Crítica | “untitled unmastered” – Kendrick Lamar

estrelas 4,5

Vivo dizendo que o Hip-Hop é o novo Rock N’ Roll, mas mesmo assim alguns – geralmente os que não apreciam o estilo – dizem que isso é besteira. A verdade é que nenhum estilo tem sido tão ousado, inovador e relevante quanto o hip-hop nos últimos anos. E todas essas qualidades podem ser usadas para descrever um dos expoentes do gênero na atualidade: Kendrick Lamar, o rapper por trás dos elogiados good Man, m.A.A.d city e seu mais recente To Pimp A Butterfly. E eis que um ano depois de seu último – e já revolucionário – disco ser lançado, o rapper disponibiliza de surpresa um novo trabalho: untitled unmastered.

O novo trabalho deixa dúvidas da forma de como o devemos referir. Seria uma mixtape, um álbum de inéditas ou um compilado especial de “sobras” de To Pimp A Butterfly? É difícil responder essa pergunta em meio a surpresa que o disco chegou ao público, mas com certeza se trata de um pouco de cada opção. Kendrick parece ter reunido várias canções gravadas no período To Pimp A Butterfly e não usadas no álbum e então criado um trabalho como resposta ao sucesso do disco anterior. Não deve e não convém interpretar untitled unmastered com os mesmos ouvidos que escutam o resto de sua discografia já que este novo é certamente mais descompromissado.

Mas não se engane pela palavra “descompromissado”, pois a qualidade deste passa bem longe da simplicidade. O disco já chama atenção antes do play: seu título simplório (sem título, não masterizado), a cor preta desbotada como capa e as faixas sem títulos, nomeadas apenas por suas posições e datas específicas, provavelmente datas de criação. Isso sem falar, claro, sobre o disco ser discponibilizado de surpresa. É uma atitude que chama tanta atenção quanto Kanye West quando colocou nas lojas um álbum isento de capa, apenas com uma faixa vermelha.

Logo de início, em untitled 01 08.19,2014 somos jogados em rimas rápidas e inteligentes onde Kendrick proclama com fúria, desesperado, o fim dos tempos. Assim, ele consegue assumir o papel de profeta, continuando a denunciar problemas sociais que denunciou em seus discos. Em untitled 03 05.28.2013 vemos uma alegoria fantástica onde Kendrick quase abre um discurso sobre apropriação cultural (repare no ‘quase’), citando os brancos como aqueles que só sabem ver dinheiro por trás de seus raps. E, levando a história da música, onde brancos se aproveitaram de estilos inicialmente negros, – como blues, jazz e hip-hop – o debate pode ser longo. Temos o ápice de tudo na sensacional untitled 05 09.21.2014 onde Anna Wise desfila um vocal aconchegante contrapondo a um Kendrick Lamar furioso e afiado nas rimas (uma de suas melhores performances), tudo isso por cima de uma base jazzistica experimental de explodir a cabeça. Já untitled 06 06.30.2014 se destaca mais pelo aspecto melódico, tendo como base sonora uma bateria swingada estilo samba e um forte ar soul.

Próximo ao final se encontra untitled 07 2014 – 2016, dividida em três partes. Na primeira vemos um tom mais melódico, além de uma temática que complementaria How Much A Dollar Cost, um dos destaques de To Pimp A Butterfly. Na segunda vemos algo sempre interessante de ver Kendrick discutir: a indústria da música e a fama, deixando bem claro até sobre o sucesso e impacto de seus discos (“Espero que esteja evidente que inspirei centenas de MCs a fazerem melhor”). Na terceira vemos um trecho de gravações lo-fi do rapper, aparentemente se divertindo e cantando entre amigos. É o ponto mais desnecessário do disco, no entanto, parece ser uma mensagem do rapper sobre quem ele é de verdade, uma forma de conseguir o ver além de sua parte artística. Untitled 08 09.06.2014 fecha o álbum com brilhantes batidas dançantes da música negra. O rap aqui é excelente, mas está longe de ser um discurso direto típico de encerramento de álbum, como fez Mortal Man.

Um ano após sua obra-prima, Kendrick Lamar lança de maneira inesperada untitled unmastered. Pode ser considerado desde um (fantástico) presente aos fãs em agradecimento às altas vendas e elogios que o rapper alcançou, ou uma resposta deste ao turbilhão de comentários que recebeu por To Pimp A Butterfly. Como um artista que discutiu não só problemas sociais, mas até os rumos do hip-hop, Kendrick não poderia ficar sem deixar seus comentários a respeito de seu próprio impacto no ano passado. E, mais uma vez, o rapper de Compton escreve seu nome na história do hip-hop.

Aumenta!: untitled 05 09.21.2014
Diminui!:
Minha canção preferida: untitled 03 05.28.2013

untitled unmastered.
Artista: Kendrick Lamar
País: Estados Unidos
Lançamento: 4 de março de 2016
Gravadora: Aftermath, Interscope
Estilo: Hip-Hop

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.