Crítica | Unravel

estrelas 3,5

Unravel é mais um desses games de plataforma com espírito indie que roubou a cena em convenções blockbusters com criatividade e originalidade. A ideia de um boneco de lã ditar a narrativa, se pendurando como o Homem Aranha em um cenário lindíssimo formado por maçãs, latas de refrigerantes, flores, pipas e bancos à beira da praia, é elogiável e se efetiva na prática. Mas há outros problemas que não transformam o potencial de Unravel em realidade.

Yarny, protagonista feito de lã vermelha, é um mascote amável e memorável. Sua tarefa é visitar as memórias da senhora dona de uma casa cheia de retratos de sua família. Cada foto é uma das doze fases do game, que toma pouco mais de cinco horas, dependendo da familiaridade do jogador com o gênero puzzle. O primeiro problema de Unravel é este: o quebra-cabeça do game não se complica e é quase impossível morrer.

A mecânica marcante do jogo se apoia na física da lã utilizada por Yarny, seja para escalar, seja para fazer espécies de pula-pula ou para arrastar objetos. É genial e funciona muito bem, mas a sensação que se passa após metade da jornada é que faltou criatividade para elaborar desafios cada vez maiores com esse tipo de novidade, um pouco como o louvável Portal fez.

unravel

A segunda crítica, e a que mais me tirou do espírito benevolente que eu encarei Unravel desde o início, é sua narrativa rasa. Não me venha dizer que há profundidade em laçar, como Yarny, as memórias de amor na vida de uma família, representadas em filosofia baratíssima nas páginas de um livro no fim de cada fase. Do começo ao fim, o game é previsível e bonitinho demais, mesmo em momentos mais escuros. Confesso que achei acertada a opção por um conto sem falas. E dentro de sua proposta contemplativa, Unravel é ótimo. Mas faltam sutilezas para além do gameplay e dos cenários exuberantes, algo normalmente presente nesse tipo de game para balancear o ritmo tranquilo e o tom leve, sem desafios complexos.

Falando em cenários, a ambientação do jogo é fantástica. Consegui passar por Flower, Spate, Journey e até Toy Story – aquele para Super Nintendo – em um intervalo de três fases, com cenários naturais tão bem realizados que é quase possível sentir o aroma do ambiente. Gráficos sensacionais e sonoplastia incrível ajudam muito neste aspecto. Um pequeno ouriço tossindo, um peixe mergulhando, uma lata caindo, todos detalhes imersivos eficientes, assim como a física do game, recorrentemente apoiada em galhos quebrando.

unravelneve

No mesmo sentido, não há como não se emocionar com a trilha sonora, comandada por Frida Johansson e Henrik Oja, com harmonia entre violino, violoncelo e nyckelharpa, instrumento tradicional sueco. Extremamente semelhante com a de Braid no início, o que não nenhum demérito.

Feito exatamente para se apreciar a paisagem, Unravel é um entretenimento visual cheio. Transborda de melancolia e abusa do carisma de seu protagonista, um que tem potencial para ficar no imaginário popular como Sackboy. O problema é que não traz desafios e diversão à altura de suas imagens, assim como promete um roteiro inesquecível e cumpre, apenas, em trazer mensagens de amor esgotadas e insuficientes.

Unravel
Desenvolvedor:
Coldwood Interactive
Lançamento:
9 de fevereiro de 2016
Gênero:
Plataforma/Puzzle
Disponível para: Ps4, Xbox One, PC

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.