Crítica | Uncharted 3: Drake’s Deception

estrelas 5,0

A tarefa de superar Uncharted 2: Among Thieves era um desafio e tanto para Naughty Dog, ainda mais com o diretor Neil Druckmann saindo da produção para escrever e desenvolver The Last Of Us. Se o terceiro game da série mais marcante do Playstation 3 e que entrou par ao rol de elite de jogos consegue cumprir com o prometido, caberá a cada fã dizer. Mas é impossível deixar de afirmar que Uncharted 3: Drake’s Deception é uma obra espetacular.

O primeiro fato a ser notado é uma leve mudança de tom nos cenários da aventura. Ainda que haja templos, mansões antigas e florestas como pano de fundo, aspectos quase que obrigatórios como é a jogabilidade baseada em tiros, puzzles e escaladas, Uncharted 3 traz um background muito mais arenoso e até místico no enredo baseado na Atlântida das areias. Evidentemente que se trata de algo pontual: temos, afinal, uma lindíssima e eufórica sequência envolvendo um navio em alto mar se opondo ao simples andar desesperançoso do protagonista em outra hora. O fato é que, visualmente, Drake’s Deception consegue marcar presença no inconsciente gamer com uma estética bem definida, assim como seu antecessor conseguiu fazer em suas montanhas geladas.

Por ter um caráter minimamente mais intimista que Uncharted 2, o presente game constrói com mais calma sua narrativa e não começa com explosões ou situações extremas, preferindo apresentar um Drake criança em seu primeiro contato com Sullivan. Ter esse momento contemplativo logo em seu início acaba sendo uma ótima forma para quebrar uma expectativa dos fãs e criar, ao mesmo tempo, um norte para o novo jogo. É sempre bom lembrar, todavia, que a série Uncharted em si não tem pretensão de jogar com uma carga dramática pesada, nem analisar seus personagens de ângulos muito sombrios. Trata-se do Indiana Jones dos games, afinal de contas.

Com gráficos e possibilidades de stealth aprimoradas, mesmo que o segundo game fosse praticamente perfeito nesses e em muitos outros aspectos, Uncharted 3 aproveita também para se aprofundar na história, trazendo flashes no passado e antagonistas mais realistas e interessantes. O ônus deste foco é a ausência de uma dinâmica de grupo tão aflorada como no segundo jogo, já que a investigação aqui é na relação de Drake e Sully, algo que, pessoalmente, prefiro.

uncharted3

Há ainda menos quebra-cabeças do que em Uncharted 2, que já havia diminuído a quantidade em comparação com o primeiro. Honestamente, acho outro acerto. Por mais que sejam necessários, até para admiração do trabalho de level design, gráficos e ambientação da desenvolvedora, recorrentemente acabam tirando o foco de um jogo que é em sua essência de ação e aventura. God Of War, da Santa Monica Studios, continua um pouco desequilibrado nesta mistura, principalmente para um replay. Uncharted me parece mais limpo e convicto de que tiros e adrenalina é que dão o alicerce para a série.

É nesse sentido que algumas novidades foram muito bem-vindas em termos de jogabilidade. Atirar uma granada de volta e um polimento no melee dão ainda mais imersão ao jogo. Também é impossível falar de imersão sem ressaltar o detalhismo presente em cada capítulo, as atuações dos atores, com destaque novamente para Nolan North, um dos melhores no ramo certamente, ainda que eu prefira seu papel em The Last Of Us, e a trilha sonora, com destaque para Atlantis of the Sands. Ainda que não seja memorável em sua totalidade, certamente parece retirada de um blockbuster épico e emprestada do magnífico Maurice Jarre, compositor da trilha de Lawrence da Arábia.

Alguns problemas saltam mais aos olhos, todavia. Muitas cutscenes – ainda que sejam um deleite pela cinematografia emprestada – ajudam a tornar o game relativamente mais fácil. Outro exemplo disso é o próprio boss final, incomparável com o de Among Thieves que fez nosso Ritter Fan suar a camisa. Nada, porém, que prejudique a experiência em geral, dados os belíssimos acertos que a Naughty Dog faz.

Longe de ser qualquer retrocesso, Uncharted 3 também não representa um enorme o avanço. E pessoalmente, essa exigência por algo cada vez mais grandioso, uma revolução nas mecânicas a cada título ou uma dinâmica distinta já encheu o saco, muito por ser, na imensa maioria das vezes, irrefletida. Se o que se quer é mais realismo e mais profundidade em um gameplay semelhante, The Last Of Us chegou logo depois. Uncharted propõe um tipo de game e é o suprassumo que a indústria conseguiu chegar neste gênero, com adições e melhorias a cada número novo.

Para sair de cima do muro, Uncharted 2, em seu todo, é mais jogo do que Uncharted 3. Pessoalmente, prefiro os momentos silenciosos que o terceiro game se preocupa em criar, algo que falta em seu antecessor. Por outro lado, o impacto do segundo game e a euforia de determinados momentos se tornaram inesquecíveis. Por mais que se repitam ou tragam novidades estéticas e mecânicas no novo game, a sensação de vivenciar uma aventura fresca dificilmente é repetida. O que não configura, de modo algum, qualquer demérito. Uncharted 3: Drake’s Deception é, em suma, um jogo obrigatório para entender o que o vídeo game se tornou em todos os seus termos.

Uncharted 3: Drake’s Deception
Desenvolvedor: Naughty Dog
Lançamento: 3 de novembro de 2011
Gênero: Ação, Aventura
Disponível para: Ps3 e Ps4

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.