Crítica | Venom: Primeiro Hospedeiro

É perfeitamente compreensível que, no ano em que Venom ganha seu primeiro longa-metragem solo, a Marvel Comics tenha decidido focar no anti-herói em suas publicações, usando-o até mesmo como um dos três alicerces de sua iniciativa Fresh Start. Mas, mais do que apenas focar, a editora resolveu revolucionar o personagem, reformulando a origem dos simbiontes em um gigantesco retcon alvo do primeiro arco da nova publicação própria dele e, simultaneamente, em Primeiro Hospedeiro (tradução direta de First Host, já que, à época da publicação da presente crítica, não havia lançamento oficial no Brasil), fazer um segundo retcon, este de menor relevância, que revela que não foram nem Peter Parker nem Eddie Brock os primeiros hospedeiros do simbionte Venom (chamemo-lo assim para facilitar já que, tecnicamente, ele não tem nome).

A minissérie aposta na paciência do leitor em aceitar essa gigantesca quantidade de modificações na mitologia do personagem, mas a grande verdade é que retcons que não alteram a essência da criação sendo mexida não deveriam ter o condão de causar síncopes nervosas em ninguém. Assim como não vejo mal na maluquice cósmica que Donny Cates fez em Rex, não vejo maiores problemas no roteiro de Mike Costa que volta no tempo para a Guerra Kree-Skrull para mostrar que foi o guerreiro Kree Tel-Kar o primeiro a unir-se com o simbionte que eventualmente seria “achado” por Peter Parker no planeta do Beyonder em Guerras Secretas. Afinal, trata-se, apenas, de mais uma camada na cada vez mais complexa – e, confesso, poluída – história de Venom que não é revolucionário e nem trai o personagem, mas que resulta em uma história divertida e bem amarrada.

Depois de um prólogo durante a mencionada guerra em que somos apresentados a Tel-Kar como um valente guerreiro que usa o simbionte para fazer os Skrulls provarem de seu próprio remédio transmutador, infiltrando-se no alto escalão dos queixudos, somos transportados para a Terra, com Brock e seu simbionte felizes da vida com a nova prole deles sendo “cuidada” por Liz Allen que logo revela querer usar o “bebê-gosma” para desenvolver novos componentes químicos para medicamentos. Esse aspecto da narrativa de Mike Costa, porém, logo se perde e fica substancialmente no esquecimento, já que Tel-Kar chega à Terra para, amigavelmente, depois de um embate com a Skrull M’Lanz em um beco em Nova York, tentar reunir-se ao seu bom e velho simbionte que, ato contínuo, prefere permanecer com Brock. Claro que isso não fica assim e o Kree “bonzinho” logo revela suas verdadeiras cores (calma, ele continua sendo azul…) e ameaça o bebê-gosma se o simbionte não se fundir com ele novamente, naquela clássica reversão de papeis que é mais esperada do que a vitória de Brock ao final.

(1) Tel-Kar vs M’Lanz e (2) Venom e Sleeper (versão feminina).

Diria que, mais do que a grande revelação sobre o tal “primeiro hospedeiro”, o real destaque da minissérie é o pimpolho de Venom que, logicamente, não demora e se funde a Brock, tornando-se Sleeper, um ser simbiótico cujo diferencial, além da aparência, é sintetizar e secretar os mais variados feromônios. Em outras palavas, nasce mais um derivado de Venom na eterna doença da Marvel (e da DC) em replicar seus personagens mais rapidamente do que coelhos.

Mesmo com artifícios narrativos bem óbvios, a história, com mencionei, flui bem e boa parte disso é fruto da excelente arte de Mark Bagley, que retorna à sua parceria com Mike Costa (eles trabalharam no volume 3 de Venom) e cujo trabalho com Brian Michael Bendis fundou as bases para todo o Universo Ultimate. Bagley pode não ser o quadrinista mais revolucionário do mundo, mas caramba, ele sabe desenhar! E, mais do que isso, ele tem um comando excepcional da narrativa lidando bem com muito ou pouco texto, ação ou inação, ambientação terrena ou espacial. Além disso, ele sabe fazer de um limão uma limonada, pegando o conceito de mais um “bebê-Venom” e transformando-o em um simbionte para lá de interessante, com um visual alienígena extremamente atraente (afinal, ele criou o Carnificina e seu visual para Venom é um dos mais adorados por aí e não à toa).

Primeiro Hospedeiro é a perfeita simbiose de um texto que não procura ser muito ousado, mas que traz várias informações novas sobre o personagem-título com uma arte que torna qualquer coisa absolutamente agradável de se ler. Venom, apesar de tantas vezes alterado ao longo das décadas, parece ser matéria-prima interminável para mentes criativas. Onde está afinal de contas a minissérie solo do Sleeper? Quero para ontem!

Venom: Primeiro Hospedeiro (Venom: First Host, EUA – 2018)
Contendo: Venom: Primeiro Hospedeiro #1 a 5
Roteiro: Mike Costa
Arte: Mark Bagley
Arte-final: Andrew Hennessy
Cores: Dono Almara
Letras: Clayton Cowles
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: outubro a novembro de 2018 (de capa), agosto a setembro de 2018 (de banca)
Páginas: 113

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.