Crítica | Up – Altas Aventuras

up altas aventuras plano critico

estrelas 5,0

Não sei se é só comigo, mas sempre que assisto a um filme da Pixar, seja pela primeira vez ou não, fico mentalmente tentando colocar em ordem meus favoritos e tenho dificuldade com os primeiros colocados. Quando, porém, vi Up – Altas Aventuras pela primeira vez, em uma pré-estreia da Disney, tive a certeza absoluta de ter visto a obra máxima da produtora quando os créditos finais começaram a subir na telona. Fui precipitado? Bem, diria que não, pois a cada nova vez que assisto Up, essa certeza fica mais sedimentada e, agora, revendo para fins da presente crítica, a sensação veio novamente com clareza absoluta.

Lógico que fazer ranking de filmes carrega forte tons subjetivos e nunca há uma resposta absoluta. Mas, para este crítico, não há sombras de dúvidas, ainda que WALL-E seja um segundo lugar muito próximo e o recente Divertida Mente bata às portas da Santíssima Trindade da Pixar. Mas como esquecer de Os Incríveis, Procurando Nemo, Toy Story, Ratatouille ou mesmo o normalmente relegado a segundo plano Vida de Inseto? É o “mal” da Pixar: a produtora chegou a um patamar tão alto de qualidade nas animações digitais que ela acabou se tornando uma verdadeira fábrica de preciosidades.Mas estamos aqui para falar de Up, não é mesmo?Lembro-me, muito claramente que, quando soube da premissa básica da então vindouro longa da Pixar, fiquei desconfiado: um velhinho que viajava dentro de sua casa erguida por balões de hélio? As informações eram tão poucas que não dava para ter certeza de nada, apenas que, como era um filme de quem era, não podia ser coisa descartável. Quando vi os trailers e mais alguns detalhes, com um cachorro falante e uma ave maluca, comecei a achar que a conta não ia “fechar”.

Mas ela fechou. E de maneira não menos do que espetacular.

Essa obra-prima começa com Carl Fredricksen criança ainda, demonstrando o quanto ele sonha em se aventurar mundo afora. Um dia, brincando na rua, ele encontra Ellie, outra criança que sonha com aventuras e, como ele logo percebe, sua cara-metade. Dali em diante, Carl e Ellie nunca mais se separam, mas, também, em razão de diversos problemas de ordem financeira, nunca conseguem seguir com as aventuras que imaginaram durante criança.

A vida de Carl com Ellie é mostrada em uma lindíssima montagem inicial que é de partir o coração e que deixará aquela lágrima pendurada nos olhos de qualquer um. Essa sequência, por si só, já vale o preço do ingresso tamanho é seu lirismo e temática surpreendentemente adulta até mesmo para um longa da Pixar. Quando ela acaba e o espectador está com os olhos embaçados de choro represado (ou soluçando desesperadamente, vai depender de cada um), o filme realmente “começa”.

Carl (voz original de Edward Asner), agora, tem 78 anos e resolve, finalmente, partir em viagem para a América do Sul, para onde Ellie sempre quis ir. Seu meio de transporte? Sua casa com milhares de balões saindo da chaminé. Carl dá uma banana para o mundo que não mais o quer e se livra do que o prendia à cidade grande. Depois de decolar, ouve uma batida na porta e, ao abrir, descobre que o escoteiro gordinho da vizinhança (Russell – voz de Jordan Nagai) está em sua varanda. Os dois, assim, partem para uma brilhante aventura nas selvas da Venezuela (sem o Chávez, claro). Lá, encontram Dug, um cão falante (Bob Peterson… esquilo!) e Kevin, uma ave multi-colorida. Contar mais é estragar a experiência cinematográfica e, mesmo passado esses anos todos do lançamento, não me atrevo a avançar mesmo avisando, pois quero que o leitor que não tenha tido a oportunidade ainda de assistir o filme, assista-o virginalmente (mas, se você não viu, PARE TUDO e corra para ver!).

Cada personagem de Up é uma aula em construção de personagens. Carl e Russel são, respectivamente, a caracterização máxima do velhinho rabugento e da criança elétrica. Mesmo que essas “reduções” sejam clichês, nas mãos hábeis de Pete Docter e Bob Peterson elas se tornam o trampolim para duas vidas separadas por muitos anos de experiência que aos poucos vão convergindo em um balé de diálogos e de pequenas revelações que é capaz de amolecer os corações mais enrijecidos. Vamos aos poucos – bem vagarosamente mesmo – conhecendo ao complementariedade de Carl e Russel e vendo talvez nossa própria vida passada e futura nesses personagens. Mas o trabalho de Docter e Peterson não pararam por aí e a dupla introduziu, ainda, Dug (voz do próprio Bob “Esquilo” Peterson), o improvável cão falante que funciona como um inesquecível alívio cômico e uma espécie de ponte entre as distantes e às vezes opostas gerações. Até mesmo o pássaro Kevin, que não fala, tem uma interação rica com Russell que, mesmo sendo o MacGuffin de Up, é construído como mais do que apenas um mero artifício narrativo. E o mesmo vale para o vilão – cuja identidade também não revelarei em prol daqueles que inacreditavelmente ainda não tenham assistido ao longa – é outro exemplo de construção narrativa, desta vez sem que sua presença física seja sequer necessária até mais ou menos a metade da projeção.

O visual é embasbacante. Lembram das paisagens devastadas da Terra em WALL-E? Lembram do meio-oeste americano em Carros? Lembram de Paris em Ratatouille? Pois é, arrisco dizer que são meros “filmes-teste” perto da textura que a Pixar alcança em Up. Das florestas luxuriantes da Venezuela até o nó da gravata de Carl, passando pelas cores berrantes de Kevin e dos balões que fazem a casa flutuar e os vivos olhinhos puxados de Russell, tudo é uma prova do esmero da produtora em sempre ultrapassar em léguas o que veio antes.

Mas existe uma qualidade em Up, diria, que o separa verdadeiramente das demais obras da Pixar. Arriscaria afirmar que este é o primeiro – e até agora único – longa da produtora com tendências surrealistas, já que só assim para efetivamente “acreditar” nos eventos improváveis que se desenrolam à nossa frente. A própria casa que flutua com balões é um exemplo disso, mas Kevin também, assim como a história pregressa do vilão e a cachorrada falante. Em determinados momentos, gosto de pensar que Luis Buñuel se sentiria em casa dando consultoria a Docter e Peterson na criação de Up.

Up – Altas Aventuras é um filme para ser reverenciado e o patamar pelo qual todas as demais animações em computação gráfica deveriam ser julgadas. Um marco da Sétima Arte!

Obs: Não costumo comentar sobre a dublagem em português, mas não poderia deixar de lembrar que o saudoso Chico Anysio dublou o personagem de Carl. É um trabalho irretocável, uma escolha perfeita e, assim como o filme, emocionante (pelo menos para nós, brasileiros).

Up – Altas Aventuras (Up, EUA – 2009)
Direção: Pete Docter, Bob Peterson
Roteiro: Pete Docter, Bob Peterson
Elenco (vozes originais): Edward Asner, Christopher Plummer, Jordan Nagai, Bob Peterson, Delroy Lindo, Jerome Ranft, John Ratzenberger, Elie Docter, Jeremy Leary
Duração: 96 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.