Crítica | Usagi Yojimbo – Livro 1: O Ronin

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estrelas 4

Originalmente publicado em revistas esparsas ao longo de pouco mais de três anos, entre 1984 e 1987, Usagi Yojimbo, quadrinhos escritos e desenhados pelo nipo-americano Stan Sakai é uma leitura agradabilíssima e enganosamente fácil, além de ser despretensiosa, mas deliciosamente desenhada. É uma grande homenagem à cultura japonesa como um todo, que respeita a história do país, especialmente a do período Edo (século XVII), marcado pela estrutura do shogunato e o código Bushido, seguido pelos samurais. Tudo feito de maneira ocidentalizada, mas com uma bela e reconfortante aura oriental.

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A primeira publicação, em 1984.

Usagi Yojimbo (ou “coelho guarda-costas” em tradução literal), nome inspirado por Yojimbo – O Guarda Costas, clássico de Akira Kurosawa e a primeira e mais evidente homenagem, conta a história do ronin Miyamoto Usagi, desenhado como um coelho com orelhas amarradas como cabelo, durante sua peregrinação, ou musha shugyo, pelo Japão, depois de perder seu mestre em batalha. Quem conhece o mínimo das histórias de samurai saberá identificar a inspiração para o personagem, a segunda grande referência usada por Sakai: o mestre Miyamoto Musashi, lendário, mas verdadeiro, ronin que também vagou pelas terras japonesas e lutou para diversos mestres e fundou o estilo Niten-ryū de luta samurai, que usava “duas espadas como uma”. Além disso, ele escreveu O Livro dos Cinco Anéis, dedicado à sua estratégia e técnicas de luta e que é um dos mais importantes tratados do gênero e até hoje estudado (é geralmente menos conhecido, mas normalmente considerado tão importante quanto o muito anterior A Arte da Guerra, de Sun Tzu).

Mas o conhecimento prévio da vida de Miyamoto Musashi, objeto de diversos filmes, séries de TV e livros, é desnecessário para a apreciação de Usagi Yojimbo, ainda que, claro, seu total aproveitamento só se dê com esse pano de fundo. Nesse primeiro volume, as histórias são bem curtas, entre 10 e 20 páginas cada uma, com algumas delas se conectando entre si e com quase todas tendo em comum a rivalidade de nosso herói com o Lorde Hikiji, o único personagem que é desenhado com feições mais humanizadas em um mundo completamente antropomórfico, com porcos, gatos, cachorros, rinocerontes e cobras falantes. Isso sem contar com algumas criaturas mitológicas e um grande número de lagartos Tokage (fictícios) populando os quadros e desenhados quase que como mini-dinossauros em variados tamanhos, a gosto do freguês.

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Nosso herói relembrando a Batalha de Adashigahara, onde perdeu seu mestre.

Ainda obviamente sem saber que seu personagem perduraria por décadas e muitos e muitos volumes (que continuam sendo escritos no momento de confecção da presente crítica), além de crossovers com outros personagens famosos como As Tartarugas Ninja, Stan Sakai não aprofunda muito a personalidade de Miyamoto Usagi. Há uma certa unidimensionalidade em suas ações e em seu pensamento, com diferenciação clara e maniqueísta entre o bem e o mal. Isso além de explicações mais detalhadas sobre expressões ou hábitos típicos da época (alguns perdurando até hoje, só que no Oriente), mas que não chegam a atrapalhar a narrativa e estão lá para fins didáticos explícitos mesmo.

Se na primeira história aprendemos o porquê de Miyamoto Usagi ser um ronin (samurai sem mestre), ao longo dos demais capítulos pouco mais aprendemos especificamente sobre ele até quando ele volta para visitar seu vilarejo e salvar os habitantes de cruéis toupeiras ninja do clã Mogura (aliás, uma ideia genial de Sakai, que ele credita a Dennis Fujitake, desenhista de obras como Elfquest). Vemos um pouco de seu passado, sua relação com Mariko, seu primeiro amor, e sua rivalidade de infância com Kenichi. Além de um pouco de seu passado, aprendemos, em outras histórias, que há um mundo maior e uma trama potencialmente bem mais complexa e perigosa envolvendo Lorde Hikiji e sua sana de poder, potencial esse que, porém, não é realizado nesse volume.

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A capa do Livro 1.

Mas talvez os melhores momentos do Livro 1 sejam os dois capítulos que ele compartilha com o caçador de recompensas Gennosuke. Vemos o nascimento de um típico bromance, só que entre samurais, com um texto divertido e leve. A interação hesitante entre os dois (Gen é um rinoceronte!) é bem balanceada e cheio de nuances, o que permite um vislumbre sobre a personalidade multifacetada do durão Miyamoto Usagi. E, claro, esperem muitas pequenas referências à cultura pop em geral (Groo está lá!) e a ícones da cultura japonesa, como ZatoichiLobo Solitário, além de brincadeiras linguísticas e gags visuais.

Os desenhos de Sakai, como mencionei logo no começo, são muito simples, mas com enorme fluidez nas sequências de luta, sem exagerar no grafismo da violência e sem deixar o sangue escorrer pelas páginas. Mas não se enganem, pois há muita violência, com muitas cabeças cortadas, muitos golpes mortais e todo o tipo de malabarismo samurai e ninja que se pode esperar de uma obra como essa, que, definitivamente, apesar de parecer, não é para crianças pequenas. Além disso, Sakai não se furta em distribuir diversos personagens em seus quadros nas sequências de luta e em restaurantes. Ele trabalha muito bem o equilíbrio dos quadros, sem, porém, recorrer a divisões mais do que padrão das páginas. Só que tudo funciona ao seu favor, inclusive a escolha de uma arte em preto-e-branco (o padrão da série, com algumas exceções) limpa, mas sem deixar os detalhes de lado.

Usagi Yojimbo agradará aos mais exigentes fãs de quadrinhos, mesmo ainda nesse estágio embrionário que vemos no primeiro volume. Trata-se de uma épica aventura com um cativante personagem que é facilmente abraçado por quem o ler.

Usagi Yojimbo – Livro 1: O Ronin (Usagi Yojimbo – Book 1: The Ronin, EUA – 1984 a 1987)
Conteúdo: 10 primeiros capítulos de Usagi Yojimbo, publicados em Albedo, Critter e Usagi Yojimbo Summer Special
Roteiro: Stan Sakai
Arte: Stan Sakai
Editora (nos EUA): Fantagraphics
Editora (no Brasi): Via Lettera (original) e Devir (atualmente)
Páginas: 148

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.