Crítica | Utopia – 2ª Temporada

estrelas 5,0

Quando o Channel 4 (Reino Unido) enfim renovou Utopia para a 2ª Temporada, muitas especulações sobre a nova fase da série se espalharam entre os fãs. O futuro de Arby, a verdadeira identidade de Milner, o que seria da vida de Grant, a inquietante dúvida se “A Rede” efetivamente havia sido derrotada, o que seria da vida de Wilson, etc. Quando os anúncios de marketing começaram, o showrunner Dennis Kelly deu uma entrevista que aumentou ainda mais a curiosidade do público. Ele disse que o primeiro episódio seria muito estranho e que iria dividir os fãs. O que eu me pergunto é: como um episódio como o 2X01 de Utopia por dividir fãs? Como uma obra-prima pode causar um sentimento além de, no mínimo, admiração?

Ninguém esperava pelo que aconteceu no início desta segunda temporada. A volta ao passado não só foi uma ideia brilhante como também teve uma execução invejável, conduzido com primazia pelo diretor Marc Munden e escrito de forma a fazer jus a toda a mitologia da série. O início de tudo, ou pelo menos migalhas dele, estava ali:

  • Documentação clara para o início de Janus;
  • Problematização para o poder político e dominação da “Rede”
  • Estabelecimento da relação entre Carvell, Jessica Hyde, Arby e Milner;
  • Identificação do Mr. Rabbit e outros ícones da “Rede”.

A construção da temporada, então, foi realizada em 5 episódios, todos escritos com precisão e dirigidos como se fossem pequenos filmes autorais com bom orçamento.

É quase inacreditável que Utopia não esteja na pauta das grandes premiações de TV. A temática da série é atual e necessária, sua composição técnica é bárbara, o roteiro consegue a proeza de colocar na tela diálogos curtos no andamento de uma trama extremamente complexa e com desdobramentos inovadores… o que falta para o reconhecimento das grandes academias? Bem, pelo menos de alguma forma o valor do show foi reconhecido… da pior maneira possível, mas foi. Em 2015, a HBO irá produzir um remake da série, cuja primeira temporada terá todos os episódios dirigidos por ninguém menos que David Fincher, que mais uma vez estabelece parceria com a escrita Gillian Flynn, que escreveu e adaptou Garota Exemplar para o cinema.

A segunda temporada de Utopia mostra uma sequência de eventos ainda mais intricados e assustadores. Vemos que alguns personagens tomaram rumos ordinários em suas vidas, mas entendemos que isso é por pouco tempo. O trabalho de 30 anos para o lançamento de Janus ainda está para acontecer, mesmo após o incêndio que barrou a execução do Plano A. O governo e as instituições são colocadas como marionetes convenientes e tudo é novamente engatado, seguindo os mais insanos atalhos.

O propósito da temporada é mostrar que, quando uma ideologia é cultivada e conquista e fascina um certo número de pessoas, ela jamais poderá morrer. Novos e novos núcleos e readaptações dela irão surgir até que se veja vitoriosa. Tome o fascismo/nazismo como exemplo. Aliás, as questões nazistas são literalmente postas em pauta no roteiro de Utopia neste ano.

Como salientei na crítica da primeira temporada, as questões discutidas na série são assustadoramente reais. O mundo passa por uma escassez crescente de recursos energéticos, minerais e alimentícios. Se você procurar fontes como agências da ONU, NASA e instituições importantes de economia ou estudos ambientais como a World Wildlife Fund (WWF), perceberá que o prognóstico para os próximos 50 anos da Terra (por volta de 2065) já é de colapsos crescentes ou “ondas de colapsos” das economias; de absurdo crescimento populacional; aumento da produção de lixo — inclusive o atômico; diminuição da oferta de água potável (e constante aumento do preço do produto); dificuldades para geração de energia, distribuição de comida (ainda mais do que hoje!), etc. Junte tudo isso e compare com as discussões dos roteiros de Dennis Kelly e Mark Aldridge em Utopia e responda: o projeto Janus e o intuito da “Rede” não são “justificáveis” dentro dos parâmetros em que se encontram?

Com ousadia para mostrar ultraviolência, levantar questões morais densas e polêmicas e com uma produção para se aplaudir de pé (a fotografia ainda é a menina dos olhos da série, um verdadeiro deleite imagético que, por si só, conta pequenas histórias), a segunda temporada de Utopia nos traz mudanças em todos os sentidos e se firma facilmente como uma das melhores realizações de 2014 para a TV.

Os papéis se invertem e o jogo ideológico é readaptado para uma realidade mais… nossa, realmente possível. O medo de uma epidemia é sugerido. A ascensão de Wilson, o aparecimento de Leah e as prisões que acontecem no final, além da nova realidade para o azarado Dugdale são pontos que criam um cliffhanger eletrizante para uma terceira temporada que provavelmente não irá acontecer, já que o Channel 4 não comunicou a renovação dentro do período hábil e a sombra de David Fincher + HBO refilmando a série é atenção demais para a versão americana. Há um movimento dos fãs na internet para salvar Utopia, mas tudo ainda é muito nebuloso. Independente de ser definitivamente cancelada ou não, Utopia já conquistou o seu lugar na história e certamente será um padrão de altíssimo nível para produções semelhantes no futuro.

Utopia – 2ª Temporada (Reino Unido, 2014)
Criador: Dennis Kelly
Direção: Marc Munden, Samuel Donovan
Roteiro: Mark Aldridge, Dennis Kelly, John Donnelly
Elenco: Adeel Akhtar, Paul Higgins, Geraldine James, Neil Maskell, Fiona O’Shaughnessy, Alexandra Roach, Nathan Stewart-Jarrett, Oliver Woollford, Michael Maloney, Ian McDiarmid, Sylvestra Le Touzel
Duração: 50 min. (cada episódio)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.