Crítica | Versões de Um Crime

estrelas 1

Obs: há spoilers da trama.

A princípio, Versões de Um Crime pode parecer uma obra objetiva em sua proposta e que sabe brincar com a percepção do público sobre os acontecimentos da trama, visto que há alguns plot twists presentes na história. Contudo, uma reviravolta, por mais surpreendente que seja, não é sinônimo de um enredo bem desenvolvido e não apaga o que foi construído anteriormente, pelo contrário, deve vir para complementar o que foi abordado até então. No entanto, o filme analisado a seguir consegue a proeza de tornar-se mais problemático quando examinado após o seu revés.

A obra mostra a história de Ramsey, um advogado (Keanu Reeves) encarregado de defender Mike (Gabriel Basso), um adolescente acusado de matar o próprio pai, e revelar a verdade por trás do crime. À medida que investiga, descobre que a mãe do garoto (Renée Zellweger) está ocultando diversos fatos essenciais ao caso.

Grande parte do longa ocorre dentro do tribunal, onde são apresentadas as provas do caso, depoimentos das testemunhas e argumentos dos advogados, enquanto Ramsey narra sua visão sobre os fatos. Por isso, a obra abre mão de um desenvolvimento mais aprofundado dos personagens e focaliza no crime ocorrido; apenas o réu, sua mãe e a vítima são levemente explorados, contudo, isso não se aplica ao protagonista interpretado por Keanu Reeves. Aliás, é importante dizer que uma obra cuja proposta seja inteiramente focada em um julgamento ou crime não é um problema, há trabalhos memoráveis com essa premissa, como 12 Homens e Uma Sentença, por exemplo. Entretanto, no caso de Versões de Um Crime, antes de falar do plot twist em si, a parte que envolve o tribunal é rasa e a curta duração não possibilita uma apresentação maior de informações, as provas são opacas, pouco contundentes e os próprios depoimentos têm pouco impacto.

Mas o verdadeiro defeito da narrativa está em seu final. Antes do assassino vir à tona, a dúvida sobre o autor do crime fica entre Loretta (a esposa), Mike (o filho) e um vizinho ciumento, até que o Ramsey é revelado como o real criminoso, acarretando em alguns problemas. A primeira falha está nas motivações do protagonista, uma vez que, sua vida pessoal quase não é desenvolvida e, de repente, ele torna-se o centro de todo o caso sem nenhuma sugestão, preparação ou explicação plausível para justificar uma atitude homicida em seu comportamento, soando algo completamente aleatório.

Contudo, a pior de todas as falhas está na incoerência no  próprio discurso de Ramsey. Repare como o advogado, no início, diz não ter como montar uma estratégia de defesa para seu cliente se ele não lhe disser o que aconteceu, algo compreensível (apesar de mostrar como ele é um péssimo advogado que abre mão da sua abertura frente aos jurados por causa disso). No entanto, se o protagonista matou Boone (e o filme deixa explícito que sim, inclusive mostrando o momento), ele tinha total conhecimento sobre todos os fatos, uma vez que, estava presente na cena do crime e sabia que o garoto tinha assumido a culpa apenas para salvar a mãe, algo mais do que suficiente para pensar em uma narrativa fictícia que soasse plausível para o júri. Resumindo, em nenhum momento o advogado realmente dependeu do depoimento garoto, como a obra enfatiza várias vezes, uma vez que, ele foi o pivô de tudo aquilo, planejou o assassinato com a mãe do menino e sabia todos os detalhes do caso, uma falha grave e imperdoável do roteirista Nicholas Kazan.

Aliado ao pífio roteiro, temos uma direção discreta, preguiçosa e sem nenhuma inspiração de Courtney Hunt, que não faz nada além de intercalar close-ups, planos médios e alguns breves planos abertos, estratégia que não é ruim, mas, ao mesmo tempo, qualquer cineasta faria e que não acrescenta nada para a narrativa; restando elogios apenas à edição que intercala bem os flashbacks com os depoimentos no tribunal. Além disso, salvam-se as atuações de Renée Zellweger e James Belushi, construindo bem a relação conturbada do casal, ela como uma mulher quebrantada por dentro e ele como um marido abusivo e violento. Já Keanu Reeves mostra-se robótico e em nenhum momento destaca a dualidade de seu personagem e o traço assassino presente no advogado, algo fundamental, visto o desfecho da trama.

Poderia ser dito também que o longa peca por não explorar o potencial ético da trama, debatendo se é justo o homicídio para salvar a vida de uma pessoa inocente, mas o filme não se preocupa com isso. Aliás, se o próprio roteiro se sabota, não dá para esperar que o mesmo saiba desenvolver algum subtexto descente, então, por que eu deveria me preocupar?

Versões de Um Crime (The Whole Truth) – EUA, 2016
Direção: Courtney Hunt
Roteiro: Nicholas Kazan
Elenco: Keanu Reeves, Renée Zellweger, Gugu Mbatha-Raw, Gabriel Basso, Jim Belushi, Jim Klock, Sean Bridgers, Christopher Berry
Duração: 93 minutos

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.