Crítica | V de Vingança (2005)

estrelas 4,5

O povo não tem que temer seu governo, o governo é que tem que temer seu povo.

As irmãs Wachowski se lançaram no cinema em grande estilo através do ótimo Matrix. Suas continuações, contudo, deixaram a desejar, muito embora sejam meus guilty pleasures preferidos. Dito isso, a credibilidade na dupla estava um tanto abalada, até atingirem sua redenção com o roteiro de V de Vingança. Aqui vale ressaltar que o filme não é dirigido pelas duas, como muita gente acaba esquecendo, e sim por James McTeigue, que já trabalhara com elas como diretor de segunda unidade na trilogia que as tornou famosas. Dito isso, não há como tirar o mérito das irmãs que conseguiram traduzir tão bem as páginas de Alan Moore para as telonas.

A trama se passa em uma Terra distópica, poucos anos no futuro, quando os EUA declinaram e a Inglaterra se ergueu soberana através de um governo totalitário com evidentes alusões ao nazismo. Nesse cenário temos a jovem Evey (Natalie Portman), que, ao sair após o toque de recolher, é emboscada por agentes do governo e acaba sendo resgatada por um homem com uma máscara de Guy Fawkes. Essa figura, conhecida apenas como V (Hugo Weaving), se revela como um revolucionário com planos para explodir o parlamento e acabar com essa era de opressão no Reino Unido.

O primeiro aspecto que merece nossa atenção em V de Vingança é a escolha do elenco. Weaving consegue efetivamente transformar V em um símbolo através de sua poderosa voz – há uma entrega do ator ao personagem, ao ponto que não conseguimos traça-lo de volta ao famoso Agente Smith, de Matrix. Mesmo por trás de uma máscara por toda a projeção, conseguimos nos relacionar com ele, sentir suas emoções mesmo sem ver seu rosto, em virtude da grande expressividade do ator. Naturalmente o trabalho de direção faz muito a favor dele, trazendo ângulos que nos fazem até esquecer que sua boca não se mexe, isso sem falar na linguagem corporal do personagem.

Portman, por sua vez, como protagonista, sofre uma verdadeira metamorfose ao longo da obra. A figura frágil e temerosa que encontramos nos primeiros trechos da projeção se transforma totalmente. Se torna uma mulher forte, sem medo, mas sem se entregar a uma frieza. Ela realmente se dedica à causa de trazer abaixo a tirania de seu país e a mudança física pela qual passa muito bem reflete seu interior. Há uma serenidade na atuação de Portman e isso acaba contribuindo para a grande química entre ela e Weaving.

Por último, mas não menos importante, John Hurt, como Adam Sutler, o alto chanceler, nos traz a perfeita figura de um ditador. Seus discursos repletos de ódio revelam toda sua instabilidade e intolerância – mesmo somente visto através de uma tela gigantesca, o ator consegue imprimir grande força ao personagem, ao passo que sentimos sua ameaça constante, mesmo que ela vá diminuindo, gradualmente, através das ações bem planejadas do homem mascarado.

Evidentemente que sem um roteiro bem trabalhado, todos esses esforços cairiam por terra e as Wachowski realmente conseguem se redimir aqui. Seu texto não permite que a narrativa pare por qualquer instante, ao inserir diferentes focos ao longo da trama, aos poucos vamos aprendendo sobre V, as falsidades do governo, dentre diversas outras questões, que apenas tornam esse cenário cada vez mais rico. Surpreendentemente, apesar de ser uma narrativa bastante complexa, jamais nos perdemos dentro dela e entendemos tudo que se passa, como em um grande quebra-cabeças, que, ao estar completo, nos traz a revelação de sua imagem completa. Somente em alguns pontos existem algumas quebras de ritmo que acabam dilatando nossa percepção da duração do longa-metragem, fruto da estrutura capitular da obra, mas logo algum acontecimento retoma nossa imersão, especialmente as bem dirigidas cenas de ação.

Tais sequências são poucas, temos aqui um filme muito mais político-ideológico que a usual adaptação de quadrinhos, mas herdam muito da franquia anterior das Wachowski, especialmente a luta final, que é realizada em câmera lenta. O trabalho de coreografia merece sinceros parabéns, especialmente pelos movimentos de V, que manuseia suas facas com a precisão de um cirurgião e a habilidade de um verdadeiro artista e o faz sem soar exageradamente dramático, ainda que o drama seja inerente ao personagem.

Finalizado com um literal estouro, V de Vingança é um interessante alerta sobre o totalitarismo que está sempre à espreita e permanece tão atual hoje quanto fora em seu lançamento, em 2005. Desde então os quadrinhos originais de Alan Moore ganharam um gigantesco aumento nas vendas e a máscara de Guy Fawkes se tornou um símbolo não só na ficção, como na vida real, sempre com a mensagem colocada no início desta crítica. Temos aqui uma poderosa adaptação que certamente merece ser re-assistida todas as vezes que alguém demonstrar um interesse mais que puramente acadêmico em governos totalitários.

V de Vingança (V For Vendetta) – EUA/ Reino Unido/ Alemanha, 2005
Direção:
 James McTeigue
Roteiro: Lilly Wachowski, Lana Wachowski
Elenco: Natalie Portman, Hugo Weaving, Stephen Rea,  Stephen Fry, John Hurt, Tim Pigott-Smith, Rupert Graves
Duração: 132 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.