Crítica | Viagem a Darjeeling

estrelas 4Precedido pelo curta Hotel Chevalier, Viagem a Darjeeling é, como qualquer filme de Wes Anderson, um filme extremamente autoral. De fato, Wes Anderson é daqueles diretores que, constantemente, parece querer se aventurar no próprio estilo, transformando histórias um tanto banais em experiências tão estranhas quanto fascinantes (o diretor atingiu o ápice desta experimentação com o simplesmente adorável Moonrise Kingdom).

No caso de Viagem a Darjeeling, Anderson elabora um road movie ambientado na Índia, onde três irmãos, Francis (Owen Wilson), Peter (Adrien Brody) e Jack (Jason Schwartzman) partem em uma espécie de busca espiritual após a morte do pai de Francis. Os três irmãos também desejam encontrar sua mãe, Patricia (Angelica Houston), que após uma crise de meia idade, tornou-se freira em uma missão católica e desapareceu nas montanhas do Himalaia.

Se há algo nos filmes de Anderson que consegue falar mais alto que o seu próprio estilo é a desfuncionalidade de seus personagens enquanto seres humanos, e a busca de autodescoberta de cada um deles. O roteiro, de autoria do próprio Wes Anderson em parceria com Roman Coppola e o ator Jason Schwartzman, aos poucos vai revelando as cicatrizes ainda abertas de seus personagens, cicatrizes estas que são sutilmente exibidas desde o início, como a enorme faixa que cobre o rosto machucado de Francis.

E como o diretor experimental que é, Anderson faz sua história passear por cima de uma linha que oscila perfeitamente entre o drama e a comédia, onde situações absurdas são utilizadas em favor de uma narrativa que aposta muito no silêncio e longas pausas parece conseguir alcançar seu objetivo e transmitir sua mensagem, e tudo isto sem que o filme jamais caia na caricatura exagerada.

Neste ponto, podemos perceber o quanto Wes Anderson é um realizador de grande equilíbrio. Ele enche seu filme de cenas em slow motions, cores extravagantes e cenários exóticos, exemplificando o choque cultural entre a Índia e os ocidentais, mas cada um destes artifícios é inserido como uma forma de servir à história, que oscila entre ares claustrofóbicos e humorísticos.

Pecando apenas em um terceiro ato um tanto bagunçado e fora dos eixos do que fora visto até então, Viagem a Darjeeling é mais uma bela obra de Wes Anderson sobre o cotidiano da vida, repleta de bom humor, sagacidade e até mesmo um nível de amargura na busca de seus personagens em encontrar soluções para as pendências de suas vidas.

Viagem a Darjeeling (The Darjeeling Limited, EUA, 2007)
Roteiro: Wes Anderson, Jason Schwartzman, Roman Coppola
Direção: Wes Anderson
Elenco: Owen Wilson, Adrien Brody, Jason Schwartzman, Angelica Huston, Bill Murray, Irrfan Khan, Barbet Schroeder
Duração: 91 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.