Crítica | Vem Dançar Comigo

estrelas 3

Há algo de inocente e aparentemente pueril em Vem Dançar Comigo, musical dirigido por Baz Luhrmann, lançado no início dos anos 1990, marco de um gênero relegado ao ostracismo desde os anos 1970. A trama, apesar de redondinha e simples, apresenta os desafios enfrentados por ideias jovens na seara do pensamento tradicional, um dos segmentos prediletos do cinema, tema rentável e bem aproveitado no roteiro deste filme.

Vem Dançar Comigo é inspirado na peça teatral homônima. O produtor Ted Albert, produtor da MBA Films, empresa australiana, conferiu a peça no teatro e decidiu converte-la para a linguagem cinematográfica, proposta bem recebida por Baz Luhrmann. O roteiro, elaborado por Craig Pearce, nos apresenta o campeão de dança de salão Scott Hastings (Paul Mercurio), dançarino que é hostilizado por ter criado os seus próprios passos de dança quando na verdade a federação local prefere que as performances tradicionais sejam representadas durante os concursos.

Logo, surge um torneio de dança e Fran, a desajeitada personagem interpretada por Tara Morice, decide se juntar ao dançarino, mesmo não sabendo nada de dança, para tentar enfrentar o sistema local e apresentar algo criativo. Ambos sabem que não vão ganhar, mas só a iniciativa já provoca uma rasura nos padrões, bem como na vida comum de ambos, pois diante das suas vidas com recursos limitados e demais pressões sociais, o casal vai encontrar nas diferenças o ingrediente perfeito para a superação dos seus medos.

As tramas que envolvem o roteiro nos remetem aos filmes dos anos 1940, em especial, O Picolino, um dos melhores desempenhos de Fred Astaire no que diz respeito aos aspectos performáticos da dança. Os números musicais receberam fortes influências do clássico.

No que tange aos marcos da trilha sonora, temos uma versão do clássico alemão Danúbio Azul, famosa valsa de Johann Strauss II, além da versão de Time after Time, de Cindy Lauper, na voz de Tara Morice, protagonista do filme. Por sinal, a forma como a atriz constrói a sua personagem é cativante, assim como a performance de Paul Mercurio, seu par romântico na trama, um excelente dançarino que expressa as suas emoções na arte que lhe compete: a dança. É através da dança que a história é contada, sendo a modalidade artística o eixo central que guia os acontecimentos de todo o filme.

Como um microcosmo do mundo, a narrativa em Vem Dançar Comigo traz todos os conflitos comuns na obra de Baz Luhrmann: superação de desafios, amores, paixões, traições e redenções. Nas palavras do diretor, um “conto de fadas no mundo da dança”. Orçado em U$4 milhões, a produção foi realizada nos idos dos primeiros meses de 1991, ganhou vários prêmios da indústria australiana, sendo o Festival de Sidney um dos principais. Fora do circuito nacional, foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor filme Comédia/Musical, em 1994.

O musical é o responsável por abrir o que o diretor-autor intitulou de Trilogia da Cortina Vermelha, filmes com aspectos teatrais e com uma linguagem singular dentro da concepção cinematográfica contemporânea. Em trilogias, é muito comum o terceiro filme deslizar ou comprometer o bloco de filmes que se integra. No caso da Trilogia da Cortina Vermelha, o inverso ocorre. O primeiro filme é um ensaio para os aspectos teatrais do segundo, uma versão burlesca do clássico Romeu e Julieta, de William Shakespeare, com estilo pop e linguagem poética elevada, produção que preparou o público para o delírio visual do terceiro filme, Moulin Rouge – Amor em Vermelho, uma espécie de manifesto das sete artes contemporâneo, adornado por uma mixagem de música erudita e pop, estilos e vanguardas audiovisuais, dentre outras sacadas que reinventaram o gênero musical para a geração 2000.

Vem Dançar Comigo (Strictly Ballroom, 1991)
Direção: Baz Luhrmann
Roteiro: Craig Pearce
Elenco: Paul Mercurio, Tara Morice, Bill Hunter, Pat Thomson
Duração: 94 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.