Crítica | Valérian e Laureline: Os Maus Sonhos

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estrelas 4

Publicada originalmente na Pilote, magazine que reunia talentos da nona arte franco-belga, a saga de Valérian e Laureline veio ao mundo em 9 de novembro de 1967, na edição #420 da revista. A aventura de estreia, intitulada Os Maus Sonhos, seguiria até a edição #437 (15 de fevereiro de 1968) e não demorou muito tempo para que o público se encantasse pela jornada de ficção científica que os amigos de infância Pierre Christin e Jean-Claude Mézières traziam em sua série.

Na década de 60, os quadrinhos não tinham uma grande abertura para personagens femininas relevantes fora do ramo super-heroico (e mesmo assim, haviam barreiras e reveses) e tampouco apostava em histórias que colocassem a ficção científica como gênero principal. A FC sempre era dissolvida em outro gênero, pois era arriscado demais publicar uma trama com problemas e temáticas destacadamente futuristas, ainda mais envolvendo viagens no tempo, leis de não-alteração da História, materialização de naves espaciais e uma sociedade estruturada num misto de utopia e distopia. Curiosamente, tudo isto já estava na primeira aventura de Valérian e Laureline. Não é de se espantar que desde o começo já tenha chamado tanta atenção.

O ano é 2720. A cidade é Galaxity, capital da Terra e do Império Galático Terrestre. Já na primeira narração de cenário de Os Maus Sonhos é possível perceber a influência de alguns grandes autores de ficção científica na prosa de Christin, especialmente de Isaac Asimov, com destaque para a sua Trilogia Fundação. Ao poucos, conhecemos a realidade da Terra neste momento da História e a coisa não é exatamente como esperávamos. Quando citei o entrelaçamento de utopia e distopia na trama, foi justamente por este fator de presença da humanidade no século XXVIII que trouxe a comparação à tona. As pessoas simplesmente não vivem mais. Não do jeito convencional de se viver. Elas passam todo o tempo em sonhos… sonhos agradáveis que o vilão da história, Xombul, quer acabar. Ao menos neste ponto, o leitor dá razão ao personagem. De que adianta uma civilização perfeita em arquitetura, preservação da natureza, altíssima tecnologia e benesses dos mais variados se apenas Tecnocratas (os burocratas sempre persistem!) e Agentes Temporais (uma espécie de polícia/detetives espaciais, cuja missão é manter a paz galática e evitar pirataria espaço-temporal) estão acordados?

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Xombul e suas criaturas são emboscados na floresta.

Embora esta crítica à situação da humanidade seja propositalmente sugerida no roteiro, ela não é levada adiante e isso tem muito a ver com a impressão que Christin nos quis passar desta sociedade. O próprio protagonista, Valérian, foi educado para acreditar na galáxia (como vocês percebem, há muita similaridade de conceitos de Star Wars com esta série, e isso é ainda mais evidente na parte artística, algo que Mézières sempre destacou em entrevistas) e age de maneira bastante fiel aos preceitos que seu cargo defende. Ele, por exemplo, não acha nada estranho que a humanidade esteja mergulhada em sonhos (me lembrou muito a dinâmica do episódio A Gaiola, de Star Trek) e Laureline não tem tempo de formar uma opinião a respeito, porque chega em um momento de batalha e transformação de Galaxity em uma cidade-pesadelo, por um insano Xombul, que pretendia a tudo dominar.

A primeira parte da saga é simplesmente deliciosa e tudo ganha uma impressão ainda mais simpática através da arte de Mézières, com seus desenhos suavemente caricatos para os personagens masculinos e seu aplaudível detalhamento dos cenários, igualmente ressaltados pelas cores de sua irmã Évelyne Tranlé. Quando Valérian chega à Idade Média — o ano 1000 é onde a caçada acontece, no castelo de Alberico, o Velho –, o enrendo recua um pouco em sua força e algumas ações do protagonista acabam se parecendo demais com estratégias de resolução forçada das aventuras heroicas na Era de Prata, o que não é exatamente algo negativo, mas que contrasta bastante com a linha mais madura e inteligente da primeira parte, quando Valérian é recrutado para deter Xombul.

Os Maus Sonhos é um arco de estreia muito divertido de se ler; cheio de situações cativantes (os autores criaram uma forma bárbara de representar encantamentos, além de trabalharem muito bem a dupla central — reparem que Laureline só entra na página 11 e, mesmo assim, tem o devido peso no texto) e com personagens, uma sociedade e um caminhão de possibilidades que prendem rapidamente o público. A trama é encerrada de uma forma tão orgânica, sugerindo uma continuidade não só de viagens pelo Universo mas de amostras desta Terra e seu Império no século 28, que queremos ver mais imediatamente. Este é um exemplo de série que já nasceu com as sementes de um clássico.

Valérian e Laureline: Os Maus Sonhos (Valérian et Laureline: Les Mauvais Rêves) — França, 1967 – 1968
No Brasil: Valérian Integral N°1 (Edição Especial – Sesi-SP Editora, 2017)
Roteiro: Pierre Christin
Arte: Jean-Claude Mézières
Cores: Évelyne Tranlé
31 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.