Crítica | Venom (2018) – Vol. 1: Rex

Sempre implico com vilões que se tornam tão queridos que acabam trocando de lado. No caso de Venom, a única coisa interessante que saiu da tenebrosa Guerras Secretas de 1984, meu lamento nem mais se aplica, pois a virada aconteceu já há tempos, com o simbionte até mesmo unindo-se a Flash Thompson (outro “vilão” do Aranha que se tornou amigo) e transformando-se em um super-soldado.

Portanto, não estou aqui para chorar pelo Venom “domado” dos último tempos, até mesmo porque o que Donny Cates faz no mais novo volume (já é o quarto!) da série solo do personagem é uma divertidíssima sandice que retcona (de novo!) a origem do simbionte, misturando o poema milenar Beowulf com a mitologia dos Celestiais e a de Thor (ele explica até mesmo a origem da necroespada de Gorr, para vocês terem uma ideia…) em uma daquelas receitas com ingredientes completamente díspares que tinha tudo para dar errado, mas que, inexplicavelmente, resulta em algo saboroso se o leitor, claro, souber levar as mudanças na boa, sem surtar com sacudidas drásticas no status quo do personagem que são comparáveis em magnitude ao que Jason Aaron fez no mais recente e extremamente ambicioso arco dos Vingadores em relação a todo o Universo Marvel.

Sem perder tempo, Cates nos reapresenta a Eddie Brock, novamente hospedeiro do simbionte alienígena, acordando de um pesadelo que se passa na Idade Média na noruega, com guerreiros tentando impedir a entrada do que parece ser um simbionte em seu castelo. Não demora e Brock, ao intervir em uma ação escusa do Halloween, acaba transformando-se, momentaneamente, em uma versão mais monstruosa ainda do Venom, com uma espiral vermelha no rosto e falando uma língua alienígena que ele não compreende. Em seguida, ele é achado por Rex Strickland que revela para ele que ele fora também hospedeiro de um simbionte na versão 1.0 do programa do super-soldado de Flash Thompson, ainda sob o comando do Nick Fury original (ou “raiz” como se diz hoje em dia).

(1) Venom versão (mais) ensandecida; e (2) tudo começou com os Celestiais…

Mas essa é apenas a pontinha do iceberg simbiótico que Cates cria sem qualquer medo de ser feliz. Ao colocar Brock em uma missão de resgate dos demais colegas de Rex, todos unidos para sempre com seus simbiontes, o roteirista abre uma Caixa de Pandora que dá até dor de cabeça pensar e que envolve Knull, o Deus dos Simbiontes e uma história que volta no tempo alguns bilhões de anos em flashbacks. Certamente muitos leitores revirarão os olhos com as maluquices que Cates coloca no papel, até porque eu mesmo revirei os olhos algumas vezes, mas a grande verdade é que essa mixórdia, que expande enlouquecidamente a mitologia dos simbiontes, alterando até mesmo a natureza de seu planeta natal (mais ou menos a maldade que os astrônomos fizeram com Plutão…), funciona naquele nível do “desliga o cérebro e mergulha na brincadeira” que muitos quadrinhos e filmes por aí exigem de seus leitores. Confesso que tenho menos dificuldade de aceitar esse imbróglio cósmico do que o simbionte bonzinho tendo conversas “fofas” de buddy cop com Brock, o que acontece diversas vezes ao longo dessa primeiro volume.

O maior problema do arco, porém, é que, em sua ambição, Cates acaba mostrando uma certa inabilidade em lidar com a cadência narrativa, parando a história diversas vezes para fazer “parênteses” elucidativos que misturam conceitos e fazem um bocado de referência a outros elementos do Universo Marvel, como mencionei mais acima, o que pode afastar leitores que só querem alguns minutos de diversão descompromissada. E, nessa mesma toada, a arte de Ryan Stegman parece não conseguir acompanhar a profusão de informações jogadas página a página, especialmente depois da entrada de Knull na narrativa, o que não demora. Ainda que ele saiba criar visuais deslumbrantes, de pegada gótica, que combina maravilhosamente bem com o conceito do Venom, em determinados momentos ele se perde na progressão de quadros e de páginas, deixando o leitor confuso e tendo que voltar um pouco para ver se entendeu de verdade o que aconteceu.

Mas eu não posso reclamar demais de Cates e Stegman. Diferente de eventos como Extermínio, por exemplo, em que praticamente nada acontece por várias edições, aqui a coisa anda a velocidade de dobra, com tantas situações e surpresas por edição que, depois de ler o arco de seis edições de uma vez só, fiquei até cansado. O que a dupla criativa faz aqui nesse comecinho poderia popular uns três arcos narrativos nas mãos de autores menos hábeis e isso sem contar que eles abrem tanto a narrativa que realmente tornam a leitura mensal da nova publicação solo do Venom algo a ser considerado até pelos leitores mais céticos.

A volta de Venom para Eddie Brock e para uma publicação solo, como parte da iniciativa Fresh Start da Marvel Comics, é um deleite. Tem retcon ambicioso, tem pancadaria, tem novos poderes, tem novos personagens e novas criaturas, tem o diabo a quatro. Ou seja, é um baita (re)começo para o personagem que literalmente o reposiciona como um importante alicerce no panteão moderno da editora.

Venom (2018) – Vol. 1: Rex
Contendo: Venom (Vol. 4 – 2018) #1 a 6
Roteiro: Donny Cates
Arte: Ryan Stegman
Arte-final: JP Mayer
Cores: Frank Martin
Letras: Clayton Cowles
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: julho a novembro de 2018
Páginas: 146

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.