Crítica | Velozes e Furiosos 8

estrelas 2,5

Obs: Leiam, aqui, as críticas de todos os filmes da franquia.

A trajetória da cinessérie Velozes e Furiosos ao longo desses anos é algo bastante peculiar. O que começou como apenas mais um filme de ação demorou a encontrar sua verdadeira linguagem, chegando a ter seu elenco alterado mais de uma vez, para, somente no quarto longa, reunir parte daqueles que compõem o quadro de Velozes e Furiosos 8. Embora tenha sido descoberto o “objetivo” da franquia, os filmes continuam, como Luiz Santiago bem disse em sua crítica de Operação Rio, “feitos para diversão alienada e só”. Esperar algo mais que isso dessa mais nova entrada da série, portanto, seria, no mínimo, ingenuidade. Evidente que isso não é desculpa para relevarmos seus pontos negativos.

A trama tem início em Havana, Cuba, onde, aparentemente, todas as mulheres usam shortinhos ou minissaias, exceto as “gringas”, é claro – já nos jogando na velha objetificação da mulher, além de colocar a de origem latina como nada mais que um pedaço de carne. Nesse meio encontramos Dominic Toretto (Vin Diesel) e Letty (Michelle Rodriguez), vivendo suas vidas alegremente até que a ciberterrorista, Cipher (Charlize Theron), decide recrutar Dom para seu lado. Forçado a trair sua equipe, sem dizer a eles o motivo, ele precisa seguir as orientações de Cipher, enquanto Hobbs (Dwayne Johnson), Tej (Ludacris), Letty e outros de sua antiga equipe o perseguem.

Velozes e Furiosos sempre se apoiou em altas galhofas para estabelecer suas cenas de ação, algo que preencheu a segunda metade dos anos 1990 e os 2000, vide obras como Triplo X e os 007 com Pierce Brosnan. Esse oitavo filme, contudo, atualiza as definições desses exageros, os colocando em um nível muito acima, a tal ponto que um submarino passa a perseguir carros no gelo. Estamos falando, porém, de uma franquia que não se leva tão a sério quanto Transformers, por exemplo, a intenção aqui é realmente fazer rir, como em uma comédia de absurdos. O verdadeiro problema da obra e, consequentemente, da franquia, não está aqui.

A pedra no sapato da cinessérie é ninguém menos que Vin Diesel, o homem que fora vendido como o astro radical na década anterior e que, desde então, se tornara praticamente uma relíquia, com sua carreira cinematográfica limitada basicamente a essa franquia e em sua participação em filmes no qual ele repete três palavras exclusivamente em uma ordem específica. Diesel e sua carisma negativa, aliada a sua única expressão facial, prejudica o longa-metragem por não conseguirmos nos relacionar sequer um pouco com o protagonista, tornando todas as sequências envolvendo ele, dentro da base móvel de Cipher, verdadeiras tragédias.

Felizmente, o que falta de carisma em Vin, sobra em Dwayne Johnson e Tyrese Gibson. O primeiro consegue, por mais incrível que pareça, nos fazer acreditar em todas as coisas que faz, unicamente pelo seu tamanho (tanto para cima quanto para os lados). Além disso, embora não seja um grande ator, suas expressões soam mais humanas e sinceras que a sobrancelha levantada de Diesel. Gibson, por sua vez, é o alívio cômico dentro de uma obra que, por si só, é um alívio cômico e, surpreendentemente, ele nos consegue fazer rir com sua atuação forçada, que traz gritos a cada segundo de projeção. Temos, também, é claro, o eterno Snake Plissken, Kurt Russell, com sua presença funcionando como uma aula para a novas gerações de como ser um astro de filme de ação, ainda que, no fim, ele seja o personagem que só fala.

Entramos, então, em outro dos sérios problemas de Velozes e Furiosos 8, a personagem de Charlize Theron, que não traz mais do que uma representação para lá de cliché de vilã. Para começar, todo seu plano mirabolante não faz o menor sentido – estamos falando de alguém que consegue hackear qualquer coisa e que conta com um pequeno exército a seu dispor, ela, portanto, não precisava de Dom para cumprir seus objetivos e sua justificativa simplesmente não funciona. Igualmente falando, temos a chantagem que ela utiliza para manter Toretto do seu lado, o que é agravado pela forma como ele sai dessa situação. Ele não poderia ter feito isso desde o início? O coup de grâce, porém, é o objetivo de Cipher em si, que não faz o menor sentido já que ela consegue simplesmente hackear tudo e poderia muito bem fazer um belo estrago sem necessitar de armas convencionais.

Mas, como dito anteriormente, estamos falando de um longa-metragem no qual devemos deixar o cérebro de lado e, nesse quesito, ele funciona quase que completamente. Algumas sequências de ação são exageradamente longas, o que prejudica a tensão e a imersão do espectador, felizmente, elas são diferenciadas entre si e, surpreendentemente, uma das melhores sequer conta com carros. Dito isso, estamos falando de uma exceção, já que a obra retorna às suas origens e mantém o foco evidente nos veículos nas suas cenas mais agitadas. Em determinados momentos a direção de F. Gary Gray cai no velho problema dos filmes de ação da atualidade, com sequências excessivamente picotadas e a irritante câmera tremida, dificultando nosso entendimento. Isso, todavia, não se mantém durante toda a projeção, ainda que na maior parte dela esteja presente.

Descerebrado, com um protagonista com carisma negativo e um roteiro repleto de furos, Velozes e Furiosos 8 ainda consegue nos divertir, em geral pelas gigantescas mentiras que preenchem a narrativa e os esforços do elenco de apoio que, todos, conseguem ser melhores que Vin Diesel. Se tudo o que você busca é o entretenimento puro então certamente encontrará isso aqui. Os problemas do longa, contudo, não podem ser deixados de lado, especialmente quando, mais de uma vez, nos vemos entediados pelo que ocorre em tela. Dito isso, a franquia continua como pura diversão alienada.

Velozes e Furiosos 8 (The Fate of the Furious) — EUA, 2017
Direção:
 F. Gary Gray
Roteiro: Chris Morgan (baseado nos personagens criados por Gary Scott Thompson)
Elenco: Vin Diesel, Jason Statham, Dwayne Johnson, Michelle Rodriguez, Tyrese Gibson,  Ludacris,  Charlize Theron, Kurt Russell,  Nathalie Emmanuel,  Luke Evans,  Elsa Pataky, Kristofer Hivju, Scott Eastwood
Duração: 136 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.