Crítica | Unbreakable Kimmy Schmidt – 1ª Temporada

Seja no cinema, na TV ou nas artes em geral, não faltam exemplos de um tipo específico de humor: o chamado “humor negro”. Tais exemplos comprovam a tênue linha existente entre a comédia e a tragédia.

É por essa linha que a primeira temporada de Unbreakable Kimmy Schmidt, originalmente gravada para a NBC, mas adquirida pela Netflix, com treze episódios, inicia sua trajetória, e à qual, eventualmente, retorna, embora acabe se mantendo muito mais no lado menos ácido da trilha e, por isso, ficando aquém do seu potencial.

Criada por Tina Fey (30 Rock), a série é centrada na Kimmy do título (Ellie Kemper), com a premissa de sua história inspirada em um caso real de sequestro de meninas, no Cleveland, mantidas em cativeiro por dez anos e libertadas em 2013. Na série, é o que se passa com Kimmy, a trama tendo início com sua libertação pela polícia, nos dias atuais, depois de anos isolada do mundo, com outras três meninas, por um reverendo que afirmara, na ocasião do sequestro, estar salvando-as do apocalipse.

Livres, enquanto as demais meninas resolvem retomar suas vidas na pequena Cleveland, porém, Kimmy decide partir para grande Nova Iorque, buscando um novo começo e novas oportunidades. Acaba dividindo uma moradia alugada com o carismático Titus Andromedon (Tituss Burgess), que deseja chegar à Broadway a qualquer custo, e consegue um emprego como doméstica na mansão da ricaça e fútil Jackeline (Jane Krakowski). Cabe a Kimmy, então, com essas e outras figuras novas em sua vida, adaptar-se às mudanças do mundo e se redescobrir, com uma vida, pode-se dizer, totalmente desconhecida para ela, já aos trinta e poucos anos de idade.

Parece dramático? Engano o seu, pelo menos, nem de longe tanto quanto parece. Sim, é verdade que, desde o começo, o programa menciona frequentemente o período de cativeiro de Kimmy, inclusive, com flashbacks rápidos, mas o faz com sutileza precisa em meio ao humor, no que consiste a melhor demonstração do show do referido humor negro – sem ter, para isso, de recorrer minimamente à violência. De certa forma, como boa sutileza, a leveza com que a série deixa implícitos os horrores pelos quais Kimmy e as colegas devem ter passado, como quando a personagem aconselha Jackeline a viver dez segundos de cada vez ou a saltar no lugar enquanto afirma não estar onde está, pode representar, ao menos para um espectador experiente, horror muito maior do que se a série visasse um dramatismo mais explícito nesse sentido.

Tal sacada, contudo, é o que de melhor se pode extrair, pelo menos, dos três primeiros episódios, que, com um certo desconto para o episódio piloto, apresentam excesso de piadas pastelão e um didatismo, também, excessivo, além de configurarem, mais uma vez, o já batido estereótipo do gay escandaloso e sensível – figura que, feliz ou infelizmente, considerando os benefícios que uma representação mais criativa para o personagem poderia conferir à série, é deixada, cada vez mais, em segundo plano nos episódios seguintes.

De fato, a partir do quarto episódio, o programa sofre uma considerável melhora, parecendo encontrar seu tom, claramente configurando uma mudança no veio criativo da produção. Embora permaneça sofrendo com um eventual didatismo desnecessário, como quando se estraga uma ótima piada por explicar sua graça depois de contá-la, e com conflitos que assumem um caráter mais indireto e, por vezes, até difícil de relacionar com a premissa do drama da personagem – como se a proposta da série se perdesse ligeiramente -, críticas à sociedade contemporânea passam a ser feitas com maior inteligência, criatividade e profundidade – sendo a mais icônica delas o genial diálogo influenciado por um game virtual, numa crítica às relações artificiais.

Com o arco do reverendo sendo retomado ao final da temporada, demasiadamente estendido em três episódios, tendo-se em vista o conteúdo por ele apresentado, o resultado é uma primeira temporada com altos e baixos, que garante momentos de diversão leve, mais ou menos pretensiosos. Tendo-se em vista, porém, a maior liberdade criativa que se observa por parte da Netflix em relação a outros canais e com a segunda temporada produzida, desde o começo, para a emissora, resta saber se a série faz melhor proveito do potencial que apresenta em seu segundo ano.

Unbreakable Kimmy Schmidt – 1ª Temporada — EUA, 2015
Showrunners: Robert Carlock, Tina Fey
Direção: Tristram Shapeero, Michael Engler, Beth McCarthy-Miller, Linda Mendoza, Jeff Richmond, Ken Whittingham, Todd Holland, Nicole Holofcener, Steve Buscemi, Maggie Carey, Robert Carlock, Shawn Levy, John Riggi, Claire Scanlon
Roteiro: Robert Carlock, Tina Fey, Sam Means, Jack Burditt, Dan Rubin, Allison Silverman, Emily Altman, Azie Mira Dungey, Meredith Scardino, Dylan Morgan, Josh Siegal, Lauren Gurganous, Lon Zimmet, Leila Strachan
Elenco: Ellie Kemper, Tituss Burgess, Carol Kane, Jane Krakowski, Sara Chase, Sol Miranda, Lauren Adams, Ki Hong Lee, Mike Carlsen, Tanner Flood

Duração: 390 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.