma paliçada, de forma que, com o tempo, eles sejam esquecidos.

A aposta é simples: se Asterix e Obelix forem bem sucedidos na empreitada, Flordelotus não só será convidado para um banquete na aldeia com as iguarias trazidas pelos dois, como também terá que derrubar a paliçada e reconhecer sua derrota para Júlio César. Não há dúvidas sobre quem ganha essa brincadeira, não é mesmo? Afinal, nosso heróis têm a ajudinha da incrível poção mágica do druida Panoramix, na qual Obelix, quando criança, quase se afogou, dando força eterna para ele.

Mas o que vale é o divertimento de ver Goscinny fazer seus heróis circundarem a Gália, começando em Rotomagus (Rouen) e acabando em Burdigala (Bordeaux), com uma passadinha final em Gesocribatum (Le Conquet). Cada lugar é tratado com a caneta zombeteira do autor, que pinça as características principais de seus habitantes e, claro, os produtos mais característicos de cada cidade, misturando, de maneira muito uniforme, passado e presente. Uma dessas misturas geniais é a estrada que leva nossos heróis de Lugdunum (Lyon) para Nicae (Nice), que é tomada de carroças e outros veículos semelhantes em um trânsito infernal, já que é período de férias e todos querem se divertir na praia da Riviera Gaulesa. Também no lado do trânsito caótico dos tempos modernos, vemos Lutécia (Paris) completamente tomada de “carros” e um jocoso comentário sobre os diminutos carros europeus, com uma carroça mínima puxada por um pônei.

asterix 5 capaHá muito mais coisas para se apreciar em Uma Volta pela Gália com Asterix, pois Goscinny não só faz uma crítica divertida a seus compatriotas, como, ao longo do trajeto, nos ensina muita coisa. O leitor será brindado com frases em latim, nomes de cidades, os petiscos de cada local, os hábitos dos habitantes, além de uma história cheia de pancadaria (coitados dos romanos!) e que, pela primeira vez, brinca do começo ao fim com o fato de Obelix não aceitar ser chamado de gordo, elemento narrativo que, a partir desse volume, seria usado muitas vezes depois. E não há como esquecermos de Ideiafix, que aparece na porta da loja de salsichas em Lutécia (Paris) e passa a seguir Obelix por todo o resto da viagem sem ele nem perceber. O simpático cachorrinho, porém, permaneceria sem nome até o número seguinte, quando ele começaria a fazer parte constante do elenco, apesar de Goscinny ter estabelecido, com regra própria, que ele não usaria animais de estimação.

Mas esse álbum não é sem problemas. Há uma questão primária, que é muita informação, muitas situações condensadas em uma narrativa de menos de 50 páginas, que é o tamanho padrão total dos álbuns de Asterix. São cidades demais (12 ao total, como o leitor pode ver abaixo), com situações demais que acabam se repetindo, como a traição de gauleses gananciosos, a confusão de diversas guarnições romanas e as comilanças de Obelix. Não é ruim. Longe disso, mas a progressão da obra perde o frescor lá pela metade, com diversos momentos em que determinadas cidades só aparecem por não mais do que meia página. Teria sido melhor para o encadeamento das ideias se Goscinny tivesse reduzido o número de cidades, expandindo a narrativa em cada uma delas, com mais tempo para o leitor respirar.

A arte de Uderzo se mostra perfeitamente adaptada ao frenesi da história. Ele consegue, com seus belos e característicos traços, situar o leitor em cada cidade sem esforço. Além disso, apesar de os habitantes serem todos gauleses, conseguimos diferenciá-los e apreciá-los com clareza. Mas, em razão do roteiro, Uderzo tem pouco tempo para trabalhar os detalhes, sendo forçado a pular de cidade a cada duas páginas, quando não antes.

Uma Volta pela Gália com Asterix é outra diversão garantida, mas deixa a desejar se compararmos esse álbum com os imediatamente anteriores.

Curiosidades:

– O título em francês, Le Tour de Gaule, não deixa dúvidas sobre a inspiração para a história: o Tour de France, competição ciclística tradicionalíssima no país, que ocorre anualmente desde 1903, com exceção dos anos das guerras.

– Os estereótipos de cada região francesa estão presentes, como a incapacidade dos habitantes da região norte (Rotomangus – Rouen) em dar uma resposta direta a qualquer pergunta; o êxodo dos habitantes da Lutécia (Paris) para Nicae (Nice) durante o verão, causando trânsito na estrada; os habitantes de Massília (Marselha) são esquentados e exagerados e outros.

– Em determinado momento, quando Asterix e Obelix se escondem em uma carroça do correio, o cocheiro/carteiro menciona “o caso do correio de Lugdunum (Lyon)”. Trata-se de um caso verdadeiro, ocorrido em 1796, em que um inocente foi condenado pelo assassinato do carteiro e pelo roubo da correspondência.

– Para se achar na ruelas de Lugdunum (Lyon), o prefeito Soutodouvidus usa pedrinhas e Goscinny diz que “no futuro, outro autor usaria o mesmo expediente em suas histórias”, referindo-se, claro, à história de João e Maria, dos irmãos Grimm.

– Em Massília (Marselha), Goscinny e Uderzo se divertem com os personagens da taverna, homenageando os filmes Marius (1931), Fanny (1932) e César (1936), os dois primeiros baseados em peças homônimas de Marcel Pagnol e o terceiro escrito e dirigido por Pagnol, todos se passando na cidade.

– Duas frases em latim são ditas. A primeira por um dos legionários romanos que constrói a paliçada ao redor da aldeia de Asterix: Exegi monumentum aere perennius. Trata-se de frase de Horácio, poeta romano, cuja tradução livre seria “Erigi um monumento que dura mais do que bronze”. A segunda frase é dita por um dos piratas, depois que Asterix e Obelix afundam seu navio: Victrix causa diis placuit, sed victa catoni. Trata-se de frase de Marcus Annaeus Lucanus, outro poeta romano, na obra Pharsalia, cuja tradução livre pode ser: “A causa vitoriosa foi agradável aos deuses, mas a causa perdida foi agradável a Cato”. Cato é o mártir da história de Lucanus.

– Esse volume conta com a primeira aparição de Ideiafix, o cachorrinho branco de Obelix que, porém, não é nomeado até o próximo volume, quando se torna personagem das histórias, apesar da relutância de Goscinny em usar animais de estimação.

– Esse volume estabelece, pela primeira vez, a piada constante com a gordura de Obelix, que o deixa muito irritado.

– Esse volume marca a única vez em que o mesmo centurião romano aparece em duas histórias diferentes de Asterix. Trata-se de Gracus Stafermus. No entanto, nas mais diversas traduções, inclusive na brasileira, os nomes são diferentes. Em Asterix Gladiador, o centurião de Petibonum é Gracus Strupicius. Reparem que, no volume anterior, o prefeito das Gálias é Calígula Stafermus, o que casa com a informação acima.

Locais:

– Aldeia de Asteix.

– Acampamento fortificado romano de Petibonum.

– Rotomagus, hoje Rouen, na Normandia. Nenhum habitante responde afirmativa ou negativamente a nenhuma pergunta.

– Lutécia (Paris). O verdadeiro início do Tour da Gália. Iguaria: presunto.

– Camaracum, hoje Cambrai. Iguaria: “Mentiras”, tradução do álbum para bêtises de Cambrai, que é um doce fervido muito característico no sabor original de menta. Bêtise, em francês, significa “erro” ou “besteira”, daí a tradução para “mentira”.

–  Durocortorum (Reims). Iguaria: vinho. Na verdade, apesar de não haver menção expressa, trata-se de Champagne.

–  Divodurum (Metz). Não faz parte do Tour da Gália.

– Lugdunum (Lyon). Iguarias: salame e empadas. Na verdade, não são empadas como as conhecemos aqui, mas sim quenelles, prato que mistura peixe ou carne com migalhas de pão e empanado com ovos.

– Nicae (Nice). A famosa Promenade des Anglais ganha o nome de Passeio dos Bretões (os “ingleses” não existiam naquela época. Iguaria: salada. Apesar de não haver qualificação, essa “salada” é a Salada Niçoise, com tomates, atum, ovos cozidos, azeitonas e achovas, com molho vinagrete.

– Massília (Marselha). Iguaria: bouillabaisse (um cozido de peixe muito famoso da região).

– Tolosa (Toulouse). Iguaria: salsichas.

– Aginum (Agen). Iguaria: ameixas.

– Burdigala (Bordeaux). Iguaria: vinho branco e ostras. Essa é a última cidade do Tour da Gália.

– Gesocribate (Le Conquet): Por necessidade, a dupla tem que passar por Gesocribate (Gesocribatum), cidade portuária da antiga Armórica (depois Aquitânia), hoje a região da Bretanha.

Personagens (além de Asterix e Obelix):

– Centurião Gracus Stafermus, comandante de Petibonum.

– Inspetor Geral Lucius Flordelotus, enviado de Roma para lidar com os gauleses.

– Abracurcix, chefe da aldeia gaulesa.

– Panoramix, druida da aldeia gaulesa.

– Flávia e Saldefrutus, casal romano em cruzeiro pelo Sena para comemorar aniversário de casamento.

– Ideiafix, cachorrinho que seria de Obelix, mas que aparece sem nome ainda aqui e somente seguindo a dupla gaulesa.

– Quintilus, centurião romano.

– Petilarrus e Meilaus, legionários romanos.

– Dessemedix, gaulês traidor morador de uma cabana na floresta.

– Soutodouvidus, prefeito romano de Lugdunum.

– Mudaodix, gaulês de Lugdunum.

– César Beladecadix, gaulês da resistência.

– Dormedebrux, prefeito de Tolosa.

– Odalix, outro gaulês traidor que dá sonífero para Obelix.

– Radius e Cubitus, dupla de ladrões romanos que roubam a sacola de iguarias de Asterix e Obelix.

– General Motus, general romano.

– Erix, jovem pirata.

– Capitão Cabeçudix, capitão do navio que leva a dupla até Gesocribate.

Asterix Gladiador (Le Tour de Gaule, França/Bélgica – 1965)
Roteiro: René Goscinny
Arte: Albert Uderzo
Editora original: Pilote (serializada em 1963 e lançada em formato encadernado em 1965)
Editoras no Brasil: Record (em formato encadernado)
Páginas: 50

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.