Crítica | UnREAL – 2ª Temporada

estrelas 4

  • Leiam, aqui, a crítica da temporada anterior. Só há spoilers da temporada anterior.

Recentemente, dois escândalos oriundos de reality shows fizeram manchete nos jornais e pipocaram pelas redes sociais, com comentários dos mais variados tipos, das mais variadas pessoas. Um deles foi na mais nova edição do Big Brother Brasil, onde um dos participantes agrediu uma participante. O outro foi na edição corrente de Survivor, nos EUA, em que um dos participantes revelou para o mundo um segredo confidenciado apenas a ele: que um de seus colegas de programa era transexual.

De forma alguma quero entrar no mérito das questões em si, mas apenas usar esses dois exemplos – que se somam a literalmente dezenas de outros nessa categoria de televisão ao longo das últimas duas décadas – para dizer algo com muita clareza: as pessoas parecem não ter a menor ideia sobre como funcionam reality shows. Nenhuma. Zero. Nadica de nada. E isso é, para mim, uma enorme surpresa, pois tudo o que vemos nas telinhas é tão verdadeiro, tão espontâneo, tão legítimo como as lutas livres teatrais que os mexicanos e americanos tanto gostam. Novamente, somente para ficar claro, não estou dizendo que os erros e os crimes cometidos por participantes desses programas não são verdadeiros ou que eles não devam ser punidos, mas a questão é que de realidade esses shows nada – NADA – têm e tudo que vai ao ar, vai ao ar por escolha das produtoras e emissoras e, mais ainda, tudo o que vemos é fundamentalmente fomentado por elas com o único e claro fim de alavancar suas respectivas séries que vivem de audiências infladas por escândalos, fofocas, brigas e sexo, oferecendo tudo de pior que o ser humano pode fazer.

Sim, de pior. E vou além: a culpa é nossa. Nós que assistimos é que efetivamente mostramos que é isso que queremos. Queremos ser voyeurs, viver de forma vicariante a vida dos outros, refestelar-se no sofá querendo, esperando, ansiando a desgraça alheia e rindo de tudo como sádicos protegidos pela tela da TV, com direito a dar pitacos depois por intermédios de perfis em redes sociais. E ainda temos a pachorra de culpar os participantes apenas, esquecendo-se de toda a máquina por trás e, convenientemente, de nós mesmos.

E porque raios eu comecei desopilando o fígado dessa forma? Simples. UnREAL é a série que todo mundo que assiste reality show deveria obrigatoriamente assistir. Já viram O Show de Truman, com Jim Carrey? Pois bem. Considerem esse excelente filme como a versão açucarada e de contos-de-fada de um show desses. A verdade verdadeira – aquela que abre nossos olhos, estapeia nosso rosto e nos soca no estômago – está em UnREAL, que não doura a pílula, não coloca panos quentes em nada e nos choca fortemente por desnudar algo que, como já disse, deveria ser óbvio para todo mundo.

Provavelmente algum leitor mais afoito, que não aceita o enquadramento que fiz dos reality shows (e só para ficar claro, eu acho que eles são a pior manifestação televisiva já criada, programas emburrecedores para um público passivo), perguntará porque uma obra de ficção deveria ser considerada como verdade. E há cabimento nessa pergunta, mas ela desaparece quando notamos que uma das showrunners, Sarah Gertrude Shapiro, foi a produtora de dois reality shows, o razoavelmente desconhecido High School Reunion e o famosíssimo The Bachelor, experiências essas que ela considerou as mais desagradáveis de sua carreira e que ela trouxe para UnREAL como sua forma de denúncia.

E é em The Bachelor que UnREAL é baseada. Acompanhamos os bastidores da produção de uma série praticamente idêntica intitulada Everlasting, comandada pela produtora executiva Quinn King (Constance Zimmer) que tem como segundo-em-comando a problemática Rachel Goldberg (Shiri Appleby). Na temporada anterior, o solteiro rico e cobiçado era um nobre britânico caído em desgraça e, agora, na segunda temporada, pela primeira vez na história do programa, é um negro, Darius Beck (B.J. Britt), jogador de futebol americano que precisa apagar do imaginário popular um escândalo de relações públicas que teve recentemente, além de lidar com um problema físico debilitante que ele tenta manter em escondido à sete chaves, pois pode destruir sua carreira no esporte.

O resultado é um show de horrores. Não na qualidade da temporada, que fique claro, pois, muito ao contrário, Zimmer e Appleby estão espetacularmente convincentes em seus respectivos papeis, competindo fortemente pelo comando de cada sequência em que aparecem. O show de horrores está naquilo que vemos. Não só há a exploração incessante de corpos perfeitos em diversos exemplos degradantes e verdadeiramente nojentos, que banalizam o homem, a mulher, o sexo e a diversidade, como testemunhamos a relação tóxica entre Quinn e Rachel que parecem se alimentar uma da outra em uma relação simbiótica nefasta e destruidora.

A falta de ética de Quinn contamina Rachel e praticamente todos os diversos produtores do programa, que fazem de tudo para conseguir resultados que aumentem a audiência. Até mesmo Jay (Jeffrey Bowyer-Chapman), que luta para manter sua moralidade intacta, sucumbe à estratagemas para derrubar relações e construir outras artificialmente e, no processo, ferindo de morte as concorrentes, especialmente uma jovem ativista de direitos civis que é atraída para o programa como uma forma de divulgar suas plataformas. É uma Terra de Ninguém, onde vale tudo e nada é incorreto o suficiente que não possa ser mostrado na TV, desde uma concorrente usando um biquíni com a bandeira dos Confederados na frente de Darius até traições em câmera.

Do lado dos produtores, com Quinn e Chet (dono do programa vivido por Craig Bierko, ex-amante de Quinn e que constantemente dá uma de produtor) brigando pelo controle criativo do programa, o que leva à filmagem de duas versões simultâneas, Rachel resolve passar a perna neles, procurando a emissora diretamente com suas ideias e para mostrar que é substancialmente em razão dela que Everlasting faz o sucesso que faz. Diante dessa cisma interna, a emissora decide impor um novo showrunner,  Coleman Wasserman (Michael Rady), documentarista queridinho que tenta impor alguma ordem ao programa, apesar das constantes sabotagens que tem que enfrentar e de seu interesse romântico por Rachel. O caos, portanto, impera, e isso é refletido também na frente das câmeras, com diversos problemas causados a Darius e seu produtor e amigo, que acaba expulso do set.

O ritmo de UnREAL é frenético e cansa, mas no bom sentido. É uma sucessão de coisas acontecendo com um elenco grande e diverso tanto atrás como na frente das câmeras que os showrunners merecem comenda por manter tudo coeso e lógico dentro da estrutura da série. As linhas narrativas são variadas, mas sempre convergentes, de forma que até o interesse romântico de Quinn, John Booth (Ioan Gruffudd), dono da emissora de TV e genuinamente interessado por ela, passa a ser quase que como uma moeda de troca e serve para revelar até que ponto Quinn é capaz de ir pelo que considera o seu programa. A forma como ela sacrifica a vida pessoal – sua última chance de felicidade – em prol de suas maquinações chega a doer o coração, não fosse seu caráter quase psicótico que envenena a tudo e a todos.

No entanto, apesar da qualidade da série, não consigo mais ver como ela pode ser desenvolvida além do que já foi sem que sua essência seja desvirtuada. É possível detectar diversos elementos em comum nas duas temporadas já transmitidas, demonstrando que há uma repetição temática quase que necessária e inescapável. Ainda que a 2ª temporada traga realmente elementos novos, imagino que esse artifício usado sucessivamente acabe por tirar o foco da série. Mas, claro, antes mesmo da 2ª temporada iniciar, a Lifetime já havia renovado a série para uma 3ª e a constante relação de amor e ódio entre Quinn e Rachel continuará por pelo menos mais um ano. É torcer para que a série não caia na armadilha de continuar por continuar, sem trazer elementos realmente contundentes, mas sempre mantendo seus dois pés no chão.

UnREAL é uma série que precisa ser vista não só por quem assiste reality show, mas para quem tem interesse em conhecer os bastidores de uma produção televisiva. É ficção, sem dúvida, mas é tão próxima da realidade que chega a incomodar.

UnREAL – 2ª Temporada (EUA, 06 de junho a 08 de agosto de 2016)
Criação e showrunners: Marti Noxon, Sarah Gertrude Shapiro
Direção: Peter O’Fallon, Adam Kane, Janice Cooke, Shiri Appleby, Sarah Gertrude Shapiro, Nzingha Stewart
Roteiro: Marti Noxon, Sarah Gertrude Shapiro, Alex Metcalf, Stacy Rukeyser, Alex Metcalf, Janine Nabers, Alex Taub, Vince Calandra, Ariana Jackson, Carol Barbee
Elenco: Shiri Appleby, Constance Zimmer, Craig Bierko, Jeffrey Bowyer-Chapman, Josh Kelly, Michael Rady, B.J. Britt, Monica Barbaro, Denée Benton, Kim Matula, Meagan Tandy, Ioan Gruffudd
Produtora: Lifetime
Duração: 423 min. (aprox. – 10 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.