Crítica | Velocidade Máxima 2

VELOCIDADE MÁXIMA 2_plano_critico

estrelas 0,5

Há uma instigante polêmica acerca das continuações no bojo da indústria cinematográfica. Algumas são muito boas: Pânico 2 é um bom exemplo. Repetiu o ritmo do primeiro filme, colocou os personagens dentro de um processo evolutivo interessante e construiu um roteiro com citações coerentes e referências harmônicas, sem forçar a barra ao trazer à tona elementos do seu predecessor. Em alguns casos, há continuações que são razoáveis: neste caso, convém falar de Bridget Jones 2 – No Limite da Razão.  Depois do sucesso do antecessor, o filme foi lançado para sanar a saudade dos fãs, mas a história é rasa, desenvolvida sem as situações hilárias que fizeram o público amar o primeiro filme. Não estraga a produção enquanto franquia, mas é um daqueles casos que não há razão nenhuma para existir. Por fim, há continuações tão ruins, mas tão ruins, que o paralelo com o filme antecessor parece um exercício de tortura psicológica: Velocidade Máxima 2, filme em questão a ser analisado, é um destes casos.

Lançado em 1994, Velocidade Máxima foi um sucesso absoluto de bilheteria, mesmo que não tenha agradado ao circuito da crítica especializada. Com cenas de ação bem dirigidas, personagens razoáveis dentro de um gênero que constantemente os transforma em caricaturas, a produção acertou em diversos aspectos, inclusive no casal de protagonistas, interpretados com muita química por Keanu Reeves e Sandra Bullock. Sendo o sucesso que foi, não havia dúvidas sobre o lançamento de uma continuação.

Dentro do padrão hollywoodiano de realizações, o filme até demorou para estrear, haja vista a sequência ter chegado aos cinemas três anos depois, tempo suficiente para a produção de um roteiro com um argumento interessante e um desenvolvimento ao menos  razoável. Era uma sexta-feira, dia 13 de junho de 1997. Para os que acreditam em superstições, à primeira vista, este poderia ter sido os motivos do fracasso, afinal, estrear numa data conhecida como dia do azar era um jogo perigoso, entretanto, basta assistir aos cinco minutos iniciais de Velocidade Máxima 2 para constatar os problemas que envolveram o filme e o fizeram ser um dos maiores fracassos comerciais dos anos 1990.

No filme, Annie Porter (Sandra Bullock) está de volta, curiosamente desastrada e pouco segura diante de um teste para conseguir a carteira de habilitação. Ao tentar ser divertida, a personagem logo de cara causa antipatia do público, tamanha a artificialidade dos diálogos, construídos para tentar explicar ao público o paradeiro do namoradinho da moça, protagonista do filme anterior, interpretado por Keanu Reeves.

O teste não dá certo e o roteiro se esforça (ironia, tá?) para colocá-la numa cena diante do novo protagonista da ação. Alex Shaw (Jason Patric), um agente da SWAT que até então escondera a sua profissão. Eles discutem, ela questiona os motivos que o levaram a esconder a sua dimensão social durante os sete meses de namoro, mas a tensão entre o casal se dissolve, pois o bom rapaz retira do bolso as passagens para um cruzeiro com destino ao Caribe. Tudo muito conveniente e espantosamente forçado.

As esperanças do espectador ainda continuam presentes, pois sabemos que o enredo concentrará a sua ação em um transatlântico, espaço que já rendeu boas sequências de ação em filmes como O Destino de Poseidon. Mas, ao contrário do que desejamos ao dedicar o nosso tempo para assistir à sequência do ótimo filme de ação de 1994, este preâmbulo é só um pedacinho da cauda longa de absurdos exibidos ao longo de 121 minutos de roteiro.

O filme vai afundando ao passo que se desenvolve. Logo somos apresentados ao vilão, interpretado de maneira hedionda e caricata pelo geralmente ótimo Williem Dafoe. Ele é um especialista em informática que resolve dar uma de “terrorista” e se vingar da companhia que o demitiu após descobrir que o seu funcionário desenvolvia uma doença rara. Além da destruição, o personagem também gosta de roubar coisas para enriquecimento pessoal: joias do cruzeiro, destinada aos casais apaixonados e outros consumistas de plantão. Ao tomar o controle do navio, o vilão desgoverna não só os passageiros, mas os espectadores e a história em andamento, náufragos a cada cena.

Os motivos para a sua vingança são banais e não convencem, mesmo sabendo que estamos diante de uma espécie de psicopata. Ao passo que ele inicia a sua jornada de destruição, Annie e Alex tomam as rédeas da situação, arregaçam as mangas e partem para a ação, tendo em vista salvar a todos da situação e brincar de caça ao bandido, num dos roteiros mais cartunescos (num sentido pejorativo, logicamente) da história do cinema contemporâneo.

O “X” da questão está nas “palavras”. O grande problema desta continuação é o roteiro. A música de Mark Mancini é mediana, mas não atrapalha o desenvolvimento da narrativa. A montagem de Alan Cody tenta conectar partes que em si já estavam rasuradas, sem chances para resgate desde a escrita do roteiro. O design de produção é caprichado, o figurino e a trilha sonora, embalados numa mistura de cultura pop e exotismo, dão conta da proposta, mas infelizmente, o texto que embasa o filme é muito ruim.

A necessidade de relacionar alguns ícones da aventura de 1994 e este novo desafio na vida de Annie também é algo extremamente forçado. O mesmo personagem que emprestou o carro para Keanu Reeves salvar os passageiros do ônibus aparece, desta vez, emprestando a sua lancha para Jason Patric salvar a moça em perigo. O mesmo ônibus do primeiro filme surge como uma homenagem, nos minutos finais, mas a ode ao anterior não tem força alguma, tamanha a raiva dos espectadores diante de 120 minutos de absurdos.

Os culpados? Randal McCormick e Jeff Nathason, juntamente com o cineasta Jan De Bont e seu argumento absurdo. Os diálogos são insossos e desconectados, em alguns momentos, irritantes. As sequências de ação pouco empolgantes causam cansaço e náuseas para os mais sensíveis, tamanho a movimentação da câmera. Para ficar pior, as lutas são mal coreografadas. Em suma, um desastre total, menos no quesito ecológico, afinal, nos créditos finais, a produção informa que não houve nenhuma poluição de nenhum oceano durante as filmagens. Pelo menos uma notícia boa, não é mesmo?

Velocidade Máxima 2 prometia se um sucesso de bilheteria, mas rendeu apenas U$48 milhões nos Estados Unidos, algo bastante discrepante do orçamento que ultrapassou os U$100 milhões.  A publicidade em torno da produção previa o mesmo sucesso de filmes como MIB – Homens de Preto, Força Aérea Um e O Mundo Perdido: Jurassic Park, promessas da bilheteria da mesma época. Isso tudo, porém, ficou apenas no campo das ideias. Além do fracasso comercial, também naufragou nas críticas, colocou a carreira de Sandra Bullock em xeque e foi indicado ao famigerado “Framboesa de Ouro” em sete categorias. Mais que merecido.

Velocidade Máxima 2 (Speed 2: Cruise Control) –  EUA, 1997.
Direção:  Jan de Bont.
Roteiro: Randal McCormick  e Jeff Nathason, baseado nos personagens de Graham Yost.
Elenco: Sandra Bullock, Jason Patric, William Dafoe, Temuere Morrison, Brian McCardie, Jessica Diz, Connie Ray, Francis Guinan, Patricka Darbo.
Duração: 121 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.