Crítica | Unicórnio (2017)

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Há algo mais obsessivo entre as tendências do cinema brasileiro pós-retomada que o “saber filmar”? Não digo que necessariamente seja um aspecto negativo saber fotografar, projetar o som ou editar, pelo contrário, mas essa busca compulsiva pela excelência técnica que na verdade acaba por cegar a visão artística de um cineasta, arruinando a premissa de seus filmes, isso quando há alguma. Foi quando não tínhamos o primor técnico dos americanos que surgiram nossos grandes cineastas — Glauber, Sganzerla, Reichenbach — agora não há desculpa, os recursos são vistos como o fim de um filme quando na verdade são apenas os meios. Não há motivação, sabe-se como filmar mas não o que filmar.

Eduardo Nunes, diretor de Unicórnio, faz parte deste grupo de cineastas cuja missão é enfeitar a tripa narrativa que escolhem para transformar um trabalho vago numa suposta obra de arte. A sinopse do filme é difícil de ser formulada justamente porque não há o que ser dito, é uma história com orgulho de ser enigmática e confusa, com propósito de rebaixar o espectador que não conseguir acompanhá-la.

A adaptação livre de contos da poetisa Hilda Hilst até poderia ter tido sucesso nas telas de cinema caso sua obra não fosse sufocada pela prepotência artística do diretor, que dá mais valor à sua estética já saturada, de cores fortes, scope aberto, ideias interessantes, mas que foram implementadas num trabalho ‘infantil’, despropositado. Sua mise-en-scène baseada na dualidade entre o confinamento das paredes brancas e a liberdade dos campos, as duas principais locações do filme, no final resulta no mesmo efeito de isolamento e claustrofobia justamente por ser um trabalho tão asfixiado pelas necessidades artísticas do autor.

Não há qualquer problema em tornar-se evidente como artesão a partir de características que ficam evidentes ao longo de seu filme ou obra, mas aqui as tentações do diretor correm opostas ao fluxo narrativo e criam um filme misterioso pela sua bagunça, um caos montado de maneira desordenada para que o público, no fim da sessão, culpasse não ao trabalho da produção mas a si mesmos por não entenderem ou não degustarem o filme de Eduardo Nunes. Por mais que haja um primor técnico envolvido no longa, não vejo boas intenções e espero que entre na cabeça dos novos cineastas que eles precisam de algo para filmar antes de ligar as câmeras.

Unicórnio – Brasil, 2017
Direção: Eduardo Nunes
Roteiro: Eduardo Nunes
Elenco: Patricia Pillar, Bárbara Luz, Zé Carlos Machado, Lee Taylor
Duração: 123 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.