Crítica | Valerie e Sua Semana de Deslumbramentos
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O diretor Jaromil Jires é um dos maiores representantes da New Wave Tcheca, o renovo surrealista e fantástico que negou o realismo soviético e marcou a produção de cinema na Tchecoslováquia durante a década de 1960. Valerie e Sua Semana de Deslumbramentos (1970) é uma espécie da canto do cisne do movimento e uma das obras mais fantásticas do cinema sobre a passagem da infância para a adolescência.
A história de Valerie, uma garota inocente que vive com a avó, começa na abertura do filme, quando ela ganha um par de brincos mágicos. A conotação sexual dos brincos aparece imediatamente, como se quisesse ressaltar a nova fase da vida dessa garota que se dá conta do mundo “violentamente sexual” à sua volta. O sangue pingando nas margaridas é uma imagem simbólica e bonita, e atravessa o filme como referência de que toda essa semana de deslumbramentos é, na verdade, o período da primeira menstruação da garota. Todas as metáforas visuais e situações surrealistas do filme estão fora do campo político e concentram-se unicamente num patamar humano, feminino e sexual.
Em sua semana de deslumbramentos, Valerie deixa a sua inocência infantil e passa a observar melhor o mundo cheio de volúpia, ameaças e medo. O diretor nos apresenta sequências de puro deleite antropológico, onde o paganismo naturalista junta-se aos ícones, símbolos e rituais cristãos. A virgindade, o incesto e a morte são elementos que circulam entre os vários mundos culturais. Essa proximidade entre os dois focos religiosos, mais a fixação de um mundo onírico enraizado no mundo real (onde o espectador não consegue perceber muito bem onde começa um e termina outro), cria um ambiente um pouco medonho, que apresenta ameaças lendárias e reais para a vida de uma bela adolescente que já possui características, corpo e desejos de uma mulher.
A incursão dos vampiros, monstros e demônios são referências simbólicas da mutação de Valerie, que chegava a um ponto crucial naquela semana de deslumbramentos. A sexualidade, pulsão da libido que se desenvolve desde a mais tenra infância, alcança sinais de maturidade prática na adolescência, apresentando os seus primeiros sinais de curiosidade e percepção. Esse “primeiro sinal” coincide também com as mudanças hormonais no corpo dos adolescentes. O diretor Jaromil Jires trouxe o máximo de medos e percepções possíveis da sexualidade (amparado por Freud), e fez dessa descoberta de Valerie aquilo que todo adolescente sente ante a realidade de um mundo sexualizado: medo. Por isso temos o desfile de seres fantásticos e lendários na história. Cada espectador pode aferir o resultado geral de maneira muito particular dada a amplitude do universo surrealista que veste o filme. Todavia, é importante pensar na dinâmica da “caça-e-caçador” dos vampiros e aproveitadores com quem Valerie convive como uma inversão das forças psíquicas contra ela própria. Todos os seres no filme lutam mortalmente por suas vidas. A sede de viver compreende, se preciso for, a destruição do outro. Por isso a jovem foge da avó que luta pela sua juventude, do monstro ou vampiro ou pai que quer viver para sempre, do padre que tenta estuprá-la. A “vida” aqui, pode ser entendida também como a realização dos desejos de todas as personagens.
Jaromil Jires faz jus à força surrealista da obra de Vítezslav Nezval, de onde adapta o roteiro do filme. Uma mistura de Alice no País das Maravilhas com o Nosferatu de Murnau dão uma identidade muito fiel a toda essa semana de deslumbramentos. Com um elenco entre o mediano e o muito bom, o filme tem seu maior sucesso no roteiro e na produção, cuja iconografia nos faz lembrar os filmes de Sergei Paradjanov. O gostar ou não gostar de Valerie e Sua Semana de Deslumbramentos está muito ligado ao que o espectador entende de surrealismo, psicanálise e cinema experimental. Mas uma coisa é certa: raros são os que não reconhecem o poder e a importância cinematográfica desse ícone deslumbrante da New Wave Tcheca.












