Crítica | Venom (2018)

“Olhos, pulmões, pâncreas. Tantos petiscos, tão pouco tempo.”

Um pedaço de nada, desmembrado, decapitado e sem vida“, resumi o longa-metragem de Ruben Fleischer na frase em destaque. O golpe é duro demais para aguentar? Venom é a prova cabal da capacidade do ser-humano de resistir a impactos monstruosos, até mesmo resistindo a uma volta no tempo extremamente desagradável. Muito tempo antes do Universo Cinematográfico da Marvel, os super-heróis das maiores empresas dos quadrinhos ganhavam, despretensiosamente, suas versões cinemáticas. O espectador, de fato, pode estar pessimamente acostumado com o funcionamento dos dias atuais, mas Venom não colabora para justificar-se existencialmente, agora, mesmo com o formato que teve ápice em meados dos anos 2000, com lançamentos como o de Demolidor: O Homem Sem Medo, Elektra e Mulher-Gato. Até mesmo a classificação indicativa, algo reformulado recentemente com Deadpool e Logan, é esquecida. O personagem não precisa ser, necessariamente, envolto de sangue, mas o senso de ameaça, para uma criatura, tecnicamente, assustadora e perigosa, cheia de dentes, é subtraído exponencialmente quando não tememos vê-lo cortar uma pessoa ao meio. Qual história a ser contada, dada as inúmeras limitações? Protetor Letal e Guerra dos Simbiontes são, aparentemente, adaptadas, mas estejam conscientes da “originalidade” de Venom, pinçando pedaços da mitologia do personagem para permiti-lo sobreviver sem o Homem-Aranha.

O resultado independe das limitações, as quais não tornariam o longa-metragem solo do Venom extremamente ruim por si só. A narrativa, portanto, começa com a agilidade de uma tartaruga, usando da linearidade de uma história de origem – a de Eddie Brock (Tom Hardy) e a dos simbiontes – para até mesmo dar existência a uma introdução desnecessariamente estendida dos passos do antagonista monstruoso da fita, que relaciona-se com a trama principal, apesar disso, muito tardiamente. Os inúmeros furos de roteiro, responsabilidade de três pessoas, podem ser exemplificados com a passagem do tempo. O simbionte realmente demorou seis meses para encontrar a Fundação Vida? O grande vilão, Carlton Drake (Riz Ahmed), possui interesses megalomaníacos na salvação do seu planeta, os quais se encontram completamente deslocados do cerne da obra, mas compreensíveis, caso não estivéssemos dentro de um roteiro extremamente atroz, reiterando, repetidamente, as intenções maquiavélicas do personagem, como se não entendêssemos que Drake realmente acredita na união entre o homem e o simbionte. Ao menos, a derrocada de Brock possui sua força argumentativa, levando-o à margem da sociedade – a trilha sonora busca imprimir isso, mas não funciona -, além de, em contrapartida, estabelecer a química nula entre Hardy e Michelle Williams, interpretando o interesse amoroso do protagonista, Anne Weying, sem interessar o público.

O intérprete principal, ademais, não consegue entender o seu objetivo para o personagem ou, então, até encontra uma meta, esforça-se, mas a condução do restante da obra, principalmente o texto, contraria essa condição teatral que Tom Hardy, cheio de gestos e movimentos, impregna para seu Eddie Brock, caindo para uma vertente cômica auto-sabotada. Em cenas caminhando pelas ruas de São Francisco, o personagem aparenta sofrer de esquizofrenia, portanto, existe potencial dramático nesse trabalho de rivalidade entre o hospedeiro e o seu “parasita”. Os dois, no caso, são um só, mas o longa-metragem não consegue evidenciar, de maneira adequada, nem os malefícios dessa relação, como a destruição do corpo do jornalista, nem o desenvolvimento da química entre ambos, que validaria o uso, sem manipulações, do pronome “nós”. A intervenção do monstro, como uma voz, é fundamental para o tédio não nos acometer de vez, permitindo a obra, pontualmente, encontrar diversão, mas nunca comprometimento com a construção de uma “amizade” entre os dois, exatamente o que o roteiro entende como necessário para uma virada narrativa. O beijo, antecedendo o clímax, poderia ser um representante simbólico de uma atração intangível, mas a obra estraga o potencial de querer estudar drama de personagem. Venom parece entender o seu hospedeiro, tratando-o como similar a ele, porém, nunca temos noção de qualquer similaridade. A credibilidade é mínima.

As cenas de ação, aliás, também são pavorosas. Muito mais do que um filme de super-herói – ou de super-vilão ou anti-herói -, Venom é uma obra de ação, conseguindo entregar péssimas resoluções para esse seu lado que, tecnicamente, deveria ser um dos grandes pontos chave para a manivela do longa-metragem rodar. A enorme perseguição policial, mesmo contando com as interações entre o protagonista e o simbionte, é enfadonha. Correndo na floresta, Eddie Brock aparenta estar com os seus pés em uma esteira rolante, enquanto o fundo verde termina incompetentemente o trabalho de ambientação. O cenário, durante planos fechados do rosto do protagonista, fica desfocado e percebemos, com extrema facilidade, a dificuldade da obra no investimento em efeitos especiais. A cinematografia é fraquíssima, sendo que, da primeira cena, um céu estrelado, em diante, acompanhamos uma degradação de qualidade da imagem. O diretor também não tem o menor controle da câmera – com exceção do primeiro momento em que o personagem principal usa seus poderes. O embate final, por fim, é uma confusão visual que daria inveja aos quadrinhos mais bagunçados dos anos 90. As texturas dos personagens em computação gráfica, por exemplo, deviam ter sido pensadas para funcionar em um duelo completamente digital. Venom, dessa forma, simplesmente nada é, senão um pedaço desmembrado, decapitado e sem vida, em toda a glória da redundância.

  • Observação¹: A primeira cena pós-créditos é muito boa, dando margem à possível introdução definitiva de um querido personagem dos quadrinhos.
  • Observação²: A segunda cena pós-créditos é um teaser para Homem-Aranha no Aranhaverso, aparentemente desnecessária, mas, confiem em mim, é uma experiência melhor que a assistida anteriormente.

Venom — EUA, 2018
Direção: Ruben Fleischer
Roteiro: Jeff Pinkner, Scott Rosenberg, Kelly Marcel
Elenco: Tom Hardy, Michelle Williams, Riz Ahmed, Scott Haze, Reid Scott, Jenny Slate, Woody Harrelson, Sope Aluko, Scott Deckert, Marcella Bragio, Michelle Lee, Mac Brandt, Christian Convery, Sam Medina
Duração: 112 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.