Crítica | Vestida Para Matar

estrelas 4

Brian de Palma é um diretor excepcional. Admirador do cinema de Alfred Hitchcock, já foi acusado de plagiador. Uma calúnia. É óbvio que às o cineasta vezes retomou alguns temas do mestre do suspense, mas o fez ao seu modo, de um jeito que em poucas ocasiões pudemos acompanhar: um tratamento espetacular das imagens, da forma como estas são justapostas e do som que as acompanha. Um primor, se observado com a devida dedicação.

Em Vestida para Matar, lançado em 1980, o diretor também assinou o roteiro e nos oferece a seguinte história: Kate (Angie Dickinson) é uma dona de casa frustrada sexualmente. Logo na cena de abertura, ela imagina uma cena tórrida no chuveiro, enquanto o seu marido se barbeia. Essa questão é levada para o consultório do seu psiquiatra, o Dr. Robert Elliot (Michael Caine), pois a personagem está, como dizem vulgarmente, “subindo pelas paredes” de tanta falta de suprimento sexual por parte do marido “devagar”.

Kate é mais uma dessas donas de casa que o cinema nos apresenta, infelizes no casamento e com o veredicto de vida medíocre. Após a sessão com o psiquiatra, ela decide ir a um museu, local que lhe oferta uma situação inusitada: um estranho começa a trocar olhares, fazendo-lhe entrar em um jogo de caça que nos remete ao filme Um Corpo Que Cai. Ágil, dinâmica, bem enquadrada e com os movimentos certos, essa cena ganha força com o excelente trabalho de montagem.

O encontro com o estranho e a entrega sexual num apartamento no centro da cidade não demora de acontecer. É preciso observar como uma cena aparentemente tão trivial é filmada de forma fascinante. Após o ato sexual, Kate está devidamente saciada, e arrumando-se para voltar à sua vida normal, encontra um envelope nas coisas pessoais do “estranho”: ele está contaminado por uma doença venérea. Assustada, a dona de casa segue pelo corredor do hotel e adentra no elevador, mas percebe que esqueceu a sua aliança de casamento. Nesse meio tempo, uma figura aparentemente feminina surge em sua frente e a mata com navalhadas.

Seria mais um crime jornalístico ou castigo de filmes de terror para personagens promíscuos se a garota de programa Liz (Nancy Allen) não estivesse vindo em direção ao elevador no momento do crime. A moça passa de testemunha à suspeita depois de tocar na navalha, numa tentativa errônea de buscar entender a cena sangrenta que passa diante dos seus olhos.

A partir dai, Liz vai começar a ser perseguida por essa figura. Como no geral, a polícia é revelada nestas narrativas como incapaz de proteger qualquer personagem, será o filho da dona de casa assassinada, Peter (Keith Gordon), o parceiro na investigação do crime e protetor da moça que testemunhou o fatídico acontecimento.

Vestida para Matar é um filme que mostra a preocupação do diretor com o estatuto da linguagem do cinema. Tendo como aliados a fotografia onírica e a mixagem de som de Pino Donaggio, o cineasta cria um estilo próprio, com base nos seus antecessores e até mesmo nos contemporâneos, e eleva a linguagem cinematográfica ao que de fato ela é: manipulação da luz, movimentos e enquadramentos de câmera e a ação da boa montagem.

Recentemente, Brian De Palma lançou Guerra sem Cortes, um filme sobre o estupro de uma jovem e a chacina de toda a sua família por parte de soldados estadunidense no Iraque, em 2006. O filme vem na esteira dos temas abordados pelo diretor desde sempre: suspense, assassinato e desordem psíquica, narrados com um estilo de câmera que poucos possuem a capacidade de se igualar.

Guerra sem Cortes e Vestida para Matar são filmes sobre misoginia e ataques brutais ao feminino, como ocorre em Carrie: A Estranha, Dália Negra e Paixão. Similar ao que acontece a Marion Crane em Psicose, o destino de Kate vai ser modificado por uma falha moral dentro da sua vida de classe média sem grandes momentos e emoções. Como crítico, cinéfilo e professor de linguagem cinematográfica, não curto determinismos, mas considero que Vestida para Matar é uma experiência incompleta se você não tiver assistido ao clássico de Hitchcock. Experimente a leitura comparada, caro leitor, e perceberá como o seu olhar para a linguagem cinematográfica vai alçar novos voos.

Vestida para Matar (Dress To Kill, Estados Unidos – 1980)
Direção: Brian De Palma.
Roteiro: Brian De Palma.
Elenco: Angie Dickinson, Nancy Allen, Michael Caine, Keith Gordon, Dennis Franz, David Hargulies, Ken Baker, Norman Evans.
Duração: 105 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.