Crítica | Under the Dome – 1ª Temporada

estrelas 1

Se tem uma coisa que eu não tolero é burrice. Mas daquele tipo de burrice repetida várias vezes, por mais que a questão já tenha sido explicada diversas vezes para a pessoa. Não estou dizendo que não faço burrices – claro que faço! – apenas que aprendo com elas e me adapto. Minha mais recente burrice foi insistir em assistir a primeira temporada de Under the Dome, talvez a série mais completamente burra que eu tenha visto em todos esses anos de indústria vital.

E não, não li o livro de Stephen King em que a série foi baseada. Portanto, não adianta virem me pedir comparações ou comentarem que eu achei a temporada burra justamente por não saber do “plano maior” da redoma criada pela mente do prolífico escritor americano de horror. A série tem que viver independente da obra original e prender o espectador assim e não somente porque é algo baseado em obra de King ou de qualquer outro autor.

É até difícil criticar a temporada com clareza, tamanha é minha estupefação com ela agora que acabei o 13º e último episódio da 1ª temporada. Detectei problemas estruturais e de lógica interna desde os primeiros dez minutos do primeiro episódio, mas não desisti e fui dando todas as chances possíveis a Neal Baer, o showrunner da série, que foi desenvolvida pelo excelente Brian K. Vaughan (autor dos brilhantes Os Leões de Bagdá e Saga) e que conta com ele, Stephen King e até Steven Spielberg como produtores executivos. Um grande time, sem dúvidas, o que só aumenta meu estarrecimento com o resultado final.

O mistério é sem dúvida interessante: Chester’s Mill, uma cidadezinha no interior americano, de uma hora para a outra, é cercada por uma redoma invisível e inquebrantável que corta toda e qualquer comunicação com o mundo exterior. Sozinha, a população, liderada pelo ambicioso vereador James “Big Jim” Rennie (Dean Norris, o Hank de Breaking Bad) tem que enfrentar diversas crises e tentar entender o que aconteceu ali.  É puro Stephen King, usando uma nova maneira de apresentar a batida, mas sempre cativante premissa de situações-limite em que um grupo de pessoas têm que enfrentar. E, também no melhor estilo King de ser, o mistério é muito mais profundo e complicado do que seu valor de face, com a redoma tentando se comunicar com determinados habitantes de Chester’s Mill.

Mas não é o mistério que derruba a temporada e sim a maneira canhestra como o roteiro desenvolve a história e, principalmente, trabalha seus personagens. Para começar, a estrutura é de “caso da semana”, algo que simplesmente não combina com uma narrativa desse tipo. São apenas 13 episódios e todos eles poderiam contar uma história só, sem que seu ritmo fosse ditado por problemas enfrentados pela cidade. Temos um episódio inteiro dedicado a um surto de meningite, outro lidando com saques, outro com um ataque dos militares do lado de fora da redoma, outro com a água da cidade e assim por diante. E pior, as soluções do roteiro para cada problema variam entre um deus ex machina qualquer vindo da misteriosa redoma ou a morte de alguém. Aliás, acho que não vi um episódio sequer em que alguém não tenha morrido e sempre de maneira suspeita e óbvia, que afasta qualquer tipo de veracidade à trama.

Aliás veracidade é um problema sério em relação aos personagens lá presentes. São todos muito burros. Sim, burros. Uma redoma misteriosa cercou a cidade e basicamente ninguém se preocupa em conservar água, luz e medicamentos. Os restaurantes continuam abertos. Todas as luzes estão sempre ligadas (há muito propano na cidade para alimentar os geradores em uma dolorosamente conveniente sub-trama) e, aparentemente, ninguém precisa de remédios a não ser em momentos específicos, ditados pelo roteiro como sendo “um episódio de falta de remédio”. Big Jim, que logo se revela o grande vilão da trama, é retratado da maneira mais rasa e unidimensional possível e esse aspecto só vai piorando na medida em que a história progride, com direito a dezenas de closes constantes em seu rosto com expressões maquiavélicas em clara demonstração que Neal Baer acha que seu público é burro e precisa de constantes lembretes sobre a personalidade de Big Jim.

Mas a coisa não para por aí. O “herói” da história é um ex-soldado que tornou cobrador de dívidas chamado Barbie (sim, Barbie!). Vivido por Mike Vogel, ele tem a mesma exata aparência de Stephen Amell em Arrow: barba por fazer, cabelo curto, expressão vazia e olhar de cachorro perdido. Sua função na história é tentar mostrar que o roteiro é esperto, criando dubiedade sobre sua personalidade, mas essa dubiedade simplesmente não existe. Ele está lá para ser o salvador, aquele que, sempre, no último minuto, salva quem está perigo, sacrificando-se no processo. Só faltaram o capuz verde e o arco…

E o mesmo vale para Julia Shumway (a bela Rachelle Lefevre), mulher apaixonada pelo marido sumido, mas que logo logo o descarta em favor de algo mais palpável e próximo como, claro, Barbie e os três jovens que são também foco da trama: os irmãos Joe e Angie McAllister (Colin Ford e Britt Robertson, respectivamente) e a rebelde Norrie (Mackenzie Lintz) filha de um casal multi-racial de lésbicas que, aparentemente só está lá para, hipocritamente, cumprir algum tipo de cota da produção, que mata dois coelhos com uma cajadada só.

No entanto, a cereja no bolo é mesmo James “Junior” Rennie, o jovem filho de Big Jim, apaixonado por Angie e que, logo nos primeiros minutos de série, já se revela como um psicopata. No entanto, como todo mundo ao seu redor é, aparentemente, aparvalhado, ninguém percebe sua loucura e ele não só é empossado como policial por Linda Esquivel (Natalie Martinez) que concorre ao prêmio de personagem mais burra de todas as séries que vi em minha vida (apesar de ter uma irresistível voz sexy), como troca de lado como quem troca de roupa e todo mundo acha isso mais do que normal.

O roteiro, que basicamente faz uso constante de diálogos do tipo

Personagem 1: – Infelizmente ele levou o segredo para o túmulo.

Personagem 2: – Eu me lembro tão bem dele, sempre com seu inseparável chapéu.

(foco no chapéu)

Personagem 2 (pegando chapéu e achando um pen drive lá dentro): Olha só o que eu achei aqui!

é uma colcha de retalhos mal costurada, que se baseia em reversões constantes – e absolutamente improváveis – de papéis, inserções de personagens novos mesmo considerando que eles estão dentro de uma redoma que não deixa ninguém entrar (!!!) e de um mistério (a redoma em si) que, se é interessante, desaba sob o peso de momentos seguidos tão mal escritos que não dá nem para acreditar como a produtora realmente deu luz verde para a produção.

Under the Dome, pelo menos em sua primeira temporada, é o exemplo clássico de como não se fazer um roteiro. É o ponto alto (ou baixo) da burrice em séries de televisão. Nem novelas da Globo devem ser assim…

Under the Dome – 1ª Temporada (Under the Dome – Season 1, EUA – 2013)
Showrunner: Neal Baer
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: Mike Vogel, Rachelle Lefevre, Dean Norris, Alexander Koch, Colin Ford, Britt Robertson, Natalie Martinez, Nicholas Strong, Mackenzie Lintz, Aisha Hinds, Jolene Purdy, Eddie Cahill, Karla Crome, Samantha Mathis, Natalie Zea
Duração: 43 min. (por episódio – 13 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.