Crítica | Vândalo Americano – 2ª Temporada

“Cocô é engraçado.”

A primeira temporada de Vândalo Americano, alcançando um sucesso inesperado, mas ainda pequeno dada as grandes qualidades da série, possuía um interesse objetivo: mostrar o quanto uma sociedade molda uma pessoa preconceituosamente, quase que impedindo-a, indiretamente, de ser quem ela quer ser. Dylan Maxwell era um vândalo americano e deveria continuar sendo. Dessa vez, as temática abordadas, sobre juventude e sociedade, são inúmeras e a própria temporada vai se transmutando de episódio em episódio sobre o que vai ser dito, no final das contas. Peter Maldonado (Tyler Alvarez) e Sam Ecklund (Griffin Gluck), agora, investigam o Surto, caso que aconteceu no colégio St. Bernardine, em Washington, no qual uma grande parte dos alunos, durante o almoço, começaram a defecar indiscriminadamente, desde o corredor até o banheiro, local de luxo para poucos durante aquele dia. O verdadeiro interesse de Maldonado e Sam encontra-se na mensagem enviada por Chloe (Taylor Dearden) a eles, alegando que a pessoa responsável pelo crime – e outros dois consequentes – foi, na verdade, acusada injustamente. Os podres de uma escola são abertos e a série, uma outra agradável vez, replica a fórmula de encarar satiricamente, mas sem nenhuma infantilidade, absurdos de um crime, teoricamente, bobo.

Muitas das características que, pessoalmente, encaro como deméritos dos documentários sobre investigações policiais são retomadas. A necessidade de explicar e explicar novamente os tantos pontos deixados em aberto, de um episódio para o outro, até mesmo durante momentos diferentes de um próprio episódio, cansa, mas a intenção de Vândalo Americano é realmente aparentar veracidade. Ninguém, entre os personagens da série, começa a rir incontrolavelmente, porém, passa as informações sobre os acontecimentos, claramente cômicos, com uma autenticidade, reiterada da temporada passada para essa, existente no contraste entre o jocoso e o sério. “Cocô é engraçado”, diz Maldonado, mas com feições seríssimas, como se estivesse desenvolvendo uma argumentação jurídica. O passo em falso da temporada, contudo, é o sentimento de repetição, ainda mais tendo em visto os dois últimos episódios, que, ao adicionarem fatos novos, mudam completamente todo o cenário de investigação. Os anteriores soam como atrasos para a conclusão do que uma estrutura de causa e consequência narrativa simples, mas funcional. Vândalo Americano decide revirar todo o jogo completamente na hora errada, criando uma discrepância entre a empolgação do espectador antes, menor, com a empolgação do espectador na hora, bem maior.

Ademais, enquanto, na primeira temporada, tínhamos uma dupla descobrindo-se em um caso misterioso, Maldonado e Sam, na segunda, parecem mais despropositados, justamente por estarem comando um programa de sucesso – a série é, de fato, na ficção e também na realidade, distribuída pela Netflix, tratando-se de um jogo metalinguístico extremamente cômico. A dupla funciona como verdadeiros documentaristas dos programas mais conhecidos de canais detetivescos sobre investigação policial, completamente desimportantes em relação ao que está sendo contado, contrariando o tratamento dado anteriormente. Os componentes da dupla, portanto, não funcionam como reais personagens da obra, principalmente em relação a amizade que a temporada busca construir entre eles e Kevin McClain (Travis Tope), construção compreensível, mas ausente de veracidade, ainda mais se comparada com o embate de universos anterior, entre o mundo deles e o de Dylan, fomentando um vínculo forte e crível, nos fazendo acreditar no investimento de ambos dentro do caso do personagem. O contraponto é de ideais, ajudando na narrativa, pois não permite o espectador esquecer de certos pontos cruciais, que podem ou não serem relevantes para o conjunto final. Quando algum dos dois mostram-se céticos, alguma coisa está em jogo.

A segunda temporada, porém, expande o número de personagens relevantes para o todo, mostrando-se mais versátil em relação as distintas personalidades que trabalha, de um garoto que aparentemente sofre bullying, mas não o encara assim, a um vitorioso jogador de basquete carismático, presumidamente deslocado daquela realidade, a de uma escola católica, privada e cara. Travis Tope, interpretando Kevin McClain, é o destaque da temporada, a começar pela própria interrogação do primeiro episódio, onde o ator, mesmo distanciado da câmera, consegue mostrar o comportamento de seu personagem. A coerção dos policiais – completamente ignorados, posteriormente -ainda não é sentida, mas vai ser, quando a avó do personagem surgir em cena, em uma defesa ao mesmo tempo aceitável e rejeitável. Qual avó não defenderia seu neto? Além disso, DeMarcus Tillman (Melvin Gregg), outro personagem notável, ganha destaque aos poucos, sempre fascinante. Quando chegamos no final, o personagem é essencial para a série, por trabalhar a favor do discurso geral proposto por ela: sobre o vazio da nossa juventude, em um jogo de aparências completamente adoecido. Os desvios de qualidade, portanto, estão longe de impedir a série de brilhar mais uma vez, mostrando interesse em falar mais sobre a sociedade do que sobre fezes.

Vândalo Americano (American Vandal) – 2ª Temporada — EUA, 14 de setembro de 2018
Showrunners:
 Dan Perrault, Tony Yacenda
Direção: Tony Yacenda
Roteiro: Tony Yacenda, Dan Perrault, Dan Lagana, Kevin McManus, Matthew McManus, Mark Stasenko, Seth Cohen, Amy Pocha, Jaboukie Young-White, Jess Meyer
Elenco: Tyler Alvarez, Griffin Gluck, Travis Tope, Melvin Gregg, Taylor Dearden, DeRon Horton, Adam Ray, Sarah Burns
Duração: 30 minutos por episódio (8 episódios no total)

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.