Crítica | UnREAL – 1ª Temporada

estrelas 4,5

Pessoalmente considero reality shows o tipo “mais baixo” de TV que já inventaram. Uma mistura de voyeurismo mórbido com emburrecimento do espectador que realmente nunca fez sentido para mim, seja o tipo que for, desde os repugnantes Big Brother e The Bachelor até os mais toleráveis, mas mesmo assim patéticos The Voice e Master Chef. Por outro lado, sempre admirei muito obras que se esmeram em trazer uma visão de bastidores – romanceada ou não – sobre Cinema e Televisão, como Crepúsculo dos Deuses, Cantando na Chuva, Entourage e Extras.

Afirmações aparentemente desconexas, não? Mas elas fazem todo sentido dentro de uma crítica sobre UnREAL, série de TV de ficção da Lifetime que tem como objetivo justamente mostrar os bastidores de um reality show americano inventado para a série, praticamente uma versão de The Bachelor chamada Everlasting. Criada por Marti Noxon (que começou sua carreira na TV com Buffy: a Caça-Vampiros) e Sarah Gertrude Shapiro (que, não coincidentemente, produziu The Bachelor por nove temporadas), a série, de apenas 10 episódios, deixa muito clara a irrealidade dos chamados non-scripted shows ou “shows sem roteiro” que inundaram a televisão mundial mais veementemente a partir do final dos anos 90. Claro que o que vemos desenrolar em UnREAL é uma versão ficcional da realidade, mas não tenho dúvidas que muito do que foi retratado ali acontece de verdade no caótico dia-a-dia de uma produção dessas, especialmente por Shapiro ter ficado profissionalmente abalada com sua quase década em The Bachelor, que a levou a escrever e dirigir o curta Sequin Raze, que viria a dar base para UnREAL. Em outras palavras, a série é quase auto-biográfica, o que empresta um significado maior ainda a ela.

Apenas os mais inocentes dos espectadores acham que reality shows têm algum traço de realidade, mas UnREAL mostra mais do que isso, mostra a perversidade de todo o sistema por trás de uma obra cujo objetivo único é atrair mais pares de olhos para a TV e, com isso, garantir inserções publicitárias milionárias, doa a quem doer. Qualquer traço de escrúpulo ou humanidade que se espere que exista em seres humanos desaparece na figura da produtora de Everlasting, Quinn King, vivida por Constance Zimmer (que teve papel semelhante em Entourage). Comandando o show a partir dos bastidores como um general comanda seu exército, ela é brilhante, genial mesmo, mas quase completamente sem sentimentos. Só a vemos realmente cambalear em suas atitudes em duas situações. A primeira é quando Chet Wilton (Craig Bierko), o proprietário de Everlasting está presente, já que eles são amantes há anos, apesar de ele ser casado, ser completamente imaturo e viver drogado. A outra é quando sua protegida, Rachel Goldberg (Shiri Appleby), está envolvida, já que Quinn projeta nela sua própria imagem, como se estivesse vendo ela mesma no passado.

E o foco da série é mesmo em Rachel, ex-produtora de campo do reality show que é trazida de volta por Quinn mesmo após os problemas que causou ao final da temporada anterior. Inteligente, manipuladora e razoavelmente desequilibrada, a personagem é o coração de UnREAL, como se ela demarcasse o último bastião de moralidade dentro de uma estrutura apodrecida e viciada. Nós torcemos por ela na mesma medida em que consideramos muitas (ou todas, depende…) de suas ações absolutamente repugnantes e imorais, todas feitas pelo “bem maior” que é Everlasting. A atriz, egressa de diversos outros trabalhos na televisão, mas nunca com muito destaque, está impressionante aqui com uma performance que merece muito reconhecimento. Shiri Appleby nos faz acreditar em seu cansaço – físico e mental – a cada dia em que está no comando do reality show, com um sutil trabalho de maquiagem que merece láureas também. Seu jeito desleixado, seu rosto claramente esgotado que apenas reflete sua mente febril tendo que lutar contra sua própria moralidade e suas transformações repentinas em uma mulher meiga, atenciosa e preocupada – mas nem sempre sincera – faz de sua atuação algo que realmente chama a atenção, mesmo quando contracena com a sempre marcante Constance Zimmer, outra escalação muito bem pensada. Se existe um defeito na linha narrativa de Rachel é seu relacionamento com sua mãe (vivida por Mimi Kuzyk), que parece deslocado na série e usado apenas como mola propulsora de cliffhanger para a segunda temporada.

O roteiro também é inteligente ao não ser didático. Quando a temporada começa, Everlasting já existe há anos e todos os personagens dos bastidores da produção têm algum tipo de relacionamento anterior que é refletido em paixão, inveja, amizade, desencantamento e outro sentimentos, às vezes antagônicos, que vão brotando na medida da progressão da série. O espectador é jogado nesse meio e só aos poucos vai entendendo de verdade as minúcias do que está acontecendo e percebendo o quão irreal, mentiroso e destruidor é um reality show para todos os envolvidos, seja a frente ou atrás da câmeras. E a narrativa não se furta em abordar questões judiciais que volta e meia são pululam neste meio, como quem é o criador do show de verdade ou como é o envolvimento da emissora de TV que encomenda a show em toda a estrutura.

Ao desnudar a realidade dos “show de realidade”, ao mostrar o verdadeiro festival de horrores que é essa indústria, UnREAL revela-se um drama poderoso que sabe utilizar eventos muito provavelmente baseado em fatos para povoar roteiros engajantes que levam a atuações inesquecíveis da dupla principal de atrizes e de grande parte do elenco de apoio, notadamente Bierko e Freddy Stroma, que vive Adam Cromwell, o solteiro da realeza britânica cobiçado pelas candidatas de Everlasting. A série abrirá os olhos dos mais inocentes e revoltará mesmo aqueles apaixonados por televisão “sem roteiro”. E, com isso, o objetivo de UnREAL terá sido alcançado com louvor.

UnREAL – 1ª Temporada (EUA, junho a agosto de 2015)
Criação e showrunners:  Marti Noxon, Sarah Gertrude Shapiro
Direção: Peter O’Fallon, David Solomon, Uta Briesewitz, Peter Werner, Lev L. Spiro
Roteiro: Marti Noxon, Sarah Gertrude Shapiro, Elizabeth Benjamin, David Weinstein, Ariana Jackson, Alex Metcalf, Jordan Hawley,  Stacy Rukeyser
Elenco: Shiri Appleby, Constance Zimmer, Craig Bierko, Jeffrey Bowyer-Chapman, Josh Kelly, Freddie Stroma, Johanna Braddy, Aline Elasmar, Nathalie Kelley, Ashley Scott, Breeda Wool, Brennan Elliott, Amy Hill, Mimi Kuzyk
Produtora: Lifetime
Disponibilização no Brasil: canal Lifetime
Duração: 423 min. (aprox. – 10 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.