Crítica | Valérian e Laureline: Os Asteroides de Shimballil (Storyboard de um Piloto não realizado)

Valérian - HS2 - Les mauvais reves - os asteroides de plano critico

estrelas 3,5

É bem difícil entrar em contato com e avaliar uma obra inacabada. Nos quadrinhos existem alguns casos bastante icônicos desse tipo e um deles colocou o meu colega Ritter Fan no mesmo dilema que eu estou agora, quando escreveu sobre Tintim e a Alfa-Arte (1986), o último álbum de Hergé. No caso de Os Asteroides de Shimballil (1982), o motivo de não ter sido completado é menos trágico que o de Tintim, mas seu impacto não é menor para o leitor.

O início de tudo foi em 1976, quando Pierre Christin e Jean-Claude Mézières começaram a pensar na criação de uma série de TV para a sua space opera Valérian & Laureline. As conversas e contatos que os autores tiveram nesse período levaram-nos a criar uma pequena base conceitual de 10 páginas para um eventual Piloto da série, com pequenas narrações de acontecimentos e desenhos muito precisos para o que deveria ser mostrado nesta introdução. A trama não está completa, porém. Trata-se apenas do primeiro relatório de Valérian enviado para Galaxity durante a missão que ele e Laureline tiveram para ir a um dos asteroides que orbitavam o planeta morto de Shimballil.

A dupla aterrissa no asteroide de número 14.112, chamado Zakitab e lá conhecem o Grande Mercado. A civilização ali é primitiva e a cidade onde fica a enorme feira está cercada por pântanos e densa vegetação. De uma forma muito particular, a trama nos lembra as descrições da primeira grande aventura interplanetária de Valérian e Laureline, no álbum O Império dos Mil Planetas (1970), com mostras da população, suas atividades, os possíveis elementos ameaçadores, um mistério que precisa ser investigado e a ação heroica da dupla de agentes espaço-temporais.

Valérian - HS2 - Les mauvais reves - os asteroides de plano critico shimballil luiz santiago

Detalhes do Piloto de uma série que nunca aconteceu.

No relatório que Valérian envia para os seus superiores, temos as informações de que sua nave se aproximava de Shimballil sob um escudo de invisibilidade, mas ao ser danificada na entrada do cinturão de asteroides, teve o curso interrompido e passou a ser consertada por Laureline (interessante, não?), que ainda luta contra um grande número de cupins espaciais que se alimentam de metal. O conserto é feito e eles chegam a Zakitab, seguindo o caminho que deveria levar-lhes a um certo “contato” no asteroide. Não há informações sobre o todo da missão neste momento, mas entendemos que se trata de algo secreto e que precisa dos esforços de algum nativo para se concluir, algo que certamente irá trazer boas memórias para quem lê os livros e quadrinhos do Universo Expandido de Star Wars, pois a dinâmica é a mesma.

A busca por seu “informante local” acontece por um largo período de tempo. Mesmo com poucas páginas, os autores nos transmitem uma sensação perfeita de passagem do tempo e de coisas que os agentes viram no caminho, até que uma canção em uma língua que conheciam chama a atenção da dupla, que acaba chegando ao seu “contato”. Eles são levados através das tortuosas ruas da cidade, encontrando um grupo de criaturas que matam o informante e deixam os heróis sem saber o que fazer a partir daí. Como a história não tem desfecho, ficamos extremamente curiosos para saber o que os autores planejavam para a continuação do episódio que, infelizmente, não chegou a ser produzido.

Após entregarem o esboço para o Piloto da série, Christin e Mézières se viram diante de uma série de negativas, então o projeto foi engavetado por quase uma década. Em 1991 houve outra tentativa de adaptação para a TV, que também acabou sem sucesso. Em 2000 aconteceu uma outra, que depois de não dar certo, os autores desistiram por completo de guiar a ida de Valérian & Laureline para as telinhas e publicaram o storyboard de Os Asteroides de Shimballil como um complemento do álbum Os Maus Sonhos.

Valérian - HS2 - Les mauvais reves - laureline plano critico asteroides

Laureline faz reparos na nave e é atacada por uma infestação de cupins espaciais.

Em 2007, a saga de Valérian e Laureline enfim ganhou sua versão animada em uma parceria franco-japonesa, mas não com os criadores dos personagens à frente do projeto. Eles foram consultados no início, cederam os direitos de adaptação, mas não se envolveram. De fato, Time Jam: Valerian & Laureline (2007 – 2008), série que durou 40 episódios, possui um tom completamente diferente, na arte e nos conceitos, do que o que foi sugerido aqui em Os Asteroides de Shimballil.

Vendo tantos bons projetos antigos serem ressuscitados, será que é tarde para sonhar com pelo menos um episódio especial baseado nesses conceitos? O que aconteceu com Valérian e Laureline nesta aventura, depois da morte do informante? Ou será que estas perguntas não devem jamais ser respondidas e permanecer para sempre enterradas no baú dos grandes mistérios dos quadrinhos (e episódios de séries) inacabados pelos seus autores?

Valérian & Laureline: Os Asteroides de Shimballil — Storyboard de um Piloto não realizado (Les Astéroïdes de Shimballil) — França, 1982
Roteiro: Pierre Christin
Arte: Jean-Claude Mézières
10 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.